Economia Comportamental: Caracterização e Comentários Críticos

Atividades InterdisciplinaresA dissertação de Mestrado, defendida por Alex Sandro Rodrigues de Castro no IE-UNICAMP, em 2014, cujo orientador foi meu colega Prof. Dr. David Dequech Filho, busca apresentar e discutir as principais características da Economia Comportamental, identificando suas diferentes abordagens e comparando-as com a Economia Neoclássica.

A intenção é apresentar as propostas e a estrutura conceitual das abordagens psicológicas e realçar os elementos de ruptura e continuidade em relação à Economia Neoclássica. Os conceitos básicos e as principais descobertas da economia comportamental são apresentados particularmente com base nos trabalhos de Daniel Kahneman e Amos Tversky.

Ao final, a dissertação:

  1. destaca as objeções de Gerd Gigerenzer ao programa de pesquisa de Kahneman e Tversky e
  2. faz comentários críticos ao individualismo das abordagens psicológicas que penetraram a economia mainstream.

Destacaremos aqui essa parte final. Antes, porém, vale examinar sua resposta à questão que ele mesmo se lança: O que é Economia Comportamental?

Afirma que definir Economia Comportamental não é trivial. Em parte, porque a própria disciplina da Economia é por vezes definida como uma Ciência do Comportamento. Em parte, porque alguns dos elementos do que hoje chamamos Economia Comportamental podem ser encontrados nos escritos dos utilitaristas marginais, dos institucionalistas e de outros economistas menos ortodoxos do período anterior à Segunda Guerra Mundial.

De resto, dificilmente se pode dizer que a Economia Comportamental constitua uma escola de pensamento econômico, no sentido de que possa ser definida por um conjunto particular de ideias e por sua consistência interna. A Economia Comportamental abrange abordagens muito diferentes entre si e existe desacordo acerca de quais delas devem ou não ser incluídas em um corpo teórico unificado.

Em vez de oferecer um modelo de racionalidade único como alternativa ao modelo padrão, a Economia Comportamental apresenta um corpo dinâmico e variado de teorias, muitas das quais são conflitantes entre si em termos de suas premissas e previsões. Com base nesse argumento, o keynesianismo com suas diversas correntes também não constituiria uma escola de pensamento econômico…

John Tomer (2007) descreve a Economia Comportamental incluindo oito abordagens distintas, mas Castro (2014) acrescenta mais duas abordagens à sua classificação:

  1. Herbert Simon e a Escola de Carnegie;
  2. George Katona e a Escola de Michigan;
  3. Economia Psicológica de Colin Camerer, Daniel Kahneman, David Laibson, George Loewenstein, Matthew Rabin e Richard Thaler;
  4. Harvey Leibenstein e a Teoria da Eficiência-X;
  5. George Akerlof e a Macroeconomia Comportamental;
  6. Richard Nelson, Sidney Winter e a Teoria Evolucionária;
  7. Finanças Comportamentais;
  8. Vernon Smith e a Economia Experimental;
  9. Economia Psicológica de Peter Earl; e
  10. Gerd Gigerenzer e o grupo de Berlim.

Existem outras classificações que se baseiam em critérios de proximidade teórica e metodológica entre:

  1. as abordagens psicológicas e
  2. a tradição neoclássica.

Uns autores distinguem entre Economia Comportamental “verdadeira” e “falsa”, enquanto outros separam “velha” e “nova” Economia Comportamental. Em ambos os casos:

  • a primeira é vista como um desafio à Economia Neoclássica,
  • a última se trata de um meio de reformá-la, retendo seus pressupostos básicos.

Na minha opinião (FNC), essa disputa por “nichos de mercado de trabalho”, distinguindo-se fronteiras abstratas, faz parte de longa tradição de buscar o monopólio da “verdade” por parte de sub castas de economistas…

À luz dessas dificuldades, Castro define a Economia Comportamental, de modo amplo, como um movimento cujo objetivo principal é aumentar o poder explicativo e preditivo da análise econômica, provendo-a de pressupostos psicológicos mais realistas.

A ênfase no trabalho interdisciplinar tem levado muitos autores a superestimar o impacto da integração entre:

  1. a Economia e a Psicologia, ou
  2. a Economia e outras Ciências Sociais e Biológicas.

Na verdade, o que se observou, muitas vezes, foi somente a utilização seletiva de conceitos, métodos e resultados empíricos da Psicologia na teoria econômica.

