Processo de Formação da Aceitabilidade da Moeda

dinheiro acorrentadoNo segundo capítulo de sua Tese de Doutorado, Análise Sistêmica Para Fenômenos Monetários, Gustavo de Oliveira Aggio considera a aceitabilidade da moeda como uma convenção, mesmo tendo consciência de que o Estado é o agente central no processo de manutenção ao longo do tempo da moeda em uma economia. Ele busca entender como esta instituição social se estabelece.

Primeiramente, expõe como o conceito de convenção é mais rigorosamente compreendido em uma perspectiva processual de formação de equilíbrio. Em seguida, observa diferentes teorias que focam no aspecto convencional da moeda. Por fim, apresenta dois modelos baseados em agentes que permitem a observação do processo de coordenação dos agentes por meio da imitação de comportamento.

Uma convenção é uma instituição social que permite alguma regularidade e conformidade de comportamentos. Existem diferentes enfoques para a convenção, mas o ponto central é que o comportamento convencional apresenta alguma vantagem para o agente (não necessariamente absoluta) ao comportamento não alinhado.

Portanto, a convenção supõe agentes interdependentes, ou seja, a tomada de decisão afeta a tomada de decisão dos demais. Especificamente, esta interdependência ocorre em situações nas quais o alinhamento de tomadas de decisão configura uma forma de coordenação entre os agentes. A coordenação ocorre no sentido na qual se espera que os agentes ajam da mesma maneira em determinadas situações.

Pode-se imaginar um conjunto de agentes com baixa capacidade cognitiva de forma que não existe racionalização sobre o fenômeno, ou seja, não existe um processo consciente de formação de expectativas. Estes agentes, porém, podem ter a sua capacidade de coordenação determinada por um processo de seleção de forma que a coordenação é inerente à sua configuração. Neste caso, quem espera o comportamento convencional é apenas o observador externo.

Existe, porém, a capacidade de racionalização ao menos parcial do problema em questão. Em Economia, certamente, este é o caso mais importante. Neste caso, o observador externo também espera a convenção, mas o aspecto mais interessante é o fato de que os agentes formam e comparam expectativas.

A coordenação pode ser um resultado esperado ou não de agentes que racionalizam sobre a sua interação. Quando a coordenação é obtida, ao menos parte da vantagem associada ao comportamento convencional será percebida por estes agentes e, assim, a conformidade com a coordenação poderá ocorrer mediante esta racionalização.

Então, Aggio aceita a definição de convenção como uma instituição informal que possui duas características.

A primeira característica é que, quando a convenção é seguida de forma consciente, o comportamento convencional de um agente deve ser, ao menos em parte, atribuído ao fato de outros agentes (não necessariamente todos) seguirem a convenção. A consciência do fato determina existir, ao menos, alguma racionalização sobre a tomada de decisão e, portanto, da formação de expectativas sobre o comportamento dos demais agentes.

A segunda característica é que a convenção é em algum grau arbitrária, ou seja, existiria pelo menos outra coordenação que representaria um comportamento convencional. Na literatura tem sido demonstrado uma série de problemas de coordenação que possuem ao menos mais de uma possível solução. Dentro de um processo de socialização, a adesão ao comportamento coordenado ocorre de forma gradual e por meio de um processo de aprendizagem.

Demonstra-se a determinação da convenção de uma forma processual. A saliência pela precedência nada mais é do que a observação e replicação de configurações de coordenação bem sucedidos. Refere-se à existência do problema de autorreferência em situações de interdependência. A tomada de decisão de cada agente depende da tomada de decisão dos demais, o que leva a um problema de indeterminação ou um problema de incomputabilidade.

Um processo puramente dedutivo não é capaz de determinar qual será o resultado de um problema desta natureza por mais racional que seja um agente ou elevada a sua capacidade de computação. Em problema de coordenação pura, nenhum dos possíveis equilíbrios aponta, a priori, para a solução do problema.

Qualquer tomada de decisão, quando coordenada, leva a um Equilíbrio de Nash. Qualquer tomada de decisão não coordenada leva a um Não Equilíbrio. Como a situação é imaginada em um jogo não cooperativo, ou seja, um jogo no qual o agente não tem como garantir qual será o comportamento dos demais, então, a tomada de decisão depende tanto das expectativas quanto das crenças.

