“Os cães ladram, a caravana passa”: Avanço na Produção de Petróleo no Pré-Sal

Longe de saírem do mercado, as petrolíferas americanas surpreenderam suas concorrentes mundiais ao manter ou mesmo aumentar a produção enquanto os preços nos EUA despencavam de US$ 100 para US$ 70 o barril no fim de 2014, tendo fechado próximo de US$ 40 no dia 21/08/15. Ainda mais surpreendente é que a Arábia Saudita, na verdade, ampliou sua produção em meio à queda nos preços, o que os analistas dizem ser um esforço preventivo para evitar que concorrentes, como o Iraque, roubem seus clientes na Ásia.

O resultado é uma versão petrolífera de uma guerra de trincheiras, com todos os produtores tentando conquistar uma fatia maior de mercado, custe o que custar.

E isso está produzindo vencedores e perdedores ao redor do mundo, levando a uma nova alta nas vendas de picapes beberronas nos EUA e provocando o caos na economia da Venezuela.

Embora cortar a produção e eliminar o excesso de oferta possa fazer sentido para países produtores ou para as petrolíferas, não existe vontade política ou justificativa, do ponto de vista dos negócios, para isso, dizem analistas, porque todos os participantes precisam manter o fluxo de entrada de dinheiro.

“Todo mundo está pensando: ‘Os preços do petróleo estão caindo e eu preciso produzir o máximo que puder para compensar’”, diz Jamie Webster, diretor sênior da IHS Energy, uma consultoria do setor. “Isso faz muito sentido num nível micro, mas num nível macro nos deixa na situação em que estamos agora.”

O preço do petróleo nos EUA recuou mais 2,1%, no dia 21/08/2015, para US$ 40,45 o barril, chegando durante o dia a ser cotado abaixo de US$ 40 pela primeira vez desde 2009. Já o preço do petróleo Brent, a referência internacional, caiu US$ 2,5%, para US$ 45,46 o barril, na bolsa ICE Futures Europe, em Londres.

Até meados de 2014, os preços globais do petróleo estavam relativamente estáveis e vinham já há alguns anos sendo negociados ligeiramente acima de US$ 100 o barril. Nos bastidores, porém, o boom do petróleo americano estava desfazendo esse equilíbrio. As técnicas de perfuração horizontal e fraturamento hidráulico permitiram às petrolíferas extrair milhões de novos barris de petróleo das antes inexploráveis formações de xisto.

Entre 2008 e 2015, a produção de petróleo dos EUA subiu 75%, atingindo 9 milhões de barris por dia no fim do ano passado.

Por outro lado, a demanda global por petróleo parecia estar recuando e os preços começaram a enfraquecer também. A Arábia Saudita se viu diante de uma escolha. O reino poderia cortar a produção para elevar os preços globais, o que permitira ao Iraque e outros países conquistar uma fatia de mercado na Ásia. Ou poderia manter sua produção, mesmo que isso provocasse um superabastecimento dos mercados globais e uma queda ainda mais forte dos preços.

Em uma reunião importante da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), em novembro de 2014, os saudistas decidiram manter a produção e deixar os preços caírem.

Recentemente, porém, a Arábia Saudita até elevou a produção. Em novembro de 2014, na época da reunião, o país produzia 9,6 milhões de barris por dia. Em julho de 2015, atingiu 10,4 milhões de barris. A Opep, que não define mais a cota de produção de seus membros, tem a meta de produzir 30 milhões de barris diários que é comumente ultrapassada.

Outro membro da Opep, o Iraque, também elevou a produção de 3,4 milhões de barris diários em novembro para 4,1 milhões de barris no mês passado.

Apesar das previsões, as petrolíferas que exploram formações de xisto estão reduzindo o custo da produção de petróleo. Empresas de serviços também cortaram preços para manter suas equipes trabalhando. O aumento da produção de petróleo nos EUA desacelerou, mas só em maio de 2015 deu sinais que está se estabilizando. A produção americana pode estar finalmente começando a cair, mas muitas empresas ainda estão elevando a produção. Algumas não divulgam seus planos de exploração, na expectativa que outras façam cortes primeiro.