A “caixa de ferramentas” dos economistas, antes restrita à Modelagem Matemática, à Teoria dos Jogos e à Análise Econométrica, passou a incluir um conjunto heterogêneo de técnicas como:

  1. simulações de computador,
  2. levantamentos (surveys),
  3. experimentos de laboratório e de campo, e
  4. até mesmo neuroimagens.

Não se segue disso que a Economia Comportamental tenha abandonado o método axiomático e dedutivista de construção teórica em favor de abordagens indutivistas ou mais fundamentadas empiricamente (empirically-grounded). Muitas vezes, os novos instrumentos de pesquisa apenas forneceram “matéria-prima” para a “máquina” de transformar suposições em previsões da teoria econômica.

Referindo-se à Economia Comportamental, alguns críticos sustentam que esta não fez mais que:

  • adicionar novos parâmetros aos modelos neoclássicos para ajustar os dados de resultados das decisões,
  • em vez de especificar os processos psicológicos que realmente explicam estes dados.

Mesmo um legítimo representante das abordagens psicológicas da Economia Mainstream reconhece o papel limitado da Psicologia na Teoria Econômica Comportamental.

Outros assinalam alguns dos obstáculos ao aprofundamento do debate e do trabalho conjunto entre psicólogos e economistas comportamentais (mainstream).

Primeiro, uma das principais dificuldades que alguns psicólogos têm no contato com a literatura da Economia Comportamental se refere ao que consideram um excesso de formalização matemática. Os valores epistêmicos e os critérios de cientificidade prevalecentes na Economia mainstream ao longo do século XX aproximaram a disciplina das Ciências Físicas. Os psicólogos também foram inspirados pelas Ciências Naturais, por tradições experimentais em vez das disciplinas matemáticas.

Como resultado, para um economista, uma teoria é um corpo de ferramentas e teoremas matemáticos. Para um psicólogo, uma teoria é uma construção verbal que organiza a regularidade experimental.

Segundo, psicólogos são céticos quanto ao uso da abordagem “como se” típica dos economistas, segundo a qual não importa que os axiomas não sejam uma representação acurada das características dos indivíduos, contanto que o modelo explique os fatos.

Essa divergência decorre em parte do foco diferente da Psicologia e da Economia:

  • enquanto a primeira está preocupada principalmente com o comportamento individual,
  • a segunda se concentra no comportamento agregado.

Em consequência, economistas estão mais interessados em previsões do que em causas, são mais preocupados com resultados do que com processos.

Terceiro, os economistas são criticados por sua visão excessivamente simplista do mundo e, em particular, da natureza humana. Os economistas costumam dizer que essas críticas resultam de uma compreensão defeituosa do uso da abstração em economia. Retrucam que relaxar todas as hipóteses simplificadoras conduziria inevitavelmente à intratabilidade das teorias.

Quarto, economistas também são censurados por acreditar que os desvios individuais em relação ao padrão de comportamento racional não merecem atenção especial, uma vez que as forças de mercado corrigirão esses erros e/ou expulsarão esses agentes. Embora essa visão tenha sido questionada pela Economia Comportamental, ela ainda contribui para a suspeição dos psicólogos a respeito da abordagem dos economistas à natureza humana.

Da parte dos economistas também há preocupações em relação às práticas típicas dos psicólogos.

A principal crítica aponta a ausência de uma Teoria Geral na qual as contribuições dispersas possam ser integradas.

Questiona-se também a propensão dos psicólogos a se engajar em tratamentos exaustivos de cada situação específica, sacrificando a generalidade das explicações em favor da acurácia das descrições de casos individuais.

De novo, a diferença de foco das disciplinas responde em parte pelas práticas distintas. Psicólogos observam o comportamento do indivíduo a fim de testar hipóteses sobre os processos subjacentes. E embora essas hipóteses sejam muitas vezes derivadas de teorias mais gerais, essas teorias são específicas do domínio, em vez de arcabouços universalmente aplicáveis.

Por fim, ressalta-se também a ausência de um vocabulário unificado como outro obstáculo ao debate interdisciplinar. Noções como “racionalidade”, “utilidade”, “preferências”, “emoção”, “cognição”, “estima”, etc., têm diferentes significados para pessoas diversas e podem resultar em sérios desentendimentos.

Continua em próximo post.

One thought on “Economia Comportamental: Caracterização e Comentários Críticos

  1. “economistas estão mais interessados em previsões do que em causas, são mais preocupados com resultados do que com processos.” Pode até ser verdade, mas é difícil ver previsões que não venham com explicações ditando as causas, como se fossem irrefutáveis

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