A perspectiva econômica deveria ser uma de formação de equilíbrio e não de seleção de equilíbrio. O processo econômico é caracterizado por eventos que, por serem pequenos e aleatórios, são de difícil previsão. Se estes pequenos eventos ocorrerem em uma dinâmica não-linear, pode haver uma mudança de resultado final dada a possibilidade de elevada sensibilidade a estados iniciais.

A perspectiva da economia em processo se afasta da noção de equilíbrio estático e desenvolve uma noção de (possível, mas não necessário) equilíbrio que ocorre de forma não determinada. Um processo de mesmo tipo, mas sujeito a pequenos eventos aleatórios, pode resultar em um equilíbrio diferente do esperado.

Aggio cita quatro processos de aprendizado:

  • seleção natural;
  • imitação;
  • replicação de um comportamento bem sucedido (reinforcement) e
  • estratégia da melhor resposta.

Seleção natural é o foco de trabalhos que envolvam estratégias evolucionarias estáveis. Neste caso, é estudada a dinâmica populacional dos agentes diferenciados conforme as suas estratégias. As populações mudam porque os agentes (ou os seus descendentes) podem alterar suas estratégias. A principal limitação deste método é que se torna analiticamente complicado estudar situações com um número grande de possíveis resultados finais.

A imitação via de regra refere-se a estratégia de copiar um comportamento de sucesso observado ou um resultado que se espera como de sucesso.

A replicação de um comportamento bem sucedido refere-se a estratégia do agente manter uma tomada de decisão bem sucedida e abandonar tomadas de decisão mal sucedidas.

Demonstra-se a superioridade da estratégia de melhor resposta. Nesta, o agente observa um conjunto de tomadas de decisão de outro(s) agente(s) e escolhe, para o próximo período, a melhor resposta baseado nestas observações.

Se todos os agentes possuem a mesma regra de tomada de decisão e o processo for independente do estado inicial, então o processo de interação pode ser definido por uma cadeia de Markov finita, irredutível e aperiódica, o que possibilita uma convergência.

Há uma racionalidade associada a um processo de imitação de comportamento. Suponha que o agente não tem informações para tomar uma decisão, mas observa outro agente tomando determinada decisão. Imitar é racional na seguinte medida:

  • se o agente imitado possui informações que não estão à disposição do agente imitador, então este não obterá o mesmo resultado do agente possuidor das informações;
  • se o agente imitado não possui informações adicionais, a imitação deixará o agente imitador em uma situação que não é pior do que a que se encontra.

Isso, obviamente, é apenas verdade quando a tomada de decisão não leva a um estado pior do que o de não tomar decisão nenhuma, quando isso for possível. A rigor, não tomar nenhuma decisão também configura uma decisão.

Em seguida, Aggio analisa o processo especulativo de imitação que gera a forma riqueza em uma sociedade. Essa problemática contrapõe-se às tradicionais definições econômicas de riqueza, seja derivada do valor trabalho ou valor utilidade.

A riqueza é, a princípio, uma forma não determinada, uma forma que será reconhecida apenas quando um determinado processo levar a uma unanimidade de opiniões, a uma convergência de crenças. Nesse caso, a riqueza determinada por agentes sociabilizados é uma convenção.

O processo de especulação mimética deverá ser configurado por:

  • indiferenciação dos agentes, na medida em que cada um não pode ser considerado suficientemente diferente de outro, para que a sua lógica de ação seja a mesma, ou muito próxima, da dos demais;
  • convergência unânime;
  • indeterminação, a priori, do resultado final;
  • autorrealização do resultado final.

A ideia de moeda como convenção analisa, primordialmente, o caráter de sua aceitabilidade. Se algo é a moeda da economia, espera-se ser esta aceita de forma generalizada em transações e pagamentos.

O agente que sabe, ou espera com suficiente confiança, que a moeda da economia será aceita sem maiores custos no futuro não evita aceitá-la. Pelo contrário, o agente busca por esta forma para os diferentes motivos de demanda.

A flexibilidade de um ativo é um fator que importa na tomada de decisão de um agente. É a aceitabilidade generalizada da moeda e a expectativa na sua continuidade que determina ser a moeda o ativo de liquidez absoluta e de maior flexibilidade na economia, sendo que, dependendo da interpretação, estes conceitos podem ser confundidos.

A arbitrariedade da forma moeda é ainda menos controversa. Ao longo da história, o que é moeda altera-se, e mesmo na história bem recente alterações na forma moeda são conhecidos. No caso brasileiro, o que era a moeda da economia variou algumas vezes em curto espaço de tempo até a estabilização de preços pós 1994.

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