A Economia Comportamental assume que os agentes se comportam de forma irracional?

I Love EconomicsAlex Sandro Rodrigues de Castro, em sua dissertação de Mestrado, Economia Comportamental: Caracterização e Comentários Críticos, defendida em 2014 no IE-UNICAMP, firmou suas posições em alguns temas do debate sobre a Economia Comportamental, sob forma de perguntas e respostas. A segunda é a apresentada no título acima.

Existe uma volumosa literatura que tenta determinar qual destas posições está correta. Somos seres racionais ou irracionais?

Alguns pacificadores propõem que a verdade está no meio e que somos um pouco de ambos (“quase-racionais”), para que não haja discordância real. Por exemplo, o debate entre Kahneman & Tversky e Gigerenzer tem sido por vezes mal interpretado como se referindo à questão da extensão da racionalidade humana. Sob esse ponto de vista, a racionalidade seria uma quantidade: para Kahneman e Tversky, o ser humano é pouco racional, enquanto para Gigerenzer, o ser humano é bastante racional.

Contudo, Alex aponta, acertadamente, que a questão é outra: o que exatamente é racionalidade em primeiro lugar. As investigações revelaram corretamente que os julgamentos e as decisões das pessoas, de fato, se desviam das Leis da Lógica e do Ideal da Otimização. Mas, enquanto os defensores do programa de heurísticas e vieses tomam isso como irracionalidade, Gigerenzer propõe repensar os critérios de racionalidade.

Gigerenzer recorre ao argumento de Simon (1979, p. 500): o modelo padrão neoclássico requer o conhecimento de todas as alternativas relevantes, suas consequências e probabilidades, e um mundo previsível, sem surpresas. Estas condições, no entanto, raramente são satisfeitas nos problemas que os indivíduos e as organizações enfrentam no mundo real. Portanto, o modelo de racionalidade da Economia Neoclássica é uma lógica de tomada de decisão que se afasta das possibilidades reais do homem, comprometendo sua funcionalidade.

Para Gigerenzer, as Leis da Lógica e da Probabilidade não são condições necessárias nem suficientes para o comportamento racional no mundo real. Ele argumenta que, como, para muitas decisões, os pressupostos dos modelos racionais não são atendidos, a questão de quão racional determinado comportamento é, em um mundo incerto, torna-se uma questão empírica, em vez de um problema a priori.

Normas e axiomas de escolha seriam de pouca relevância para o Homo sapiens, que teve de se adaptar a um mundo social e físico, e não a sistemas com sintaxe artificial, como as Leis da Lógica. Por isso, Gigerenzer define a racionalidade de dada estratégia por suas consequências em certos ambientes de decisão, ou seja, o que denomina de racionalidade ecológica.

O conceito de racionalidade ecológica, trazido por Gigerenzer (2008), a fim de contrastar a visão de modelos heurísticos como explicações ad hoc de desvio de comportamento frente uma norma baseada na Lógica, o que seria o caso de Kahneman (2003). Ao invés, Gigerenzer (2008) propõe que se contraste a mente (ou as características do indivíduo) ao ambiente no qual o comportamento se verifica.

A racionalidade é ecológica no sentido de que dados comportamentos particulares foram evolutivamente selecionados devido à sua capacidade de solução de problemas em dados ambientes específicos. Sua adequação se deve ao seu desempenho nos ditos ambientes para os quais vão sendo adaptados.

Assim sendo, comportamentos heurísticos sob uma óptica de racionalidade ecológica:

  1. não são meramente soluções a limitações cognitivas dos indivíduos que são incapazes de conduzir processos de racionalidade ilimitada;
  2. são também soluções desenvolvidas a uma dada estrutura do ambiente vis-à-vis às características do indivíduo evolutivamente adaptadas.

Castro parece estar a favor dessa visão consequencialista de racionalidade porque lhe permite:

  1. reconhecer a racionalidade de seguir regras e heurísticas e,
  2. simultaneamente, dar espaço para que os agentes:
    1. desviem de algumas regras estabelecidas – ao mesmo tempo em que continuam seguindo outras – e
    2. causem mudanças endógenas.

FNC: um agente econômico pode quebrar a rotina das regras, inovando: seu sucesso ou fracasso leva a ser imitado ou não. Assim, as interações entre os agentes econômicos podem alterar o meio-ambiente, inclusive o institucional.

Por fim, Castro lança sua terceira e última pergunta: O problema da Teoria Econômica Neoclássica está na sua pseudopsicologia?

