Auto-organização versus Evolucionismo Darwinista

ENTRE A CIÊNCIA E A FÉHá a hipótese de que a auto-organização em Economia é uma abordagem teórica superior ao uso do Evolucionismo darwinista (ou neo-darwinista) quando se objetiva abordagens teóricas alternativas à teoria econômica relacionada ao equilíbrio, classificada como neoclássica. Reconhece-se que houve também influência da teoria econômica, através de Malthus, na Biologia. Argumenta-se que é um contrassenso utilizar uma teoria construída sobre as propriedades da concorrência para se criticar a teoria econômica tradicional.

O ponto central que interessa a Gustavo de Oliveira Aggio, em sua Tese de Doutorado, Análise Sistêmica Para Fenômenos Monetários, é que a aproximação de noções da Biologia para a Economia passa pelo uso da analogia – que não é perfeita ou mesmo adequada:

  • porque a dinâmica populacional seria reversível no tempo na Biologia e irreversível no processo econômico e
  • porque a Economia permite ampliações indefinidas, ao menos a princípio, de suas populações, o que é inviável no ambiente de competição biológica – a Economia é ontologicamente um sistema sujeito à Segunda Lei da Termodinâmica.

Mais do que isso, ainda que não se queira focar no aspecto da energia dentro do processo econômico, a auto-organização no sentido determinado por Ilya Prigogine teria nas estruturas dissipativas físico-químicas apenas um caso especial. Em Economia, ao invés de energia e matéria, seria o conhecimento a variável em questão.

Neste ponto, o autor se remete à noção de ordem espontânea desenvolvida pelos economistas austríacos, a partir de Adam Smith, que não é necessariamente uma ordem. Somente podemos utilizar a noção de auto-organização quando, do processo histórico irreversível, observarmos um maior grau de complexidade se desenvolvendo no processo econômico. Diferentemente de processos biológicos, a auto-organização em Economia deve presumir a criação interna de conhecimento, até mesmo de forma intencional.

Isto é uma referência ao desenvolvimento de conhecimento em firmas e organizações, principalmente como é teorizado na tradição da organização industrial e da microeconomia schumpteriana. Em sua Tese de Doutorado, Aggio está mais atento ao comportamento dos agentes mais simples do sistema monetário, ainda que agentes mais sofisticados como o Estado, bancos e instituições financeiras desempenhem papel fundamental nesta dinâmica, até porque estes são, em relação entre si, fundamentais na estrutura do sistema principal.

Nesse caso, Aggio é menos reticente quanto à aplicação de estratégias mais reativas dos agentes. Sua consideração sobre a capacidade cognitiva dos agentes vai fazer referência, principalmente, às estratégias de reavaliação de comportamento frente a presença de dúvida, ambiguidade e aleatoriedade no processo de tomada de decisão.

É uma estratégia do processo reducionista de modelagem em Economia tomar o comportamento dos agentes pelo comportamento médio da população. Isso elimina o efeito de sorte e aleatoriedade os quais podem constituir ruídos importantes dentro do sistema. De fato, ao relaxar esta hipótese, pode-se conceber uma dinâmica em que os limites entre as bases de atração dos diferentes atratores se tornam difusas, ou seja, até mesmo a consideração muito simples da dúvida, ambiguidade e aleatoriedade, como Aggio propõe, pode confluir em um processo mais complexo do que aquele observado na Biologia e cuja transposição para a Economia, via analogia, tem sido criticada.

Outros autores também estabelecem uma diferenciação entre as abordagens da auto-organização e da evolução em um sentido mais amplo e não apenas darwinista:

  • a auto-organização é relacionada à emergência de estruturas que antes não existiam,
  • a evolução é relacionada com mudanças que são prováveis de ocorrer.

Isso remete à questão da diferença entre:

  • a formação de um equilíbrio: faz referência a um processo próprio, único e imprevisível de estabelecimento de um estado, e
  • a seleção de um equilíbrio: apenas contempla a definição de uma das alternativas previamente estabelecidas.

O evolucionismo isoladamente não exclui a possibilidade do novo, mas este é no máximo algo acessório ao aspecto estruturante da funcionalidade do sistema. De toda forma, as duas abordagens (auto-organização e evolucionismo) não são excludentes.

Na mesma linha de argumentação, há a sugestão de um individualismo metodológico mais sofisticado no sentido de poder combinar as duas noções, o que de fato revela a preocupação de manter uma análise que combine tanto a cooperação (ou mutualismo) quanto a concorrência presentes na economia. Aggio, entretanto, considera incoerente separar os agentes do sistema e concorda que o individualismo metodológico se torna contraditório nesta perspectiva.

Definem-se as estruturas auto-organizadas como aquelas que reproduzem padrões agregados, mas que estão fora do equilíbrio termodinâmico e do equilíbrio micro (ou local). Estas estruturas existem e se reproduzem no tempo por meio das interações das partes constituintes do sistema sem que haja, no nível destas partes, nem estabilidade ou instabilidade local.

É possível modelar a Economia de Trocas dentro de um Modelo de Equilíbrio estatístico, considerando a possibilidade de uma economia desestruturada com plena instabilidade local. A auto-organização decorre de um elevado grau de independência do funcionamento local das partes sistêmicas. Isso possibilita a resistência e a adaptação frente a eventos que possam restringir o funcionamento local de alguma parte.

Nesse caso, a auto-organização também evidencia a possibilidade de re-organização do funcionamento das estruturas, ou seja, uma adaptação no funcionamento sem uma ruptura considerável, ou perceptível no nível macro ou global, com o padrão de funcionamento anterior.

Em Economia, a racionalidade dos agentes altera os requisitos do enfoque. Existe o fenômeno da auto-conformidade, ou seja, os padrões estão sujeitos à própria percepção dos agentes sobre os mesmos. Mais do que isso, os agentes econômicos podem passar a desenvolver instrumentos de avaliação destes padrões e regras de conduta ao menos em parte baseadas no uso destes instrumentos.

Na medida em que estes instrumentos passam a ser convencionalmente aceitos pode ocorrer que o seu uso se estabeleça mais por inércia do que por eficiência nos resultados. Um dos pontos centrais da crítica de Aggio é a insistência no uso de métodos que atribuem uma distribuição normal às taxas de retorno dos ativos.

Cabe ainda enumerar algumas definições para auto-organização as quais chama de heurísticas. Nestas, aparece a ideia de emergência de estruturas e de interação não-linear, caracterizada por retroalimentação, entre as partes constituintes do sistema.

Nestas definições, Aggio nota dois pontos de destaque:

  • a possibilidade de auto-organização em sistemas conservativos e
  • a consideração da informação, conjuntamente com as tradicionais variáveis energia e matéria, como variável de troca com o meio, em um processo de auto-organização estabelecido mediante estruturas dissipativas.

Em Física, dissipação de energia é um processo de transferência de energia, geralmente em forma de calor, que não pode ser revertido. Em Economia, dissipação é um desbaratamento dos próprios bens, devido a um comportamento perdulário com esbanjamento e desperdício.

Desta forma, Aggio deduz, pela evidência literária, que pode conceber um sistema complexo como auto-organizado quando:

  • este possuir estrutura funcional,
  • for aberto, irredutível ao comportamento das partes, com elementos pré-determinados e não determinados em sua dinâmica,
  • passível de mostrar resistência (robustez) a variações internas e/ou externas ainda que seja passível de mudança e transformação.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s