Nomenclatura Chinesa e Desvalorização do Yuan

Zhou - BCChJamil Anderlini (FT, 18/09/15) conta que, no início da década de 1980, um promissor aluno de doutorado de uma preeminente família política chamou a atenção de um dos mais elevados dirigentes comunistas, ao conclamá-los a suspender os controles de preços e a autorizar importações de aparelhos de TV.

Três décadas depois, Zhou Xiaochuan, o presidente do BC chinês de mais longo mandato, ainda está convencendo os autoritários líderes do país das benesses da reforma econômica. Ao persuadi-los, no dia 11 de agosto de 2015, a desvalorizar a moeda, ele pode ter realizado a proeza culminante de sua carreira — ao preparar o caminho para a livre flutuação do yuan, que poderá desafiar o dólar americano como a moeda de reserva mundial.

O anúncio do Banco do Povo da China, o BC do país, de que tinha desvalorizado o yuan no câmbio com o dólar em quase 2% durante a noite — maior queda desde 1994 — pegou os mercados de surpresa e elevou a perspectiva de realização da assim chamada guerra cambial. Zhou apresentou a medida internamente, ao presidente do país, Xi Jinping, como uma questão de interesse nacional, necessária para impulsionar a economia em uma época de acentuada desaceleração do crescimento.

Para o mundo externo, o BC chinês retratou a desvalorização como um passo rumo a uma moeda chinesa mais voltada para o mercado e mais livremente negociável. Ele esperava que a iniciativa evitasse desvalorizações competitivas, ao mesmo tempo em que convenceria o Fundo Monetário Internacional (FMI) a incluir o yuan em uma cesta de moedas de reserva.

A capacidade de tornar suas reformas palatáveis tanto para os mercados mundiais quanto para os partidários comunistas o destaca como um tecnocrata brilhante, no auge de sua força política, apesar de ele estar se preparando para se aposentar.

Embora ele seja muitas vezes denominado como “o Alan Greenspan chinês”, o cargo de presidente do BC é muito menos influente na República Popular da China do que nos EUA. As grandes decisões, como elevar ou baixar as taxas de juros, são tomadas por dirigentes do Partido Comunista Chinês. Mas, como ocorre com a maioria dos cargos, é a pessoa que empresta poder ao posto, e não o contrário.

A exemplo de Xi e de muitos outros destacados dirigentes, Zhou é um “principezinho”, como são chamados os filhos dos membros de alto escalão do partido, e isso lhe dá uma influência que extrapola, de longe, seu título oficial. Ele nasceu em 1948, um ano antes da fundação da República Popular. Seu pai era um membro de primeira hora do Partido Comunista e de seu serviço secreto na Segunda Guerra Mundial, e foi posteriormente vice-ministro da Indústria de Maquinário.

Para além das biografias oficiais, detalhes pessoais dos destacados dirigentes chineses são considerados segredos de Estado e, além do fato de ele ser casado com uma ex-alta autoridade do Departamento Jurídico do Ministério do Comércio, pouco se sabe, publicamente, sobre sua vida privada.

O mais jovem Zhou se formou em uma escola de curso médio de elite em Pequim em 1966; e, quando a Revolução Cultural teve início naquele ano, era um dirigente de um dos odiosos grupos da Guarda Vermelha que perseguiam professores, “maus elementos” e “parasitas capitalistas”, segundo duas pessoas a par do assunto. Qualquer pessoa que o tenha conhecido nas últimas décadas considera difícil acreditar que esse homem afável, refinado e escrupulosamente cortês pôde estar envolvido nos violentos excessos do período.

Em 1968, a exemplo de milhões de outros jovens rebeldes, Zhou foi enviado a uma fazenda estatal localizada no gélido extremo nordeste do país, onde manteve seu moral elevado nos quatro anos de exílio escutando discos proibidos de música clássica. Quando seu pai foi reabilitado, em 1973, ele foi autorizado a voltar a Pequim e a ingressar na vida acadêmica. Na década de 1980, ele estudou por pouco tempo nos EUA e, ao voltar, ingressou num grupo de jovens tecnocratas de Pequim que pressionavam em favor da abertura do país para o Ocidente.