Castro afirma que uma coisa em particular une grande parte dos economistas contemporâneos: o renovado interesse no problema das premissas antropológicas da teoria econômica. Existe alguma concordância entre eles de que a antiga concepção da natureza humana da tradição neoclássica é bastante limitada, uma espécie de reducionismo utilitarista que tende a ver o homem como um átomo egoísta, dotado de racionalidade olímpica, preferências exógenas, informações completas, etc.

Hoje em dia, há uma tendência a admitir que os indivíduos sejam dotados de:

  1. racionalidade limitada,
  2. preferências endógenas,
  3. informações incompletas,
  4. “múltiplos eus” (multiple selves) e
  5. motivações heterogêneas.

E justamente por isso se reconhece que não há sentido em reduzir o comportamento econômico à Psicologia rudimentar da teoria econômica.

Das incursões de economistas à Psicologia Cognitiva têm resultado novos modelos teóricos de comportamento econômico individual, que se caracterizam:

  1. pelo reconhecimento de certos tipos de incerteza e
  2. pela inclusão das limitações cognitivas e informacionais dos agentes.

Mas o problema da teoria econômica convencional não está apenas na sua pseudopsicologia.

Em geral, a Economia Comportamental não tem dado tanta atenção às instituições ou, mais amplamente, ao contexto social em que operam os agentes econômicos. Seu foco nas capacidades, processos e propensões individuais (sobretudo nos fatores cognitivos) limita seu poder explicativo/preditivo.

Uma vez que o agente econômico é um ser social, sua conduta é impossível de entender se abstraída das instituições, cultura, valores, normas éticas e, finalmente, das relações sociais que entram em sua composição. Isso é especialmente verdadeiro se reconhecermos os tipos profundos de influência das instituições sobre a cognição e a motivação dos agentes econômicos (individuais e coletivos).

Os economistas comportamentais se beneficiaram do trabalho feito fora dos limites de sua disciplina, mas há espaço para maior intercâmbio entre as disciplinas. O modelo de Homem Psicológico oferece um quadro analítico de elevado nível de generalidade e abstração, que precisa ser complementado por conceitos e teorias de domínio específico.

Castro acredita que a teoria econômica deva ser consistente com o corpo acumulado de conhecimentos nas demais disciplinas que estudam o comportamento humano – e não apenas a Psicologia. Por isso, defende que o estudo da cognição e da tomada de decisão pela Ciência deve avançar rompendo as barreiras entre as disciplinas.

Como o principal obstáculo ao avanço da cooperação transdisciplinar se encontra no modo como as Universidades brasileiras se organizam – sob a forma de Departamentos unidisciplinares –, Castro sugere a criação de Institutos Autônomos (dentro ou fora das universidades) dedicados exclusivamente à Pesquisa da Cognição e do Processo Decisório.

FNC: esta sua proposta é muito bem vinda! Enquanto ela não se realiza, tento dar minha modesta contribuição oferecendo um curso na pós-graduação do IE-UNICAMP denominada Economia Interdisciplinar.

Seu objetivo será, justamente, debater a nova fronteira teórica da Ciência Econômica que se inspira em Metodologias de Outras Ciências, tanto em Ciências Humanas como Economia Comportamental (ou Psicologia Econômica), quanto em Ciências Sociais como Economia Institucionalista (ou Sociologia Econômica weberiana), e até mesmo em Ciências Naturais como Economia Evolucionária (ou Biologia Econômica darwiniana).

Pretendo também analisar se a Economia da Complexidade (ou Engenharia da Computação econômica) integra esses diversos insights e escalas de análise interdisciplinares em um corpo teórico transdisciplinar, reintegrando a partição da realidade realizada pelas diversas Ciências Afins.

Download da Tese em: SBU – Portal do Sistema de Bibliotecas da UNICAMP

3 thoughts on “A Economia Comportamental assume que os agentes se comportam de forma irracional?

  1. Professor, não seria interessante e proveitoso trazer Pierre Bourdieu e sua caixa de ferramentas – campo, habitus, dominação, violência simbólica, capitais…-, para essa “roda de conversa”?

    1. Prezado Osmar,
      sim, porém sem esquecer que “não podemos abraçar todo o mundo com nossas pernas”.
      É mais útil para nossa capacidade analítica alguns princípios teóricos abstratos, porém simples, do que “descrever tudo que está sob o sol”…
      att.

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