Homem Psicológico

Human brain left and right functionsAlex Sandro Rodrigues de Castro, em sua dissertação de Mestrado, Economia Comportamental: Caracterização e Comentários Críticos, defendida em 2014 no IE-UNICAMP, apresenta e discute, extensamente, a solução sugerida por economistas comportamentais ao problema do Homem Econômico. O problema da explicação do comportamento econômico individual tem levado os economistas comportamentais a buscar fundamentos psicológicos mais plausíveis para a teoria econômica.

Todavia, alguns comentaristas como Gerd Gigerenzer e seus colaboradores argumentam que a maior parte do trabalho no campo, embora motivada pela busca de bases mais realistas, não foi capaz de se emancipar completamente da abordagem “como se” da Economia Neoclássica. Os argumentos “as if” ainda são frequentemente encontrados na Economia Comportamental mainstream para justificar os modelos “psicológicos” que apenas adicionam novos parâmetros para mais bem ajustar os dados de resultado de decisão em vez de especificar os processos psicológicos que realmente explicam estes dados.

Do ponto de vista de Berg e Gigerenzer (2010), as abordagens psicológicas que penetraram a Economia mainstream não representam uma alternativa real à teoria neoclássica, mas somente um programa de “reparo” de um paradigma de racionalidade que começou a ser construído no século XVII por Daniel Bernoulli, e que, no século XX, foi completado por Savage e reformado por Kahneman e Tversky.

Assim sendo, a Economia Comportamental seria apenas a Economia Neoclássica “disfarçada” sob funções-utilidade modificadas e novos parâmetros com rótulos psicológicos. O julgamento e a tomada de decisão continuam sendo descritos como um processo otimizador que demanda quantidades irrealistas de cálculo e de informação. “Processo otimizador”, p.ex., do altruísmo?!

Segundo Alex, “os pressupostos de que os agentes se comportam transformando, multiplicando e acrescentando probabilidades e utilidades, assim como o pressuposto de um conhecimento exaustivo das ações e dos respectivos resultados desempenham papéis quase idênticos tanto na Teoria da Utilidade Esperada Subjetiva quanto na Teoria da Perspectiva”. Será? Tenho dúvidas a respeito…

Donde Berg e Gigerenzer concluem que “a promessa da Economia Comportamental de trocar o “Velho” Homem Econômico pelo “Novo” Homem Psicológico é falsa”. Será? Tenho dúvidas a respeito…

Outra linha de críticas faz objeções ao individualismo metodológico das abordagens psicológicas como um todo. Mais especificamente, critica-se o tratamento individualista dado à cognição e à racionalidade pela pesquisa psicológica tradicional no campo do julgamento e da tomada de decisão. Como a falta de precisão na definição dos termos do debate pode enfraquecer os argumentos, Castro faz uma breve digressão sobre as dificuldades envolvidas no uso do conceito de individualismo metodológico.

Uma das dificuldades se refere à variedade de significados e de versões do individualismo metodológico e às ambiguidades presentes na maior parte das definições do termo.

De acordo com Hodgson (2007 b, p. 220), uma ambiguidade fundamental em várias definições é se o individualismo metodológico significa que todos os fenômenos sociais devem ser explicados em termos de:

  1. indivíduos somente, ou
  2. indivíduos mais relações interativas entre indivíduos.

Hodgson argumenta que (1) é impossível na prática e nenhum fenômeno social tem sido explicado completamente a partir dos indivíduos. Por outro lado, ele acredita não haver nada de errado com o teor de (2), mas argumenta que isso equivale a trazer as estruturas sociais ao lado de indivíduos para a explicação e, assim, o termo individualismo metodológico se torna inadequado ao conceito.

A forma extrema do individualismo metodológico toma as ações dos indivíduos como resultantes:

  1. de sua psicologia,
  2. do ambiente físico, e
  3. das ações/reações de outros indivíduos.

Claro que, em tal arcabouço analítico, as instituições podem:

  • emergir como produto (intencional ou não) das ações dos indivíduos e
  • influenciar o comportamento e o pensamento dos indivíduos, provendo incentivos, restrições e informações ao comportamento individual.

Mas as instituições podem aparecer nos modelos e explicações científicas somente como variáveis endógenas.

A regra que orienta essa forma extrema de individualismo metodológico diz que nenhuma explicação social é considerada bem-sucedida até que todas as variáveis exógenas sejam reduzidas:

  • aos estados psicológicos dos indivíduos e
  • aos constrangimentos do ambiente físico.

Este tipo de individualismo metodológico, que não deixa os fatos institucionais entrarem nos antecedentes de uma explicação, é extremo e ipso facto impraticável.

Castro sabe que “algumas instituições devem ser tomadas como dadas e temporalmente anteriores às atuais gerações de indivíduos, em vez de serem explicadas pela interação entre estes indivíduos”. Isso, porém, não invalidaria por completo o esquema analítico anterior, bastando, neste caso, acrescentar as instituições sociais aos elementos usados para explicar as ações dos indivíduos:

  1. de sua psicologia,
  2. do ambiente físico e institucional, e
  3. das ações/reações de outros indivíduos.

Este percurso analítico ainda é problemático porque implica explicar/reduzir o objeto em questão (a ação humana) nos termos de elementos mais simples (psicologia, ambiente social, reações de outros) quando nenhum destes elementos pode ser considerado como dado ou externamente determinado.

Continua em próximo post.

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