Crítica da Economia Institucionalista à Economia Comportamental

InteraçõesNo caso particular da Psicologia, como argumenta David Dequech, meu colega especialista em Economia Institucionalista, “um indivíduo que apenas fosse restringido pelas instituições e recebesse por meio delas informações e incentivos poderia ser tomado como dado previamente a elas, tal como suas formas de pensar e suas motivações” (2012: 11). No entanto, a psicologia dos indivíduos – suas “formas de pensar e as motivações” – é ela mesma, em grande medida, um processo social.

A cognição e a motivação estão imersas (embedded) em ambientes culturais e institucionais específicos. Agentes econômicos interativos e parcialmente flexíveis estão imersos em uma teia de instituições que formam e modificam esses indivíduos.

As instituições estão enraizadas nos hábitos de pensamento e conduta e têm precedência ontológica e temporal sobre a razão e a intenção dos indivíduos tomados isoladamente. Dito de outro modo esse pressuposto institucionalista, os agentes econômicos não apenas operam em um ambiente no qual as instituições provêm incentivos, restrições e informações, mas têm suas motivações e formas de pensar profundamente alteradas pelas instituições.

Como modelos mentais compartilhados, as instituições desempenham uma função cognitiva profunda ao influenciar o modo como os indivíduos selecionam, organizam e interpretam informações. De maneira análoga, as instituições podem exercer um papel motivacional profundo ao influenciar os objetivos que as pessoas buscam e as obrigações que elas se atribuem.

Referindo-se à Economia Comportamental, o sociólogo Mark Granovetter observa que economistas que querem reformar a disciplina geralmente se voltam para os fundamentos psicológicos da teoria econômica – propondo modelos de tomada de decisão psicologicamente mais realistas. Acrescenta que: “por mais ingênua que essa Psicologia [adotada pela teoria neoclássica] possa ser, a principal limitação dessas teorias se encontra em outro lugar – no desprezo pela estrutura social” (1992, p. 4).

O “revisionismo psicológico” permite que economistas continuem a abordar fenômenos socioeconômicos como problemas de decisão de atores atomizados – apenas substituindo o “Homem Econômico” pelo “Homem Psicológico” – sem dar a atenção devida ao modo como o comportamento individual é “constrangido e moldado pelas estruturas de relações sociais em que os atores estão imersos” (Granovetter, 1992, p. 4). Esse “atomismo” facilitou o ingresso de algumas ideias da Economia Comportamental na Economia mainstream.

O foco da Economia Comportamental nas capacidades, processos e propensões individuais (entre estes, sobretudo nos fatores cognitivos) limita seu poder explicativo/preditivo, restando ainda a serem incorporados os efeitos de fatores sociais e culturais sobre a cognição e as escolhas dos agentes.

Grande parte dos resultados da Economia Comportamental não pode ser explicada em termos de normas sociais ou hábitos. Ao contrário, os indivíduos são colocados como átomos em situações experimentais únicas, com influências sociais mínimas e/ou distorcidas e, o que é mais importante, despidos de seus papeis sociais.

Não se nega que, nestas situações experimentais, possa ocorrer alguma “socialização laboratorial” (e, por isso, superficial) e que os resultados dos experimentos possam refletir, em alguma medida, esta intersubjetividade dos agentes.

Mas existe uma grande distância entre o julgamento e a tomada de decisões em experiências artificiais e aqueles que efetivamente ocorrem em contextos sociais reais, uma vez que o efeito dos hábitos, da cultura e das instituições sobre indivíduos não pode ser reproduzido artificialmente.

Mesmo Herbert Simon, que é conhecido por sua investigação sobre processo decisório coletivo em organizações, é alvo de críticas:

  1. por focar muitas vezes em regras de decisão estritamente individuais e
  2. por frequentemente não prestar atenção suficiente ao contexto social em que os atores (individuais ou coletivos) agem e interagem, bem como
  3. por negligenciar a racionalidade de seguir hábitos e regras sociais.

Alguns psicólogos e economistas associados aos ramos comportamentais da Economia mainstream parecem estar cientes disso. Em sua palestra proferida por ocasião da entrega do Prêmio Nobel de 2002, Daniel Kahneman assinalou as limitações e os méritos da pesquisa comportamental padrão.

Alex Sandro Rodrigues de Castro, em sua dissertação de Mestrado, Economia Comportamental: Caracterização e Comentários Críticos, defendida em 2014 no IE-UNICAMP, lança as seguintes questões fundamentais:

  • Os desvios relativamente ao modelo canônico serão a evidência de padrões universais de comportamento, ou será que os ambientes econômicos e sociais do indivíduo conformam o comportamento?
  • Neste caso, que condições econômicas e sociais estão envolvidas?
  • Será o comportamento melhor explicado pelos atributos dos indivíduos, tais como a idade, sexo e riqueza relativa, ou pelos atributos do grupo a que o indivíduo pertence?

Responde que, para abordar este problema, economistas e não-economistas devem unir forças e conhecimentos em estudos “transculturais” de comportamento individual.

Continua em próximo post.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s