Homem Sociológico

behavioral-economicsAlex Sandro Rodrigues de Castro, em sua dissertação de Mestrado, Economia Comportamental: Caracterização e Comentários Críticos, defendida em 2014 no IE-UNICAMP, observa que Granovetter (2007) notou também que, se as descrições neoclássicas e psicológicas costumam fornecer uma explicação “subsocializada” para a ação econômica, os economistas reformistas que tentam recuperar as estruturas sociais não raro recaem no extremo teórico das concepções “supersocializadas” encontradas na Sociologia moderna.

Enquanto a visão “subsocializada” pressupõe um comportamento (quase-) racional e de interesse pessoal apenas externamente afetado – restringido, informado ou incentivado – pelas relações sociais, a visão “supersocializada” explicaria as influências sociais “como processos por meio dos quais os atores adquirem costumes, hábitos ou normas que são seguidos mecânica e automaticamente, independentemente da influência da escolha racional” (Granovetter, 2007: 6).

Para ilustrar os extremos teóricos, Granovetter relembra a afirmação espirituosa de James Duesenberry segundo a qual a Economia se resume em como as pessoas fazem escolhas; a Sociologia se resume em como elas não têm escolhas a fazer”.

Porém, Granovetter alerta sobre os riscos analíticos implicados pela substituição do Homem Econômico por algum tipo de Homem Sociológico mal concebido.

Dequech (2013: 100) assinala que a ênfase exagerada na imersão dos atores na estrutura institucional tenderia a eliminar o conflito entre instituições e agentes, não abrindo espaço para o comportamento desviante. Esse caso dá margem ao seguinte quebra-cabeça teórico:

  1. se os atores estão inseridos em um contexto institucional que, em grande parte, condiciona as suas (inter) ações, intenções e racionalidade,
  2. como eles serão capazes de vislumbrar novas práticas e realizar mudança institucional.

Mas esse paradoxo se revela um pseudoproblema quando se atenta para a influência complexa das instituições:

  • os indivíduos estão inseridos em ambientes onde várias instituições diferentes podem coexistir e mesmo gerar influências contraditórias entre si; e
  • aqueles indivíduos que desenvolvem múltiplos papeis e participam de ambientes diferentes ao mesmo tempo, podem carregar influências institucionais de um ambiente para outro (Dequech, 2013).

Em consequência, as instituições devem ser “tratadas como incapazes de determinar completamente o pensamento e o comportamento dos indivíduos”, havendo espaço:

  1. para a diversidade de sujeitos e
  2. para a autonomia individual (as “capacidades criativas e críticas dos indivíduos”, nos termos de Dequech).

Em parte por isso e em parte também por causa das capacidades criativas e críticas dos indivíduos, as instituições devem ser tratadas como incapazes de determinar completamente o pensamento e o comportamento dos indivíduos.

Antes de prosseguir, Castro faz um breve esclarecimento sobre o uso particular de alguns termos utilizados que abrangem a discussão a respeito de como descrever a pesquisa que envolve mais de uma disciplina.

O termo mais antigo é provavelmente multidisciplinar. Geralmente é aplicado a situações em que pesquisadores que representam diferentes disciplinas se reúnem e contribuem com ideias de suas disciplinas separadas, mantendo, no entanto, as identidades distintas de suas disciplinas, como em capítulos separados dentro de um livro.

Um termo de uso mais recente é interdisciplinar, que envolve mais integração das ideias de diferentes disciplinas. Mas este termo é muitas vezes usado no sentido de lidar com as ideias que existem na intersecção de duas disciplinas, levando a determinadas especializações, como, por exemplo, o “economista comportamental” que conhece os aspectos relevantes da Teoria da Decisão Comportamental e da Economia.

Castro propõe uma solução semântica para o debate corporativo: o uso do termo transdisciplinar para descrever a investigação científica na fronteira entre disciplinas:

  1. que implica um processo mais completo e profundo de interação entre as disciplinas e
  2. que leva a algum tipo de síntese e transcendência.

O relativo sucesso das abordagens “neoclassicizantes” que têm incorporado variáveis psicológicas (no sentido de Psicologia individual e cognitiva) pode torná-las a forma dominante de Economia Comportamental, em prejuízo de abordagens transdisciplinares.

