A Economia Comportamental e Economia Neoclássica são teorias concorrentes?

Tomada de decisãoAlex Sandro Rodrigues de Castro, em sua dissertação de Mestrado, Economia Comportamental: Caracterização e Comentários Críticos, defendida em 2014 no IE-UNICAMP, firmou suas posições em alguns temas do debate sobre a Economia Comportamental, sob forma de perguntas e respostas.

A primeira é a apresentada acima, o que revela um viés de maniqueísmo, ou seja, qualquer visão do mundo que o divide em poderes opostos e incompatíveis.

Esta expressão refere-se ao dualismo religioso sincretista que se originou na Pérsia e foi amplamente difundido no Império Romano entre o século III d.C. e IV d.C.. Sua doutrina consistia basicamente em

  1. afirmar a existência de um conflito cósmico entre o reino da luz (o Bem) e o reino das sombras (o Mal),
  2. localizar a matéria e a carne no reino das sombras,
  3. afirmar que ao homem se impunha o dever de ajudar à vitória do Bem por meio de práticas ascéticas, especialmente evitando a procriação e os alimentos de origem animal.

Os vegetarianos são maniqueístas… Ou não?🙂

Castro justifica-se: “como o escopo da Economia Comportamental se expande rapidamente nos últimos anos, torna-se impossível evitar a questão de saber se ela visa aumentar, modificar, alterar profundamente ou substituir o Paradigma Econômico Neoclássico“. Tudo ou nada?

O primeiro ponto que ele destaca é que “a Economia Comportamental não é uma Escola de Pensamento, no sentido de que possa ser definida por um conjunto particular de ideias e por sua consistência interna”. Nesse ponto, teria interessante Castro caracterizar e distinguir entre Escolas de Pensamento e Correntes de Pensamento, inclusive exemplificando suas classificações.

Como adjetivo, “corrente” qualifica:

  1. o que, no momento, está passando, especialmente do que se refere ao tempo;
  2. o que atualmente vigora, que tem curso; vigente;
  3. o que, estando em curso, avança ou cresce;
  4. o que é usual; comum, banal, corriqueiro;
  5. o que passa sem qualquer obstáculo, sem obstrução;
  6. o que flui naturalmente, seja coisa concreta ou abstrata; fluente;
  7. o que apresenta ampla aceitação; aceito, posto em acordo;
  8. aquele com experiência; versado, entendido, perito;
  9. cuja manifestação é clara, evidente, notória.

Como substantivo, a(s) “corrente(s)” significa(m):

  1. grupo(s) de pessoas que se destaca(m) por apresentar alguma afinidade (ética, política, filosófica etc.) entre seus componentes;
  2. arcabouço teórico de uma doutrina, de uma escola ou o pensamento dominante que nela existe e que de alguma maneira a diferencia e caracteriza em relação as demais.

Castro quer designar o substantivo “corrente (principal)” [mainstream] como tudo aquilo que é usual, comum, corriqueiro ou trivial? Qualquer conjunto de argolas que, articulados entre si, constituem uma corrente, ou seja, uma série com as mais diversas aplicações, até mesmo em mecanismos teóricos. A corrente é aquilo que aprisiona a mente? Ou é uma série continuada de pessoas ou coisas (concretas ou abstratas) interligadas de alguma maneira?

Em termos de pensamento econômico, a expressão corrente parece mais designar o grupo de pessoas que se destaca por apresentar alguma afinidade (ética, política, filosófica etc.) entre seus componentes. Na realidade, deveria ser mais usada no plural, pois o pensamento econômico é formado por muitas correntes e nenhuma dela pode ser designada como principal em termos de importância ou correção dedutiva-racional.

Então, corrente designa o arcabouço teórico de uma doutrina, de uma escola ou o pensamento dominante que nela existe e que de alguma maneira a diferencia e caracteriza em relação as demais. Naturalmente, existem diversas doutrinas em debate intelectual e o maniqueísmo não ajuda a classificá-las.

Qualquer Escola de Pensamento Econômico é definida em torno do desenvolvimento interrelacionado de certo tema comum entre os seus membros em determinada instituição ou local. Esta Escola deve ter a capacidade de se comunicar e influenciar outros membros da profissão, no caso, a de economista, porque se ela se fecha em si ela não é reconhecida pela comunidade profissional como fonte de conhecimentos.

Ela deve ser capaz de influenciar não necessariamente só os economistas, formando opinião especializada, mas também a opinião pública. Eu (FNC), por exemplo, acho isso é uma característica da nossa Escola de Campinas: a capacidade de dialogar com empresários, sindicalistas, políticos, governantes.