A sorte política começou a sorrir verdadeiramente para Zhou quando o presidente Jian Zemin, ex-protegido de seu pai, subiu ao poder, em 1989. Ele foi então presidente de uma série de organizações, como a Comissão Reguladora dos Valores Mobiliários da China, onde era conhecido como Zhou “Bapi” — aquele que escalpela — devido às tentativas de reprimir a corrupção nos incipientes mercados de capitais. Ele foi providencial:

  1. na abertura dos mercados de ações da China, no início da década de 1990,
  2. em socorrer financeiramente e reestruturar os bancos, no fim da década de 1990,
  3. na reforma das bolsas no início da década de 2000 e
  4. no estímulo ao mercado de bônus desde então.

Figura frequente nas reuniões do FMI, ele encanta os ocidentais com sua inteligência brilhante, seu inglês fluente, seu senso de humor e sua técnica de jogar tênis de segunda. Hank Paulson, ex-secretário do Tesouro dos EUA, atribui a Zhou o mérito de tê-lo convencido a assumir o cargo em 2006, após ele já o ter recusado. Mas as características que o tornam palatável às elites ocidentais muitas vezes se voltaram contra ele no país de origem, onde ele é acusado de ser liberal demais, “estrangeiro” demais e próximo demais dos EUA.

Seu iminente desaparecimento da cena política foi equivocadamente noticiado várias vezes desde que se tornou presidente do BC em 2002 — e ele foi alvo de campanhas da mídia externa em língua chinesa que o acusou de várias coisas, desde usar informação privilegiada até vender ações de bancos chineses a estrangeiros “a preço de banana”. Em 2010, o Banco do Povo da China foi obrigado a publicar fotos do encontro de Zhou com dignitários estrangeiros em Pequim, na esteira de rumores de que teria fugido para os EUA para evitar ser punido por prejuízos com bônus do Tesouro americano.

“É sabido que ele às vezes irrita as pessoas, inclusive o presidente Xi”, afirma Christopher Johnson, ex-analista-sênior para a China da CIA e atual funcionário do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais de Washington. “Mas ele nunca foi tão importante ou tão poderoso. Ele vai se aposentar em breve, portanto, não tem nada a perder e está absolutamente determinado a realizar as reformas de mercado às quais dedicou a maior parte de sua vida“, diz.

Assis Moreira (Valor, 24/08/15) noticia a opinião de que o  yuan precisaria desvalorizar pelo menos 15% para ter um efeito real sobre a economia da China. A desvalorização de alguns pontos percentuais ocorrida até agora é insuficiente para restabelecer a competitividade de alguns setores da indústria chinesa.

Por outro lado, vários economistas em O Mercado acreditam que Pequim vai manter uma queda modesta da moeda, entre 3% e 5%.

A perda de competitividade chinesa tem sido maciça. O enfraquecimento do euro e do iene explica boa parte disso.

O índice de taxa de câmbio efetiva real (EER, na sigla em inglês), publicado pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS), espécie de banco dos bancos centrais, mostra que, em julho de 2015, a taxa de câmbio real efetiva do yuan era de 127,46 comparada a 100 em 2010, ou seja, uma valorização acima de 27%. O dólar dos EUA estava em 115,58. Já o euro estava em 93,67 e o iene japonês em 75,07, ou seja, muito desvalorizados.

As coisas pioraram com a diferença entre a inflação mais alta da China e a taxa menor de seus principais parceiros comerciais. É por isso que a taxa de câmbio efetiva real da China valorizou mais de 30% desde o começo de 2015.