Para superar essa tendência à fragmentação do conhecimento, Castro acha que devemos ir além dos “revisionismos” (psicológicos ou sociológicos) que circunscrevem as linhas de investigação cientifica interdisciplinar ao diálogo entre dois campos, seja entre Economia e Psicologia, seja entre Economia ou Sociologia, etc.

Acha que elas produzem as figuras fictícias (mais do que apenas abstratas) do Homem Econômico, Psicológico, Sociológico, etc. Dito de outro modo, embora economistas tenham enriquecido seu trabalho com a pesquisa feita fora de suas disciplinas originais, a cooperação com outras disciplinas deve progredir da troca bilateral em direção ao conhecimento transdisciplinar no campo da cognição e da tomada de decisão.

Em defesa da pesquisa integrada, Simon (1978) argumenta que a teoria econômica deve ser consistente com o corpo acumulado de conhecimentos nas demais disciplinas que estudam o comportamento humano. Isto é, se admitimos o ponto fundamental do paradigma de Simon de que a unidade básica de análise econômica é o processo de tomada de decisão, então não temos uma boa razão para manter os limites disciplinares.

Psicologia, Sociologia, Antropologia e Biologia devem unir esforços com a Economia. Se a Economia e as outras Ciências Afins apresentam teorias alternativas sobre o comportamento individual, então podemos tentar criticar e, se possível, testar as respectivas teorias na esperança de falsificar uma ou outra. Ou, se apresentam teorias idênticas ou semelhantes expressas em termos distintos, o trabalho conjunto pode servir para unificar o vocabulário.

Mas devemos estar cientes das dificuldades práticas envolvidas em uma unificação de todas as Ciências Comportamentais. É improvável que profissionais ciosos de seus nichos de atividade se mostrem dispostos a dissolver suas respectivas disciplinas em uma Ciência Comportamental unificada.

Por outro lado, a criação de núcleos interdisciplinares em Faculdades ou Departamentos é insuficiente para o progresso acelerado do conhecimento. Por isso, um objetivo mais modesto deveria favorecer os espaços para a cooperação transdisciplinar presentes em Institutos autônomos.

Castro cita como exemplo o Center for Adaptive Behavior and Cognition (ABC), do Instituto Max Planck, Alemanha. Em seu grupo de pesquisa se encontram psicólogos, economistas, cientistas da computação, matemáticos, biólogos comportamentais, antropólogos, filósofos e outros pesquisadores.

Continua em próximo post.

2 thoughts on “Homem Sociológico

    1. Prezado Vinicius,
      em Bourdieu, o espaço social é um espaço virtual teórico onde se organizam as diferenças sociais. É nele que se articulam as posições sociais dos agentes (indivíduos) com as disposições (habitus) e as tomadas de posição (práticas). As diferenças e distâncias no espaço social são relacionais. Elas só existem umas em relação às outras, e não de forma absoluta.

      Depois que passei a estudar toda a História da Humanidade, ultrapassando os 550 anos capitalistas (1500-2050), tenho preferido usar as categorias de castas — guerreiros, comerciantes, sábios, trabalhadores, etc. –, pois acho mais universal que a classificação binária de classes — tipo capitalistas X trabalhadores — de origem marxista, exclusivas do capitalismo.

      Sendo os sujeitos membros de castas, o importante é o éthos a que cada qual se filia, isto é, o conjunto dos costumes e hábitos fundamentais, no âmbito do comportamento (instituições, afazeres etc.) e da cultura (valores, ideias ou crenças), característicos de uma determinada coletividade, época ou região.

      Na antropologia norte-americana, éthos é a reunião de traços psicossociais que definem a identidade de uma determinada cultura. É uma personalidade de base de agrupamentos de indivíduos que se juntaram por afinidade profissional e/ou cultural.

      Assim, éthos é parte da retórica clássica voltada para o estudo dos costumes sociais. É um conjunto de valores que permeiam e influenciam uma determinada manifestação (obra, teoria, escola, etc.) artística, científica ou filosófica.
      att.

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