“Evolução” Teleológica em Milton Friedman

Editorial_cartoon_depicting_Charles_Darwin_as_an_ape_(1871)Manuel Ramon Souza Luz, em sua Dissertação de Mestrado, “Por uma Concepção Darwiniana de Economia Evolucionária: Abordagens Pioneiras, Conflitos Teóricos e Propostas Ontológicas”, defendida em 28 / 08 / 2009, no IE-UNICAMP, destaca que o economista norte-americano Milton Friedman teve papel de destaque na Controvérsia Marginalista, como um dos mais importantes representantes da reação neoclássica neste debate metodológico.

Em seu trabalho de 1953, The Methodology of Positive Economics, Milton Friedman apresenta uma “nova” abordagem acerca da maximização. Tal concepção reafirma os fundamentos da teoria da firma neoclássica em termos inovadores. Segundo Hodgson (1998), Friedman fez uma verdadeira apropriação parcial de certos conceitos evolucionários para justificar as hipóteses neoclássicas: “o uso da metáfora de Friedman da Seleção Natural reforçou um elemento-chave no Paradigma Mecanicista. Friedman aplicou de forma simplista ideia mal assimilada da Biologia darwiniana para reforçar o paradigma mecanicista da Economia Neoclássica” (Hodgson, 1998: XXII).

A ideia de Seleção Natural como justificativa da maximização de lucros é claramente o resultado lógico dos elementos apresentados na abordagem de Alchian (1950) e Enke (1951). Estes dois autores já haviam levantado a hipótese de que um processo de seleção guiado pelos lucros positivos, no “longo prazo” ou no “limite”, selecionaria as firmas que maximizassem lucros.

Friedman (1953) constrói uma linha argumentativa clara que reforça a concepção de maximização, porém não reduzindo-a a uma tendência evolutiva de um processo temporalmente longo, mas sim como uma justificativa lógica, que a reafirma como elemento metodológico para analisar o presente. Desta maneira, Friedman transforma a maximização de lucro de um resultado ex-post de um processo dito “evolucionário” para um pressuposto ex-ante, metodologicamente válido para explicar o comportamento da firma.

Buscando rebater as críticas à hipótese de maximização da teoria da firma neoclássica, Friedman (1953) aponta que qualquer argumento que seja construído apontando para os eventos que ocorrem dentro da firma como evidência de que estas não possuem capacidade de maximizar não afeta a visão de maximização de lucros como fundamento básico da Teoria da Firma ortodoxa. Friedman justifica a sua posição assinalando que a Teoria da Firma não deve ser compreendida como o que o próprio nome sugere – uma teoria sobre a firma – mas sim deve ser vista como uma Teoria do Comportamento de Mercado, externo à firma.

Adotando esta posição, Friedman (1953: 15) se abstém de discutir os determinantes comportamentais que emergem da organização interna da firma, pois segundo o autor, o realismo da teoria desenvolvida não é o ponto que realmente importa, mas sim o seu poder de previsão: “A questão relevante para perguntar sobre os ‘pressupostos’ de uma teoria não é sejam eles de forma descritiva ‘realista’, pois eles nunca são, mas se eles são suficientemente boas aproximações com o propósito em vista. E esta questão só pode ser respondida por ver se a teoria funciona, o que significa que se ela produz previsões suficientemente acuradas”.

Desta forma, Friedman (1953) assinala que a Hipótese de Maximização permite previsões que são boas o suficiente para representar o comportamento das empresas em um mercado competitivo. Assim sendo, o autor é enfático em dizer que apesar dos homens de negócios não resolverem de forma literal um sistema de equações simultâneas, as empresas se comportam “como se” tivessem curvas disponíveis e marginalmente maximizassem os lucros.

Para justificar a Hipótese de Maximização como resultante da ação da firma, Friedman (1953: 22) retoma o argumento da Seleção Natural levantado por Enke (1951): “Sempre que esse determinante conduz a um comportamento consistente com maximização racional e informado dos retornos, o negócio irá prosperar e adquirir recursos com os quais poderá se expandir; sempre que isso não acontecer, o negócio tenderá a perder os recursos e poderá ser mantido apenas com a tomada de recursos externos”.

Desta forma, Friedman (1953) faz duas afirmações que se reforçam mutuamente:

  1. a primeira é a ideia de que o importante é o poder preditivo de uma teoria e não se ela representa a realidade de forma fiel;
  2. a segunda ideia é a de que existe um processo de Seleção Natural atuando sobre as firmas, permitindo que apenas as que maximizem os lucros persistam.

Assim sendo, a Seleção Natural aparece como um reforço importante à Hipótese de Maximização, que surge como um resultado lógico de um processo competitivo. Desta forma, adotando a visão metodológica do “como se” [as if], Friedman abandona a interpretação da maximização em termos “animistas” no sentido vebleniano e entende que ela é resultado de um processo “evolucionário” com um fim teleológico, ou seja, pré-concebido.

Essa tentativa de combinar o Princípio de Maximização, como teleologia, com argumentos evolucionários, será alvo de uma das críticas fundamentais à hipótese de Seleção Natural de Friedman, como mostra Manuel Ramon Souza Luz, em sua Dissertação de Mestrado.

Download da Tese em: SBU – Portal do Sistema de Bibliotecas da UNICAMP

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s