Dadas as diferenças significativas entre as abordagens psicológicas, Castro acha difícil argumentar que a Economia Comportamental como um todo seja uma escola distinta de pensamento econômico. Portanto, comparar a Economia Neoclássica e a Economia Comportamental como um todo Castro acha inadequado, “pois não teríamos elementos da mesma categoria nos polos de comparação”.

Mas, ao comparar as diferentes vertentes comportamentais com a Economia Neoclássica, Castro viu que “as abordagens reformistas aderem em grande parte ao sistema conceitual e às crenças metodológicas da Economia Neoclássica. Não há nada inerente à Economia Comportamental que implique rejeição completa da teoria neoclássica”.

Nem adesista, nem sectária. Só romper com a premissa básica de racionalidade, como faz a Economia Comportamental, parece-me (FNC) ser suficiente para abalar o alicerce do pensamento neoclássico — e torna-se incompatível com ele…

“O fato de algumas abordagens psicológicas não terem rejeitado por completo o paradigma neoclássico talvez explique, em parte, por que elas são cada vez mais aceitas na academia, tornando-se parte do mainstream econômico. Nas últimas décadas, as abordagens que penetraram a Economia mainstream normalmente relaxam algumas das limitações dos modelos neoclássicos, por exemplo, introduzindo racionalidade limitada, instituições, assimetria de informação, incerteza, espacialidade, etc.”

FNC: faz parte da evolução do pensamento econômico a ortodoxia abarcar algumas temas da heterodoxia. Repetir seus erros seria burrice… Todo nós temos o direito de cometer novos erros!

Porém, para Castro, “estes avanços geralmente consistem em pequenas alterações nas margens, mantendo o corpo teórico básico, pois geralmente essas abordagens não relaxam todas as limitações simultaneamente. Em certo sentido, as abordagens reformistas da Economia Comportamental visam consertar as partes danificadas nos fundamentos psicológicos da teoria neoclássica, mas trabalham dentro de suas premissas básicas (preferências, utilidade, equilíbrio e maximização)”.

FNC: parece-se que suas três premissas básicas são a racionalidade, o atomismo e as informações perfeitas. Todas as três foram abandonadas pela Economia Comportamental. Esta criticou, radicalmente, a Hipótese do Mercado Eficiente (HME).

Por essa razão, Berg e Gigerenzer (2010) argumentaram que “as abordagens psicológicas que penetraram a economia mainstream não representam uma alternativa real à teoria neoclássica, mas somente um programa de “reparo” de um paradigma de racionalidade. Este começou a ser construído no século XVII por Daniel Bernoulli, e que, no século XX, foi completado por Leonard Savage e depois reformado por Kahneman e Tversky.”

FNC: basta romper com a racionalidade universal para todos os agentes econômicos para deduzir sua heterogeneidade e a impossibilidade de equilíbrio do valor de mercado de acordo com os fundamentos como supõe a HME.

Assim como os economistas neoclássicos, Castro acha que “os economistas comportamentais mainstream sustentam que a dedução lógica, em vez de descrições empíricas dos processos que dão origem ao comportamento econômico, é o ponto de partida adequado para a análise econômica”.

FNC: por que o método racional-dedutivo seria equivocado e o método histórico-indutivo não?

A diferença, para Castro, é que “os economistas comportamentais permitem que as crenças e os cursos de ação das pessoas reais possam desviar-se deste ponto de partida dedutivo na prática”.

FNC: afastamento das condições iniciais já leva à dependência de trajetória caótica.

O fato de que as crenças e a ação das pessoas reais se afastam sistematicamente das leis da lógica e do ideal da otimização, de acordo com Castro, “serve apenas para modificar funções de utilidade e de probabilidade e para acrescentar novos parâmetros com rótulos psicológicos a velhos modelos. O julgamento e a tomada de decisão continuam sendo descritos pela Economia Comportamental mainstream como um processo otimizador que demanda quantidades irrealistas de cálculo e de informação“.

FNC: não é a questão da otimização ou maximização do lucro o que distingue a racionalidade e a irracionalidade, mas sim a idiotia, isto é, a falta de consciência das consequências dos seu erros para si e para os outros – e sua repetição.

Castro critica, por fim, o foco das abordagens psicológicas radicais em modelos de domínio específico, ao colocar em questão valores e preferências da teorização econômica mainstream (parcimônia, generalidade e tratabilidade formal), pode também impedir o desenvolvimento de uma teoria unificada de tomada de decisão que sirva como alternativa à teoria econômica neoclássica.

FNC: este é um ponto distintivo da crítica à Economia Comportamental, pois se trata das diferenças de método entre os psicólogos e os economistas.

Continua em próximo post.

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