Também as altas de salários, ponto central nos custos industriais, têm ficado em torno de 10%, mesmo com inflação abaixo desse nível. O crescimento de salários pode ser bom para o consumo, mas pode certamente matar o setor exportador. A perda de competitividade é óbvia quando se olha o desempenho exportador da China nos mercados-chaves.

Por tudo isso, a avaliação é que a depreciação do yuan precisa ser bem maior do que ocorreu até agora, para ser eficaz, apesar de certos riscos. Por exemplo, pode ampliar as saídas de capitais da China. Entre 2013 e 2014, saíram em torno de US$ 350 bilhões, com o recuo da rentabilidade do capital pela alta de custos salariais.

Sobretudo, a política para o yuan pode alterar bastante a estratégia econômica chinesa dos últimos 15 anos, que consistiu em:

  1. tentar aumentar o peso do consumo no Produto Interno Bruto (PIB) e
  2. impulsionar as empresas a elevar o valor agregado de seus produtos – dois objetivos que requerem moeda forte.

Para analistas, uma apreciação real da moeda força as empresas a melhorar a sofisticação de seus produtos, já que perdem competitividade se não fizerem isso. Uma real depreciação, por sua vez, protege companhias de produtos com preços mais baixos.

A questão, porém, é que haveria riscos políticos com uma deterioração significativa da economia no curto prazo. E a desvalorização maior é considerada necessária, mas não deveria vir de forma abrupta.

Esqueça os “cinco frágeis“. Agora os estrategistas do Morgan Stanley estão preocupados com os que poderiam ser chamados de os “dez problemáticos“. É como passaram a ser tratados países que estão particularmente sob risco desde que a China desvalorizou o yuan.

Apesar de os analistas não terem usado o termo, trata-se de uma boa descrição para qualquer uma das moedas – do real ao sol peruano, passando pelo won sul-coreano – com laços comerciais que as tornam mais suscetíveis à desaceleração da segunda maior economia do mundo.

Quanto à vulnerabilidade”, as principais vítimas da mudança na política desta vez são as moedas dos países com elevada exposição à exportação e à competitividade das exportações da China.

O Morgan Stanley estava certo em relação aos “cinco frágeis” – Brasil, Índia, Indonésia, África do Sul e Turquia. Desde que foi cunhado, em 2013, o termo engloba quatro das oito moedas com pior desempenho no mundo em desenvolvimento. O real, a lira turca, o rand sul-africano, a rupia indiana e a rupia da Indonésia têm sofrido com um cenário que tornou mais difícil para seus países o financiamento de seus déficits em conta corrente.

O maior desafio agora é o baixo crescimento global. Apesar de os bancos centrais de Japão, Europa e EUA terem lançado estímulos recordes, neste ano a economia mundial se expandirá ao ritmo mais lento desde 2009, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional.

Essa recuperação morna indica que a China não poderá depender das exportações para impulsionar a expansão. Em contrapartida, o crescimento mais lento também colocará os parceiros comerciais da China em uma encruzilhada.

Há algumas coincidências entre os “cinco frágeis” e a nova lista das moedas sob risco, entre elas o rand e o real. Também estão vulneráveis à desaceleração da China o baht tailandês, os dólares de Cingapura e de Taiwan, os pesos chileno e colombiano, o rublo russo, o won e o sol.

A China é o principal destino de exportação da maioria dos países da lista dos “dez problemáticos”. O país respondeu por 37% das exportações da África do Sul e por 30% dos embarques da Coreia do Sul ao exterior em 2014.

Mesmo com o yuan corroendo os mercados, os investidores ainda preveem que o Federal Reserve (Fed) manterá o plano de elevar as taxas de juros pela primeira vez em nove anos, o que ameaça afastar capital que ia aos mercados emergentes. Os contratos futuros mostram que os operadores veem uma chance de 75% de o banco central dos EUA tomar uma decisão até o fim do ano.

É provável pelo menos mais um episódio problemático antes de as moedas dos mercados emergentes se tornarem atraentes para compra.

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