De Moscou até a Cidade do México, governos enfrentam dificuldades com a queda da receita com petróleo. A Venezuela sofre com uma inflação de três dígitos e uma economia que, segundo o Fundo Monetário Internacional, deve se contrair 7% neste ano.

Produtores como Egito, Angola, Gabão e Indonésia cortaram subsídios domésticos aos combustíveis à medida que sua receita com exportações de petróleo despencou.

A queda dos preços levou muitas petrolíferas a reconsiderar seus projetos de exploração mais caros e complexos.

Outra incógnita também é o Irã, que deve aumentar suas exportações se as sanções ocidentais ao país forem suspensas em virtude do acordo nuclear. Isso poderia ampliar ainda mais o excesso de oferta mundial.

Custo de extração X cotação do petróleoMuitos analistas colocam o Tico-e-Teco (“2 neurônio” sic) a funcionar e deduzem que a queda dos preços do petróleo no mercado internacional será mais um baque na lucratividade da Petrobras na exploração dos campos no pré-sal com impacto nas cotações de suas ações. Acham que uma volatilidade conjuntural reverterá uma decisão crucial, que mudará o contexto da economia brasileira de maneira estratégica e irreversível!

O petróleo tipo Brent, usado como referência nos contratos da companhia e da Agência Nacional do Petróleo (ANP), fechou com queda, cotado a US$ 45,42 o barril. O valor está abaixo dos US$ 52 a US$ 53 informados pela Petrobras em janeiro deste ano (2015) como sendo o preço mínimo do barril suficiente para garantir a viabilidade econômica da produção do pré-sal.

Esse preço, informava a empresa, levava em conta um custo aproximado de US$ 45 por barril para a produção e pagamento de tributos, e seria suficiente para remunerar o capital investido. Contudo, ele não inclui a infraestrutura para escoamento do gás, que representa um aumento de US$ 5 a US$ 7 por barril.

A estatal informou que “está aumentando a sua capacidade de produção de petróleo e gás no pré-sal de modo economicamente viável considerando a alta produtividade dos poços“.

Na média de 2015, até o dia 21 de agosto, o preço do Brent já está em US$ 58,78, abaixo do preço médio considerado no novo plano de negócios da Petrobras, que prevê US$ 60 para o barril de Brent. Se o preço da commodity está superestimado no plano de negócios, o câmbio considerado está subestimado. Isso porque ela considera R$ 3,10 por dólar, mas o dólar fechou cotado a 3,49 na sexta.

O colapso dos preços do petróleo que começou há um ano não dá sinais de alívio. Tudo indica que a Petrobras pode ter pouca sobra na produção para pagar sua bilionária dívida, o que pode levar a companhia a rever, novamente, seus investimentos, segundo os contumazes agourentos de O Mercado. O fenômeno afeta não só a Petrobras e o Brasil, mas outros países emergentes que também se beneficiaram do superciclo das commodities, particularmente na América Latina e África.

O caso da Petrobras é o mais emblemático, devido ao alto endividamento que vai gerar fluxos de caixa negativos. A reação do setor, até o momento, tem sido na direção de um imenso esforço para reduzir custos e suspender projetos menos rentáveis. A queda das cotações do petróleo West Texas Intermediate (WTI), usado como referência no mercado americano, afeta as exportações do Canadá, que enfrenta gargalos na infraestrutura de escoamento da produção de areias betuminosas.

Já existem previsões alarmistas de que pode chegar perto dos US$ 30, pois o verão americano, que é a temporada de maior consumo, está terminando e a parada das refinarias para manutenção vai aumentar os estoques, pressionando ainda mais os preços. O WTI chegou ser negociado abaixo de US$ 40 na sexta, uma barreira “psicológica” preocupante. Foi a primeira vez desde 2009 que chegou nesse patamar.

Devido às características do petróleo exportado pela Petrobras, que é pesado com elevado teor de enxofre, a companhia vende a commodity com um desconto de aproximadamente US$ 10 o barril em relação ao Brent. Nas exportações brasileiras é necessário descontar o custo do frete.

