Diálogo entre Hipóteses a respeito das Concepções de Indivíduo: Abordagem Platônica

Darwinism Hear-See-Speak No Intelligent DesignManuel Ramon Souza Luz, nas conclusões de sua Tese de Doutorado, “Porque a Economia não é uma Ciência Evolucionária: Uma hipótese antropológica a respeito das origens cristãs do Homo Economicus”, lembra-se, rapidamente, de sua descrição da tipologia platônica.

Platão separava o mundo das ideias, habitados por Tipos Ideais perfeitos e eternos, e o mundo sensível, formado de cópias decaídas e falhas destes Tipos. No mundo terreno, as cópias eram necessariamente imperfeitas e degeneradas, uma vez que, ao contrário de seus correspondentes nas ideias, estavam sujeitas ao tempo.

A tipologia platônica teve grande influência no avanço inicial da doutrina cristã. Ela foi uma das referências utilizadas pelo cristianismo nascente para adaptar a sua mensagem àquilo que um público pagão estava acostumado.

É exatamente esta abordagem tipológica platônica que estaria associada aos fundamentos filosóficos que sustentam as Ciências Naturais. A razão de tal conexão é apresentada nos seguintes termos: “tal pensamento tipológico era universalmente adotado pelos físicos, pois todos os componentes fundamentais da matéria, como as partículas nucleares ou os elementos químicos, são de fato constantes e claramente delimitados uns em relação aos outros” (Mayr, 2001: 491).

A tipologia platônica e as Ciências Naturais possuiriam uma relação íntima. É a concepção de que a realidade material seria uma manifestação de essências estáveis e perfeitas que permitiu a adoção de uma representação matemática da relação entre estes Tipos. É esta relação entre tipologia platônica e ciências naturais que foi levada a frente a partir do Renascimento, como Dennett (1995: 36-37) ressalta:

“Os triunfos da ciência moderna, de Copérnico e Kepler, Descartes e Newton, envolvia a aplicação de uma matemática precisa para o mundo material, e isso, aparentemente, exige que se abstraia das propriedades acidentais das coisas para encontrar suas essências matemáticas secretas. Não faz nenhuma diferença que cor ou forma uma coisa tem quando se trata de obedecer à lei do inverso do quadrado da atração gravitacional de Newton. Tudo o que importa é a sua massa.”

A referência aos Tipos Ideais talvez seja o caminho a ser seguido para entender porque o indivíduo do diagnóstico da abordagem metodológica é exatamente o mesmo daquele descrito pela hipótese antropológica. Luz não avança nestas ideias, porém, faz uma constatação.

A explicação antropológica da emergência do indivíduo, nos mostra que este é anterior ao nascimento da Ciência Moderna. Em termos históricos, pode-se dizer que antes de qualquer possível analogia às Ciências Naturais, uma ideia de indivíduo clara, como um ser autônomo, independente, a-histórico e associal já habitava as cabeças humanas. Se os desenvolvimentos das Ciências Naturais tiveram alguma influência, poderíamos dizer que ela foi muito mais no sentido de buscar reforçar e estabelecer uma ordem para aqueles indivíduos que já existiam de longa data do que procurar defini-los em função de um modelo pré-determinado.

Tecidas estas considerações, Luz acredita que este seria o momento adequado para ir um pouco além das relações entre a hipótese antropológica e as abordagens metodológica e histórica. É o momento de entender quais seriam as consequências de interpretar a teorização neoclássica a partir da descrição da origem da ideia de indivíduo apresentada em sua Tese de Doutoramento em Economia. Neste ponto, Luz acredita que estariam as maiores contribuições da sua incursão antropológica.

Acha que é importante, antes de tudo, enfatizar que absolutamente tudo aquilo que foi analisado em sua tese, não teve como referência o indivíduo empírico que todos nós somos, mas sim a instituição do indivíduo, a sua construção como uma ideia socialmente compartilhada. Nesse sentido, para além de dizer que a Economia não tem como referência este indivíduo empírico, mas sim seu par ideológico, foi possível compreender quais seriam as origens de tal instituição.

A ideia de indivíduo não é somente uma abstração, idealmente ele é um ser construído pelo Deus cristão para se relacionar com o Deus cristão. Para além de uma ideia, ele é resultado de uma cosmologia específica dentre várias outras possíveis. A questão é que após ter caído dos céus, este indivíduo se autonomizou da referência religiosa na Terra, ou seja, a Igreja, e se constituiu como uma base dos valores da sociedade ocidental.

