Uma Digressão sobre a Autarquia Intelectual em Economia

Darwin X SpencerRichard Nelson e Sidney Winter, em um tópico do livro Uma Teoria Evolucionária da Mudança Econômica (Campinas; Editora da Unicamp; 2005 – original de 1982), afirmam que os economistas, em média, parecem esquecer singularmente a existência do viés produzido por seu jargão técnico – um “economês” obscuro para os leigos – e reagem um tanto fracamente ao ideal intelectual de “ver o problema por inteiro”.

Nelson & Winter não tem dúvidas de que essa postura desafiadoramente autárquica é em grande parte consequência da extrema inflexibilidade das abstrações utilizadas na teoria ortodoxa. Os autores desta depositam uma confiança indevida no princípio metodológico do “como se” [as if] – uma confiança que às vezes chega à afirmação “não me incomode com os fatos”!

Nossa disciplina parece ter uma afeição obsessiva pelas suas respostas de primeira aproximação a várias questões. Os economistas não abrem mão de suas queridas visões adotadas quando foram estudantes…

Essa atitude autossuficiente certamente impede que muitos economistas se empenhem em um diálogo útil sobre quais deveriam ser essas aproximações subsequentes, mesmo com aqueles que estão bastante preparados para admitir que as primeiras aproximações da análise econômica têm um grande poder explicativo. Na visão de Nelson & Winter, o problema fundamental é que os compromissos de primeira aproximação da ortodoxia formal à racionalidade ilimitada e à otimização são inerentemente inflexíveis. A maioria dos economistas não sabe como traduzir teorias formais de forma mais flexível.

Uma consequência desse isolamento linguístico e conceitual é que a Economia hoje está desconectada de suas irmãs das Ciências Sociais. Vários resultados de pesquisa relevantes para a Ciência Econômica têm se acumulado ao longo dos anos na Psicologia, na Sociologia e na Ciência Política. Mas a maioria dos economistas não tem prestado atenção, por exemplo, aos resultados dos psicólogos sobre a escolha individual sob incerteza e stress, dos estudiosos do comportamento organizacional que não se restringem à tecnologia, das abundantes evidências nos processos de tomada de decisões que conflitam com a noção de maximização.

Ao analisar as fontes de intervenção governamental na economia, os economistas tendem a oscilar entre dois modelos.

  1. Algumas vezes, tentam justificar os programas governamentais como uma compensação a alguma falha de mercado.
  2. Outras vezes, eles veem a política econômica como resultado de um jogo político entre agentes que buscam defender seus próprios interesses.

No entanto, alguns economicistas desdenham a Política!

Por sua vez, os estudiosos de outras Ciências Sociais tendem a ter uma visão relativamente hostil da teoria econômica porque eles as consideram simplesmente uma caracterização inacreditável do que está ocorrendo, inconsistente com o que eles mesmo sabem. Uma teoria alternativa sintonizada com Ciências Afins ampliaria grandemente a gama de conhecimentos que os economistas poderiam absorver. Tornar a substância dos modelos econômicos mais crível os ajudaria a defender que o conhecimento das Ciências Sociais em geral pode ser ampliado pela construção e exploração de modelos formais.

Embora haja exceções importantes, as tristes relações intelectuais também são a regra geral ao longo da maioria das fronteiras que separam a Economia da pesquisa e da prática das Ciências Naturais e das Profissões Liberais.

Por exemplo, em relação à prática Administração de Empresas não dá para manter a convicção de que, o que quer que seja, é tudo (“como se fosse”) otimizador. Logo, ela seria conhecimento redundante, pois os economistas já sabem tudo sobre otimização!

De modo semelhante, o equilíbrio é outro conceito que leva os economistas a desconsiderarem o significado de outras áreas de investigação. Nas direções da Engenharia e das Ciências Naturais, o limite da disciplina Economia é definido pelo conceito de conjunto da produção. Só esse Todo lhe interessa, as interações entre as Partes ficam sob responsabilidade de outras disciplinas.

Mesmo as fronteiras que o separam do Direito são ultrapassadas pelos economistas. Desconhecem regras de responsabilidades, contratos informais, falências e tributos empresariais.

Em cada uma dessas áreas, o ponto de vista evolucionário fornece um argumento imediato de por que aquela área deveria ser uma preocupação dos economistas. Nelson & Winter sugerem que uma vantagem significativa da adoção de uma Teoria Evolucionária seria um passo adiante na livre troca de ideias.

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