Conflito Distributivo e Ideologia

mafalda-apagador-de-ideologiasPresenciei, no auditório do IE-UNICAMP, um debate entre economistas recém formados pela FGV-EESP e Universidade de Viçosa, dois dos quais trabalham no mercado financeiro, uma fez pós-graduação no exterior e outro iniciou a busca de emprego. Todos são membros do grupo que dirige o interessante site Terraço Econômico.

Falaram sobre conjuntura política e econômica. Impressionou-me mais como repetem o discurso pasteurizado de “economistas de O Mercado”. Estes produzem um empobrecimento das qualidades de autenticidade expressiva da teoria econômica neoclássica, misturando-a com o neoliberalismo, com o intuito de agradar ao público-alvo (“opinião especializada”) ou tornar sua mensagem mais chã à opinião pública.

Aberto o debate, não conseguiram dar uma resposta convincente a um estudante que, simplesmente, perguntou: “o que ocorrerá após o ajuste fiscal? Quais são as perspectivas em longo prazo da economia brasileira?”. Deram a impressão que só aprenderam a mimetizar o discurso convencional sobre política econômica em curto prazo. Será que, ultrapassada a (má) conjuntura, as “livres-forças-do-mercado” tomarão as “rédeas-da-história”, conduzindo o nosso futuro ao melhor equilíbrio possível?!

Então, como não havia contraponto, não resisti a lhes perguntar: “qual é a ideologia de cada um de vocês? Quem se define a favor do livre-mercado ou da regulação governamental?”.

O primeiro, que trabalha no mercado financeiro, respondeu de forma resoluta: “sou neoliberal a favor da igualdade de oportunidades e, após uma educação igualitária, de que a meritocracia seja respeitada”. O segundo, que busca emprego, disse que é ainda muito novo para ter uma posição político-ideológica, embora simpatize com a síntese neoclássica. O terceiro, que trabalha com econometria, assumiu a posição neokeynesiana. Finalmente, a estudante que fez a pós-graduação em Relações Internacionais, tentou ser diplomática e pragmática, achando que a posição centrista é a melhor para se obter um equilíbrio.

Depois, um deles retrucou-me: “gostaríamos de saber, agora, qual posição ideológica o senhor assume, professor”.

Respondi-lhe, de imediato, que eu não me defino por ser adepto de alguma corrente da história do pensamento econômico, tipo marxista, pós-keynesiana, neoschumpeteriana, etc. Meu entusiasmo atual está em estudar novas linhas de pensamento, tais como a Economia Comportamental, Institucionalista, Evolucionária e Complexa. Não acho que o pensamento abstrato deve ser apresentado como ideologia, ou pior, como um rótulo a ser adotado ou colocado.

Sendo um profissional que trabalha no Brasil, acho mais adequado assumir uma posição no histórico debate, em nível mais baixo de abstração, que sintetiza duas grandes vertentes da história do pensamento econômico brasileiro: a desenvolvimentista e a liberal. No século XIX, esse debate ocorreu entre papelistas e metalistas. Superada a hegemonia liberal, na Primeira República (1889-1930), o industrial paulista Roberto Simonsen e o economista Eugênio Gudin, professor da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, protagonizaram o debate. Na pauta, estava a necessidade ou não do País investir na industrialização, recorrendo ao planejamento, ou seguir sua “vocação agrícola natural”.

As controvérsias entre “dirigismo” e “liberalismo” econômico se deram em torno dos benefícios da industrialização, em economia ainda essencialmente agrícola, face às vantagens comparativas propiciadas por uma especialização no âmbito da divisão internacional do trabalho. Seguiu-se com o debate entre o nacional-desenvolvimentismo com seu “protecionismo” e o liberalismo com seu “livre-cambismo” impondo seletividade às “indústrias nascentes”. Evidentemente, tal querela inspira-se também no debate europeu sobre a participação direta do Estado na economia: o antigo mercantilismo ou o clássico laissez-faire.

Recentemente, o novo-desenvolvimentismo distingue-se pela ênfase na política de desvalorização da moeda nacional como a estratégia crucial da política econômica em curto prazo. Sendo assim, acredita ser possível implantar aqui um modelo asiático de exportação. O social-desenvolvimentismo faz o contraponto, argumentando que esse choque cambial resultaria em um choque inflacionário que corroeria os salários reais da base eleitoral do governo. Este enfatiza a política social ativa não só como um dever de justiça social, mas também como um componente-chave da ampliação do número de consumidores no mercado interno brasileiro para atração de investimento direto estrangeiro.

A estratégia observada (e defendida) pelo social-desenvolvimentismo, para a década corrente, é direcionada pelo investimento do setor produtivo estatal, associando os fundos de pensão patrocinados pelo setor público com o setor privado nacional e estrangeiro. O investimento autônomo é crucial diante das condições recessivas da demanda externa em contexto de crise internacional. Em conjunto com o gasto público orçamentário, operaria como indutor do gasto privado. Significaria adotar o olhar estadista “para enxergar mais adiante, além da demanda corrente”. O social-desenvolvimentismo não se restringe ao debate da política econômica em curto prazo. Destaca a importância de investimento em infraestrutura e logística, porém, não se reduz a esse o foco.

Em termos ideológicos, é evidente que os participantes desse debate econômico se distribuem, pessoalmente, em posições em conflito do humanismo ou racionalismo esclarecido, do conservadorismo, do fundamentalismo religioso, do nacionalismo, ou de ideologias utópicas como o socialismo, o ambientalismo, etc.

Temas menos debatido aqui são os dilemas republicanos entre liberdade, igualdade e paternidade. Os socialdemocratas tendem a pregar a igualdade de resultados, acreditando que em uma sociedade justa não deve haver grandes diferenças de renda ou riqueza, portanto, estas devem ser fortemente tributadas.

No entanto, uma sociedade livre permitiria a transmissão de herança, então, a desigualdade de riqueza. Neste caso, a sociedade deixaria de ser igualitária e justa, pois alguns herdarão riquezas pelas quais jamais trabalharam.

Os liberais colocam mais ênfase na justiça social sob forma de igualdade de oportunidades. Desde que as pessoas possam subir na escala social, eles acreditam que mesmo uma sociedade com grande diferença de renda e/ou riqueza ainda pode ser justa. Defendem a meritocracia. O problema é como colocar igualdade na “linha-de-partida” da mobilidade social, se o amor que os pais dedicam a seus filhos lhes transmite herança patrimonial, cultural e educacional? Os mais ricos, saindo na frente, tendem a chegar antes…

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