O Que É Um Golpe de Estado

Ditadura Nunca MaisRecordar é (sobre)viver. Uma ditadura se desdobra de um Golpe de Estado, pois os derrotados não aceitam a legitimidade do novo governo que desrespeitou as regras do jogo democrático e reagem contra a agressão política sofrida. As Forças Armadas são chamadas pelos líderes civis do golpe para acalmar os ânimos dos oposicionistas, porém os militares acabam também não aceitando a quebra da ordem dessas falsas lideranças de interesses particularistas, insubordinam-se à Constituição violada e resolvem implantar nova ordem unida sob o Poder da Força ou o monopólio da violência.

Para a geração dos meus filhos, que nasceram após 1985, cabe recordar a triste memória do que vivi durante toda minha juventude, pois sou da geração do “baby-boom” do pós-guerra, isto é, nascida nos “anos dourados” dos 50. Irradiava-se a esperança, no início da segunda metade do século XX, de jamais a casta dos guerreiros voltar a determinar as regras do jogo. Era um período que se pensava ter-se, definitivamente, superado a ditadura do Estado Novo e o período da II Guerra Mundial, ambos comandados por militares. Porém, houve ameaças de golpes civis-parlamentares, no Brasil, até o golpe militar de 1964, que acabou instalando uma ditadura por vinte anos.

Um trecho do livro “Os Argentinos” de Ariel Palacios, que li agora, quando vislumbro a preparação de um golpe civil-parlamentar no Brasil, fez-me lembrar como eram contínuas (e sofridas) as notícias que recebíamos com muita dificuldade sobre os bastidores do que se passava nos “porões das ditaduras” latino-americanas. Os países da região eram tratados como “Republiquetas das Bananas”, justamente por não respeitarem as regras do jogo democrático.

Como transcorre o Golpe de Estado? A Presidente constitucional é derrubada e detida pelas Forças Armadas, que assumem o poder. Os generais conseguem, de imediato, grande consenso interno dentro das Forças Armadas para dar o golpe. A divisão do poder se dá por terços: “33% das responsabilidades para o Exército, 33% para a Marinha, 33% para a Força Aérea”. Isso inclui a divisão dos Ministérios e das empresas estatais. Essa partilha do butim representa extraordinária mobilidade social para os oficiais militares.

O regime militar fecha o Congresso Nacional, além das Assembleias Legislativas e as Câmaras de Vereadores. Declara caducos todos os mandatos eletivos. Além disso, acaba com o direito de greve. Os partidos políticos são suspensos.

Os militares afirmam que precisam combater os “marxistas-leninistas”, “apátridas”, “materialistas e ateus” e os “inimigos dos valores ocidentais”. Dessa forma, prendem sindicalistas que exigem altas salariais, jornalistas não alinhados com a ditadura, psicólogos (uma profissão da qual os militares desconfiam), pacifistas, freiras e padres que trabalham em bairros operários ou favelas. Também são detidos – e desaparecem – os amigos dessas pessoas. E também os amigos dos amigos!

A ditadura ainda protagoniza incinerações de livros. Para os militares, são suspeitos todos os autores “esquerdistas”. Censura canções e reportagens. O regime proíbe o ensino até da teoria matemática dos conjuntos, por considerá-la “subversiva”! A palavra “vetor” também é “proibida nas escolas, já que os militares consideram-na integrante da terminologia marxista. Simultaneamente, a ditadura instala centenas de centros clandestinos de detenção e tortura em todas as regiões do país.

Quando se inicia a sucessão compromissada entre os generais-ditadores começa o racha nas Forças Armadas. Linhas-duras se digladiam com “liberais” a favor de abertura política lenta e gradual. O enriquecimento dos oficiais, em bons postos civis, quebra a hierarquia militar.

O novo ditador diz conduzir a abertura política de forma a permitir para as Forças Armadas uma retirada ordenada, negociada e muito gradual. No entanto, a ditadura torna-se, logo, totalmente desprestigiada: as denúncias sobre os desaparecidos, antes censuradas, começam a aflorar. Junto com isso, sofre os efeitos das complicações econômicas.

As organizações de defesa dos direitos humanos e a Anistia Internacional vazam informações para todo o mundo a respeito de quantos civis a ditadura assassina, entre os quais crianças, adolescentes e idosos. Dentre o total de desaparecidos, somente entre 5% e 10% são guerrilheiros. Os restantes 90% ou 95% são civis sem participação em luta armada.

A ditadura aplica uma série de formas de eliminar pessoas que considera “subversivas”. As principais são:

  • jogar pessoas vivas de aviões sobre o Oceano Atlântico;
  • juntar prisioneiros, amarrados, e dinamitá-los;
  • fuzilamento;
  • morte por terríveis torturas.

O destino dos corpos é enterrá-los em cemitérios clandestinos ou mesmo em cemitérios oficiais, embora em fossas coletivas como indigentes.

As torturas acumulam diversas modalidades:

  • Picana elétrica: o uso do instrumento para assustar o gado com choques elétricos nos currais, e, assim, direcioná-lo para o abate ou embarque, é aplicado a seres humanos.
  • Submarino molhado: consiste em afundar a cabeça de uma pessoa em uma tina d’água, ocasionalmente, cheia de excrementos humanos.
  • Submarino seco: consiste em colocar a cabeça de uma pessoa dentro de um saco de plástico e esperar que ela fique quase asfixiada.
  • Rato no cólon: a colocação de um rato, faminto, no cólon de um homem; nas mulheres, o rato é colocado na vagina.
  • Estupros: mulheres e homens são estuprados, sistematicamente, pelos militares e policiais; as mulheres, ocasionalmente, recebem a opção de serem eletrocutadas na parte interna da vagina e do ânus.
  • Esfolamento: os torturadores amarram um prisioneiro em uma mesa e começam a esfolar a pele da sola dos pés com uma lâmina de barbear ou bisturi.
  • Empalamento: alguns homens são empalados com cabos de vassoura.

Além disso, pode ocorrer o sequestro sistemático de bebês, filhos dos prisioneiros políticos. A maior parte dessas crianças nasce durante o cativeiro das mães nos centros clandestinos de detenção e tortura. Poucos dias após os partos, realizados em maternidades clandestinas, as mães são assassinadas e as crianças, junto com certidões falsas de nascimento, são entregues a famílias de militares ou de policiais sem filhos. Os ideólogos do regime militar argumentam que os filhos dos desaparecidos carregam “genes de subversão”. Para eliminar essa característica, precisam ser criados por famílias que defendem o estilo de vida “ocidental e cristão”…

PS:

Antes de postar comentário idiota, saiba que o conceito científico de “idiota” diz respeito a aquele que faz mal a si e aos outros sem ter consciência disso. A “idiotice“, em sua etimologia grega, virou atitude disseminada em boa parte da “elite” (sic) brasileira, especialmente entre os jovens que desconhecem o que é uma ditadura. Muitas pessoas não têm capacidade cultural de analisar criticamente o noticiário e acham que Política é apenas politicagem, fisiologismo, apadrinhamento, clientelismo, sectarismo, etc. Há crescente rejeição desses jovens a entrar na vida pública ou mesmo a acompanhá-la, pois não cumprem o dever da cidadania de estudar, são ignorantes e agressivos. Conseguem no máximo fazer “caça às bruxas”, achando que sacrificando “bodes-expiatórios” (Dilma e o PT) resolverão os problemas seculares do País. Lamentável…

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