Introdução à Análise Sistêmica para Fenômenos Monetários

Sistemas não-linearesGustavo de Oliveira Aggio defendeu sua Tese de Doutorado, Análise Sistêmica Para Fenômenos Monetários, apresentada ao Instituto de Economia da Unicamp para Obtenção do Título de Doutor em Ciências Econômicas, na área de Teoria Econômica, sob orientação da Profa. Dra. Rosangela Ballini, em 19/12/2011. Embora eu seja especialista na área, só tomei conhecimento dela recentemente ao pesquisar o tema Economia da Complexidade no SBU (Sistema de Bibliotecas da Unicamp: http://acervus.unicamp.br/externo/busca.asp), acessível a qualquer pessoa para baixar dissertações e teses em pdf.

neteachComo meu interesse corresponde, exatamente, ao seu título, vou resenhá-la para ver se obtenho alguma inspiração analítica de sistemas complexos. Nesta tese, Aggio busca compreender aspectos das dinâmicas dos fenômenos da aceitabilidade da moeda, da estrutura de taxas de juros e do processo inflacionário utilizando a abordagem dos sistemas dinâmicos complexos.

Sua justificativa é que o comportamento dos agentes econômicos ocorre de forma descentralizada e, ao menos em parte, delimitado por uma estrutura funcional que, por sua vez, também é sujeita a variação ao longo do tempo. Portanto, sua abordagem deve considerar um fenômeno em processo e sujeito a não-linearidades.

A tese está dividida em cinco capítulos. No primeiro, ele expõe conceitos gerais sobre sistemas dinâmicos complexos, auto-organização, modelos baseados em agentes e lógica fuzzy e conjuntos probabilísticos. Explicita, assim, as características que atribui aos fenômenos estudados e o método empregado para análise.

No segundo capítulo, oferece uma teoria em processo para a emergência da aceitabilidade generalizada de uma moeda, assim como dois modelos para a demonstração das possibilidades deste processo.

No terceiro capítulo, observa estudos sobre a dinâmica da estrutura das taxas de juros e sugere uma explicação para a diferença empiricamente observada entre a dinâmica das taxas de juros de curto e longo prazo.

No quarto capítulo, realiza um estudo sobre a volatilidade e a persistência na série de variações percentuais do Índice de Preços ao Consumidor dos Estados Unidos.

No capítulo final, compara a abordagem do processo inflacionário da chamada Nova Síntese Neoclássica com um modelo de dinâmica de preços fora do equilíbrio.

Particularmente, interessa-me suas ideias-chave do primeiro ao terceiro capítulo e esse modelo de dinâmica de preços fora do equilíbrio no último capítulo. Vou resumi-las.

O objetivo dessa tese é estudar como alguns dos principais fenômenos monetários podem ser considerados em processo e dentro da perspectiva que os agentes econômicos se relacionam de uma forma estruturada e funcional. A perspectiva processual sugere uma dinâmica e o conjunto das relações estruturadas e funcionais dos agentes sugere um ou mais sistemas.

Uma alternativa seria realizar um estudo por meio de um Modelo de Equilíbrio Geral estocástico e dinâmico (DSGE). Um modelo DSGE nada mais é do que um conjunto de equações a diferenças, que representa um processo estocástico, com o qual são racionalizadas as variáveis consumo, investimento, os mercados de bens e serviços, de ativos financeiros e o mercado de trabalho de uma economia como resultado de decisões de maximização intertemporal.

Um procedimento desta natureza supõe uma elevada capacidade de coordenação dos agentes, uma vez que a tomada de decisão é suposta como ótima, embora considerando algumas fricções. Mas uma decisão ótima somente pode ser racionalizada considerando:

  1. as expectativas com relação ao comportamento dos demais agentes e
  2. as crenças nas realizações de determinados estados futuros.

Outro modo seria considerar que os agentes não são capazes de realizar uma racionalização plena sobre os processos em andamento e que, portanto, a economia não é imaginada estar em um equilíbrio de planos individuais e com o meio-ambiente institucional e natural. Este é o ponto-de-vista da Economia Comportamental, Institucionalista, Evolucionária e Complexa.

Além disso, cabe ressaltar que a natureza da dinâmica pode ser um fator a mais de dificuldade para apreensão do processo. Dinâmicas previsíveis e estáveis são apenas casos particulares. Assim, as crenças sobre os estados futuros podem ser constituídas com menor grau de confiança, além de diferirem de agente para agente.

Até mesmo modelos DSGE simples construídos com o artifício de um agente representativo pressupõe alguma linearização e análise local da estabilidade do equilíbrio. Na análise sistêmica, a estrutura não apenas é uma informação de estado, para os agentes, como também é, ao menos em parte, afetada pelo próprio comportamento dos mesmos.

Desse modo, Aggio abre mão da abordagem DSGE e adere a alguns procedimentos que permitem considerar:

  1. os fenômenos da aceitabilidade da moeda,
  2. a dinâmica da estrutura de taxas de juros e
  3. o processo inflacionário dentro da ótica dos sistemas complexos.

Primeiramente, precisa explicitar os fenômenos estudados e, em seguida, justificar a abordagem teórica escolhida. A aceitabilidade da moeda, as taxas de juros e o processo inflacionário caracterizam grande parte do fenômeno da moeda na economia e não podem ser dissociados com facilidade.

Uma forma aceita como moeda por um agente representa determinada quantidade de valor (poder aquisitivo) que pode diminuir, ao longo do tempo, pela inflação. Seu valor pode ser preservado por meio da renúncia à liquidez, trocando-a por uma aplicação financeira.

Essa renúncia à liquidez ocorrerá mediante um acordo em que uma das partes assume o risco da possibilidade de um acirramento do processo inflacionário. No caso do tomador de empréstimo, se houver alguma forma de correção monetária indexada, e, no caso do emprestador, se as taxas forem prefixadas.

A aplicação à juros nada mais é do que a aceitação de uma quantidade de moeda maior no futuro, logo, uma aposta na continuidade da aceitabilidade dessa moeda. Entretanto, o processo de definição da forma aceita como moeda é, ao menos logicamente, anterior à definição de uma estrutura de taxas de juros e de um processo inflacionário. Isso ocorre porque as variáveis nominais são definidas apenas quando se conhece a unidade de conta.

Esse raciocínio tem alguma limitação quando Aggio considera que:

  • um acirramento do processo inflacionário, por exemplo, pode levar a necessidade de substituição da moeda da economia, ou
  • uma taxa de juros pode ser estipulada em qualquer outra “moeda-mercadoria” da economia.

Porém, processos de substituição da moeda ocorrem apenas quando esta instituição social já configura um fenômeno conhecido. Por sua vez, uma estrutura de taxas de juros é um fenômeno mais relacionado a economias monetárias estabelecidas. Enquanto que a aceitabilidade da moeda, uma vez definida, pode ser considerada estável dentro de um horizonte significativo de tempo, a evolução das taxas de juros e o processo inflacionário se mostram mais instáveis ao longo do tempo.

Continua no próximo post.

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