O atual patamar do petróleo ainda é superior aos custos médios de extração registrados no balanço mais recente da Petrobras. No primeiro semestre, o custo de extração foi de US$ 12,99 por barril. Considerando a participação governamental, o valor cresce para US$ 21 por barril, mas bem abaixo do custo de US$ 32,79 visto no mesmo intervalo do ano anterior.

Esse valor, que não leva em conta a taxa de retorno do capital investido, considera uma média de custos de produção em diversas bacias, no mar e em terra. Foi a menor participação governamental – a única ajuda advinda dos preços mais baixos – que ajudou a reduzir esses custos. Em 2004, quando o preço do Brent médio foi de US$ 38,2 o barril, o custo de extração com participação governamental era de US$ 10,72.

As ações da Petrobras se aproximaram das suas mínimas em mais de dez anos. A ação preferencial (PN) fechou com queda de 4,93%, a R$ 8,30, perto da mínima de R$ 8,18 atingida no fim de janeiro, no menor preço desde dezembro de 2014. A ordinária (ON) recuou 5,06%, a R$ 9,20, também próxima dos menores níveis desde agosto de 2014. Na bolsa de Nova York (Nyse), as ADRs também registram forte queda. A ADR com lastro nas ações ordinárias recuou 6,49%, a US$ 5,26, e a preferencial caiu 5,37%, a US$ 4,76. Enfim, só isso interessa à visão curto-prazista de O Mercado, não o interesse estratégico nacional em longo prazo.

A produção de petróleo e gás da Petrobras no Brasil e no exterior fechou julho de 2015 com a média de 2,796 milhões de barris de óleo equivalente (BOE) por dia, uma alta de 1,8% na comparação com os 2,746 milhões diários de BOE de junho. Na comparação com os 2,699 milhões de BOE/dia de julho de 2014, houve alta de 3,6%.

No Brasil, a produção de petróleo e gás natural foi de 2,611 milhões de BOE/dia, 2,3% acima dos 2,553 milhões de BOE/dia de junho. No caso da produção exclusiva de petróleo no Brasil, a estatal extraiu 2,142 milhões de barris/dia em julho, 2,6% acima dos 2,088 milhões de barris/dia de junho.

Segundo a estatal, esse crescimento da produção no Brasil reflete a entrada em operação de novos poços:

  1. nas plataformas P-58, no Parque das Baleias, e P-62, no campo de Roncador, ambas na Bacia de Campos; e
  2. na plataforma Cidade de Mangaratiba, ancorado na área de Iracema Sul, no pré-sal da Bacia de Santos.

Cabe registrar que, como divulgado ao mercado em 31 de julho, o FPSO [plataforma] Cidade de Itaguaí começou a produzir na área de Iracema Norte, localizada no campo de Lula, no pré-sal da Bacia de Santos. Essa nova unidade tem capacidade para processar diariamente 150 mil barris de petróleo e 8 milhões de m3 de gás.

A produção de gás natural no Brasil, excluído o volume liquefeito, foi de 74,524 milhões de m3 /dia, 0,9% acima do total produzido em junho, que ficou em 73,886 milhões m3 /dia).

Em 8 de julho de 2015, foi atingido o recorde de produção diária operada pela Petrobras no pré-sal, com 865 mil barris de petróleo por dia. A média do mês no pré-sal foi de 798 mil barris/dia, 6,9% acima do recorde histórico obtido em junho.

No exterior, a estatal produziu 184,6 mil BOE/dia de petróleo e gás em julho, 4,2% abaixo dos 192,7 mil BOE/dia de junho, devido, principalmente, à parada programada da plataforma do Campo de Saint Malo, no Golfo do México americano.

A produção de petróleo no exterior foi de 95,9 mil barris/dia, 5,9% inferior aos 101,9 mil barris/dia produzidos em junho. A produção média de gás natural no exterior foi de 15,1 milhões m3 /dia, 2% abaixo da produção do mês anterior, que foi de 15,4 milhões m3 /dia.

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