Hoje em dia, o Ocidente defende o indivíduo como um valor e acredita, fielmente, na autoevidência deste valor. Contudo, a hipótese antropológica estabelece uma incômoda constatação à naturalização da ideia de indivíduo, pois este, entendido como valor, não seria um fruto das luzes de nossa razão, mas sim daquilo que a nossa retórica laica mais abomina, ou seja, o resultado final de uma renegada origem religiosa/filosófica.

A tese que Manuel Luz defendeu é que a ideia de indivíduo da Economia é a mesma do indivíduo cristão. Este apenas se adaptou, marginalmente, manteve-se intacto em relação a seus princípios centrais, adicionando-se apenas um movimento de busca incessante por melhorar sua condição, ou, na versão moderna, uma hipótese de preferências exógenas estáveis e convexas em conjunto com uma mente calculadora.

O indivíduo se tornaria um Homo Economicus pois esta seria:

  1. a única alternativa de explicar uma ordem social natural autorregulável e
  2. a partir das características deste indivíduo.

A teorização econômica, especialmente a neoclássica, está falando de uma ordem espontânea autônoma e virtuosa de indivíduos idealmente construídos para se relacionar com Deus – eu, Fernando Nogueira da Costa, ressaltaria: o Deus-Mercado…

O indivíduo da Economia é um “indivíduo-fora-do-mundo” que está no mundo e necessita estabelecer uma ordem com seus pares. A Economia dá-lhe a solução: a ordem de O Mercado. O problema é que este indivíduo é extremamente diferente do indivíduo empírico e, logo, a ordem social imaginária que emergiria a partir dele também não passaria de uma ordem social distinta e fantasiosa daquela que vivemos.

A hipótese antropológica permite ir mais a fundo nessa constatação e entender que se a ideia de indivíduo é uma criação para que o homem se relacionasse com Deus, então a ordem social destes homens não passaria de uma ordem ideal divina. Contudo ela não seria somente divina, O Mercado seria a ordem social de um paraíso cristão. É a ordem dos “homens tementes de Deus” se relacionando através de suas propriedades celestes!

Veblen acusa a Economia Neoclássica de estipular uma ideia “espiritualizada” de Homem, contudo, aqui, esta acusação possui um sentido literal, pois é uma espiritualização absolutamente cristã. É uma abstração, porém é uma abstração específica, uma abstração estritamente religiosa. A Economia Neoclássica estaria teorizando acerca da relação entre indivíduos celestes e cristãos, indivíduos estes que ideologicamente desceram Terra, mas não perderam as suas características de homens divinos.

Acredite quem quiser… Mas Ciência não pode ser fé nem credo.

Lovecraftian-Darwinism-lDownload da Tese em: SBU – Portal do Sistema de Bibliotecas da UNICAMP

1 thought on “Diálogo entre Hipóteses a respeito das Concepções de Indivíduo: Abordagem Platônica

  1. Prezado Fernando,

    ao ler essa concepção de indivíduo Cristão/Filosófico da forma como Manuel Luz resumiu, representa um resgate histórico/conceitual de um indivíduo guiado por algo oculto e teleológico (conduzido por um fim em si mesmo). Essa explicação condiz com o momento histórico de formação do indivíduo, anterior ao desenvolvimento científico/tecnológico do último século. Após Nietzsche, passando pelo século XX, diria que hoje temos um indivíduo tanto histórico, quanto institucional, guiado por um vetor (ele mesmo), que não está mais associado a ideias antropológicas ou teleológicas.

    O que comandará o indivíduo daqui para frente é sua autodeterminação em um não lugar (a extensão de sua consciência) cuja expressão comunicativa é o que determinada as bordas (limites) de sua existência e ramificações no mundo da vida.

    E se fizermos a pergunta: para onde vai o indivíduo? A resposta é: não vai, pois este pseudolugar não existe!

    O ciclo existencial se completa com o retrocesso da própria consciência ao ponto de origem: o Nada. 🙂

    Abs.

    Segue um excelente resumo da filosofia de Nietzsche por Oswaldo Giacóia Jr.

    O impacto de Nietzsche no século XX.

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