Uma Teoria Evolucionária da Mudança Econômica

An Evolutionary Theory of Economic ChangeRichard Nelson e Sidney Winter: Uma Teoria Evolucionária da Mudança Econômica (Campinas; Editora da Unicamp; 2005 – original de 1982) dizem: “nosso uso do termo ‘Teoria Evolucionária’, para descrever nossa alternativa à ortodoxia, trata-se, acima de tudo, de uma sinalização de que tomamos emprestadas ideias da Biologia, exercendo assim uma opção a que os economistas têm direito perpétuo em reconhecimento ao estímulo que nosso predecessor Malthus ofereceu ao pensamento de Darwin” (p. 25).

Antes, já fizeram referência a outra ideia tomada emprestada, central em seu esquema, a ideia de uma “seleção natural” econômica. Os ambientes de mercado oferecem uma definição de sucesso para as firmas, e essa definição está muito próxima à habilidade delas de sobreviver e crescer. Padrões diferenciais de sobrevivência e crescimento em uma população de firmas podem produzir mudanças nos agregados econômicos que caracterizam aquela população, ainda que as características correspondentes das firmas individuais sejam constantes.

O apoio dessa ênfase analítica nesse tipo de evolução por seleção natural constitui uma visão de “genética organizacional” – os processos pelos quais as características organizacionais, incluindo as subjacentes à habilidade de gerar produtos e auferir lucros, são transmitidos ao longo do tempo.

Nelson & Winter pensam as organizações como sendo:

  • muito melhores nas tarefas de auto manutenção em ambientes constantes do que em grandes mudanças, e
  • bem melhores nos ambientes de mudanças em direção a “mais do mesmo” do que em qualquer outro tipo de mudanças.

Esta avaliação de um funcionamento organizacional relativamente rígido obviamente aumenta o interesse da questão de quanta mudança agregada pode ser provocada pelas forças de seleção isoladamente.

Contra esse pano de fundo intelectual, boa parte da teoria econômica contemporânea parece ligeiramente anacrônica, com seus equilíbrios harmoniosos lembrando uma época que era pelo menos mais otimista, se não verdadeiramente mais tranquila. É como se a Economia nunca tivesse ultrapassado as experiências de sua infância, quando a Física newtoniana era a única ciência que valia a pena imitar e a Mecânica celeste o seu mais notável resultado.

Existem ainda outras conotações que têm, no máximo, uma relativa importância para a própria Abordagem Evolucionária de Nelson & Winter. Há, por exemplo, a ideia do desenvolvimento gradual, frequentemente invocada pela oposição entre os termos “evolucionária” e “revolucionária”. Embora enfatizem a importância de certos elementos de continuidade no processo econômico, não negam (nem a Biologia contemporânea nega) que as mudanças são às vezes muito rápidas.

Cabe a analogia entre as falácias teleológicas na interpretação da evolução biológica e na da evolução econômica? Vale insistir em uma distinção clara entre explicações que caracterizam o processo de evolução “cega” e as que caracterizam a busca de metas “deliberadas” pela política econômica?

Nelson & Winter (2005: 28) contestam, enfaticamente, qualquer intenção de perseguir uma analogia biológica por si mesma, ou mesmo com vistas a progredir em direção a uma Teoria Evolucionária abstrata e de nível superior, capaz de incorporar uma série de teorias existentes.

Têm a satisfação em explorar qualquer ideia da Biologia que pareça útil para a compreensão de problemas econômicos, mas estão igualmente preparados para ignorar qualquer coisa que pareça estranha ou para modificar radicalmente teorias biológicas aceitas em favor do desenvolvimento de uma melhor teoria econômica. No entanto, consideram que trabalhos recentes na direção de uma visão da natureza humana como produto da evolução biológica constituem uma alternativa promissora à concepção de Homo Economicus.

As regras de decisões empregadas pelas firmas formam um conceito operacional básico da Teoria Evolucionária proposta por Nelson & Winter, bem como da ortodoxia contemporânea. Rejeitam, no entanto, a noção de comportamento maximizador como explicação de por que as regras de decisão são o que são.

Na verdade, descartam os três componentes do modelo maximizador:

  1. a função objetivo global, isto é, uma especificação do que as firmas do ramos estão procurando maximizar restrito como o lucro ou o valor presente, quando pode ser um objetivo muito mais complexo,
  2. o bem definido conjunto de escolhas que as firmas sabem fazer, como atividades ou técnicas, não incluindo, por exemplo, políticas de publicidade ou seleção de carteira de ativos, e
  3. a racionalização da escolha maximizadora das atitudes da firma, dado seu conjunto de atitudes alternativas, restrições mercado e internas, nem sempre levando em conta, por exemplo, imperfeições de mercado e custos.

Nelson & Winter consideram as “regras de decisões” como parentes conceituais muito próximos das “técnicas” de produção, enquanto a ortodoxia as vê como coisas muito diferentes.

Seu termo geral para todos os padrões comportamentais regulares e previsíveis das firmas é “rotina”. Utilizam esse termo para incluir características das firmas que variam de:

  1. rotinas técnicas bem especificadas para a produção de coisas,
  2. procedimentos para contratações e demissões,
  3. encomendas de novos estoques, ou
  4. aumentar a produção de itens de alta demanda,
  5. até as políticas relativas ao investimento, à pesquisa e desenvolvimento (P&D) ou à publicidade, e
  6. estratégias empresariais relativas à diversificação da produção e ao investimento no exterior.

Em sua Teoria Evolucionária econômica, essas rotinas assumem a função que os genes apresentam na Teoria Evolucionária biológica:

  • são características persistentes do organismo e determinam seu comportamento possível, embora o comportamento real também seja determinado pelo meio ambiente;
  • elas são hereditárias no sentido de que os organismos de amanhã gerados pelos de hoje, por exemplo, pela construção de uma nova fábrica, têm muitas das mesmas características; e
  • são selecionáveis no sentido de que organismos com certas rotinas podem sair-se melhor do que outros, e se assim for, sua importância relativa na população (no ramo de atividades) vai aumentando ao longo do tempo.

Para a sua Teoria do Comportamento Empresarial, construída sobre a noção de rotina, muito do que é regular e previsão está razoavelmente coberto sob esse rótulo, especialmente se ele incluir os humores e as heurísticas estratégicas relativamente constantes que moldam a forma com que a firma aborda os problemas não-rotineiros que enfrenta. O fato de nem todo comportamento empresarial seguir um padrão regular e previsível é acomodado na Teoria Evolucionária por meio do reconhecimento de que existem elementos estocásticos — que dependem ou resultam de uma variável aleatória — tanto na determinação das decisões quanto nos resultados das decisões. Eles são difíceis de prever.

Fazendo uma analogia, é também denominado estocástico o modelo linguístico no qual a língua é definida como um mecanismo que produz sequências de símbolos (as frases), cujo símbolo inicial é livre, e cada símbolo seguinte é determinado pelo que o precede, segundo o processo markoviano.

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