Estabilizando uma Economia Instável

Estabilizando

Por acaso, descobri que o livro-síntese da obra de Hyman Minsky, Estabilizando uma Economia Instável, foi traduzido e lançado no Brasil em 2009 pela Novo Século Editora de Osasco-SP. Tomei conhecimento deste autor, que considero o mais interessante entre os pós-keynesianos, em 1985, quando cursava o Doutoramento em Economia na UNICAMP. Porque o professor Belluzzo foi assumir a Secretaria de Política econômica do Ministério da Fazenda, em Brasília, fui convidado a assumir a disciplina, isto é, tornar-me meu próprio professor!

Estabilizando-uma-economia-instavelMeu ex-colega do IBGE e amigo, Fernando Cardim de Carvalho, estava voltando do seu doutoramento com o professor Paul Davidson, nos Estados Unidos, então convidei-o a dar três palestras no meu curso. Foi com ele que aprendi o pós-keynesianismo e passei a admirar o maior Teórico dos Passivos: Hyman Minsky.

Anteriormente, havia uma Teoria do Portfólio – a respeito da seleção da carteira de ativos ou formas de manutenção da riqueza –, mas a teoria econômica carecia de uma Teoria da Composição Passiva, isto é, do funding ou fontes de financiamento. Ele propiciou o entendimento do dinamismo dos fluxos de caixa, isto é, entrada e saída de dinheiro dos agentes econômicos.

Escrevi muito a respeito de suas ideias nos meus livros – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000). Agora, quando enfrento o desafio de entender, aprender e ensinar Economia da Complexidade, talvez seja valioso para mim reler seu capítulo (9) “Compromissos Financeiros e Instabilidade”.

Para Minsky, a razão principal pela qual a economia se comporta de diferentes maneiras em momentos diferentes é o fato de que as práticas e a estrutura dos compromissos financeiros mudam. As práticas financeiras resultam no pagamento de compromissos que são incorporados nos contratos que refletem as condições de mercado e as expectativas que serviam de regra quando foram negociados e assinados.

O pagamento de compromissos acontece e as dívidas são pagas na medida em que a economia evolui ao longo do tempo. Seu comportamento e, particularmente, sua estabilidade mudam à medida que o vínculo da relação de compromissos diante dos fundos muda e com o envolvimento da complexidade que os arranjos financeiros envolvem.

O financiamento da atividade resulta em um resíduo de compromissos financeiros. O investimento não somente afeta a produção agregada, a distribuição de renda e a capacidade produtiva, mas, em uma economia capitalista, também deixa marcas na estrutura financeira.

Além disso, posições nos bens de capital herdados são financiadas por instrumentos que fazem parte do lado do balanço financeiro voltado para obrigações. A estrutura de obrigações utilizada no financiamento de posse de bens de capital muda, o que em troca afeta a estrutura de relações financeiras e dos compromissos de pagamento: fusões, transferência de administração e aquisições mudam a estrutura de obrigações sem alterar a produção agregada ou a capacidade produtiva da economia.

Os lucros estão disponíveis para os inovadores das estruturas financeiras e instituições, assim como para aqueles que buscam inovar produtos, técnicas de produção e marketing. Muitas das grandes fortunas foram amealhadas produção meio de inovações financeiras, seja por tomadores seja por concessores de empréstimos. Quando uma determinada inovação se demonstra bem-sucedida, ela poderá se ampliar rapidamente, já que é sempre a aplicação de alguma ideia, e não há qualquer patente que limite os imitadores.

O governo influencia as normas dos comportamento e estrutura financeiros. Mas as inovações financeiras são feitas nas brechas da lei, fugindo da regulação ou controle da Autoridade Monetária. A estrutura financeira foi regulada após a crise de 1929 e desregulamentada antes da crise de 2008. Logo, crise financeira é causa e consequência…

Para analisar como os compromissos financeiros afetam a economia, Minsky observa os agentes econômicos em termos de seus fluxos de caixa. Essa abordagem é empregada para todas as unidades de dispêndio, sejam elas individuais, corporativas, governamentais, como se fossem bancos.

Os bancos apresentam liquidez e solvência por meio da auto liquidação de seus empréstimos comerciais. Os fluxos de caixa provenientes de vendas das instituições comerciais levariam a pagamento aos bancos. Tais pagamento garantiriam a liquidez e solvência das instituições financeiras. Do mesmo modo, as empresas não-financeiras precisam manter a liquidez e a solvência. Portanto, o pagamento de compromissos em dívidas deve ocorrer por meio de títulos determinados pelos fluxos de caixa esperados e realizados.

Uma vez que a gerência de “bancos grandes demais para falir” assume que as Autoridade Monetária sempre agirá para mantê-los saudáveis, o que na prática é verdade, o comportamento dos banqueiros sempre considerará a existência de uma rede de segurança por meio dos bail-outs. Este é um termo usado para descrever uma situação em que uma empresa ou banco falido, ou à beira da falência, recebe uma injeção de liquidez para conseguir cumprir suas obrigações em curto prazo.

A falta de sincronia entre os pagamentos e os recebimentos de dívidas contratuais relativas a operações podem fazer parte da relação banco-negócios, na medida em que investimentos de maturação em longo prazo são financiados por obrigações de curto prazo. Em uma economia capitalista, os acertos de financiamento nos quais devedores pagam suas dívidas não com dinheiro derivado da produção de receita, mas sim obtido por meio de emissão de novas dívidas, provavelmente surgirão. Para manter a estabilidade da economia, tem que se entender todas as implicações das dívidas e dos financiamentos externos das estruturas financeiras.

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