Formar Cidadãos, Novos-Ricos ou Mão-de-Obra Barata?

TraineeOs programas de trainee das “Big Four“, grandes consultorias formadoras de pretendentes a se tornarem “novos-ricos”, atraem milhares de jovens todos os anos. Na EY, são cerca de cem mil inscritos para aproximadamente 800 vagas. Na PwC, a média é de 35 mil interessados a cada edição, para até 700 vagas. Na Deloitte o número de inscritos fica em cerca de 50 mil e, desses, mais ou menos 600 ingressam na consultoria a cada ano. Já na KPMG, a última edição do programa reuniu 27 mil interessados para 560 vagas.

Após o término do programa de trainee, 95% permanecem nas consultorias e, após esse período, o “turnover” na empresa fica em torno de 18%. Para quem fica, o cargo gerencial chega entre seis e sete anos e com 11 anos de carreira é possível se tornar sócio ou diretor executivo. Quantos restaram de sua turma com um turnover de quase 1/5 por ano?

E em que tipo de cidadão o “sobrevivente” novo-rico tende a se transformar? Veja, leia, e reflita.

Engenharia é uma das carreiras em que há maior dificuldade para encontrar candidatos e preencher vagas de empresas, principalmente da indústria. Por conta dos altos salários e bônus oferecidos pelo mercado financeiro, muitos estudantes de engenharia trocam seu ramo para trabalhar em bancos.

O curso ainda tem um perfil muito amplo e híbrido, pode-se ver engenheiros trabalhando até em recursos humanos, o que provoca dificuldade de recrutar principalmente para funções técnicas, já que também há concorrência de bancos. A dificuldade é maior para quem está atrás de talentos que cursam Engenharia de Produção, Mecânica e Elétrica.

Há outra dificuldade para programas que focam futuros engenheiros. As regras de estágio ou trainee podem confrontar-se com as da universidade, cuja grade curricular, muitas vezes, é dada em tempo integral, o que dificulta que as empresas possam ter esse profissional, mesmo que por quatro a seis horas diárias.

O déficit em Engenharia continua ocorrendo em todas as áreas, mesmo no contexto da crise atual. “Continua havendo um déficit nos diversos segmentos da indústria, inclusive no da construção civil. O papel essencial do engenheiro é conceber, produzir e operar os diferentes bens de que a sociedade precisa: da estrada ao satélite; do minério beneficiado a uma plataforma de exploração de petróleo.

“Diferentes disciplinas empregam estratégias de ensino baseadas na aprendizagem ativa, que procuram desenvolver competência por meio de atividades que simulam situações vividas no mundo do trabalho: casos, jogos, experimentos, simulações”, afirma um professor. Este se coloca não como formador de cidadãos completos, mas simples treinador de mão-de-obra obediente às normas para se submeter à exploração do mercado de trabalho.

A dificuldade de encontrar jovens talentos em Engenharia reflete uma questão discutida há anos no país, desde as duas décadas perdidas, a chamada “Era Neoliberal”. Com a paralisia dos investimentos em infraestrutura e construção civil nas décadas de 1980 e 1990, a curva entre oferta e demanda de engenheiros é desequilibrada. Dos cerca de 800 mil estudantes de todos os cursos universitários que se formam por ano no país, apenas 50 mil são engenheiros, ou seja, um profissional da área para cada 50 formandos, enquanto que na Coreia do Sul essa relação é de um para quatro.

Cabe simular o ambiente profissional em sala de aula ou formar um cidadão culto completo, com capital humano que lhe dá capacidade pessoal de ganho, mas também lhe dá noções de direitos e deveres da cidadania, entre os quais destaca-se o de estudar? Esta é uma responsabilidade individual intransferível — e sem desculpas em torno de “caça-a-bruxas” ou “bodes-expiatórios” tipo O Governo, O Mercado, A Dilma, O PT… Contra a idiotia individual, que não tem consciência do mal que faz a si e a outros, não há complacência!

O Datafolha traçou o perfil dos manifestantes. No ato contragolpe da quinta-feira, 59% eram homens, 52% das pessoas tinham ensino superior, 60% eram simpáticos ao PT. A idade média apurada foi de 42 anos e meio. Assalariados registrados somavam 35%; funcionários públicos, 15%.

Na comparação com o perfil dos manifestantes anti-Dilma de domingo, 33% eram tucanos, 52% não conseguem escolher um partido, a idade média retroage ao tempo dos velhos intolerantes. Chama a atenção o contraste em relação à renda e à cor declarada.

Pessoas de famílias com renda mensal de até 2 salários mínimos eram 24% da manifestação da quinta-feira. No domingo, somavam 6%.

No polo oposto, o grupo dos mais ricos (acima de 20 salários) representava 5% dos presentes nesta quinta ante 17% do ato anti-Dilma.

No protesto da quinta-feira, pardos e pretos somavam 49%. No domingo, eram 20%.

Quais parcelas da sociedade essas amostras representam? A elite minoritária branca continuará a prejudicar a cidadania da maioria?

PS: A baixa adesão dos jovens nas últimas manifestações – pouco mais de 10% dos presentes – deixa ainda mais explícita sua ruptura com as instituições tradicionais de participação política.

3 thoughts on “Formar Cidadãos, Novos-Ricos ou Mão-de-Obra Barata?

  1. Ruptura, jovens… gosto dessas palavras na mesma frase. Podemos estar próximo de um nova realidade (uma quebra de paradigmas) ou apenas conformismo e alienação desse pessoal mesmo?

    Se depender da formação da sala de aula, que apenas interessa criar mão de obra, a tendencia é a acomodação. O “cidadão culto completo” é perigoso ao sistema, se depender das elites, eles nunca serão preparados dentro dos sistemas de ensino pois isso seria uma ameça ao seu poder. Mas a duvida é, como aprender e ensinar esses conceitos fora do ambiente academico?

    1. Prezado Super Suporte,
      em uma Universidade Pública com ensino de excelência, como a UNICAMP, onde eu modestamente dou minha pequena contribuição, tenho a liberdade acadêmica para exercer o papel de formador de bons cidadãos.

      Fora do ambiente acadêmico, tento usar esse canal da blogosfera para retribuir à sociedade o que ela pagou por meus estudos sempre em colégios e universidades públicas. Compartilho meus conhecimentos com a esperança que eles possam ser úteis a alguém.

      O número de visitantes deste modesto blog em menos de 6 anos — 4 milhões — indica que faz sentido essa minha atividade gratuita de voluntariado social.
      att.

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