Path Dependence: Algumas Observações Introdutórias

Abstract-word-cloud-for-Path-dependence-with-related-tags-and-terms-Stock-PhotoLars Magnusson e Jan Ottosson (The Evolution of Path Dependence. UK-USA, Edward Elgar, 2009) dizem que não há dúvida sobre o papel pioneiro de Paul David e Brian Arthur, que foram os primeiros a iniciar uma discussão sobre a relevância da path dependency [dependência de trajetória], na década de 1980 e 1990. Eles usaram path dependence em suas obras originais como uma descrição dos efeitos lock-in em termos de tecnologia.

Um fator-chave foi o reconhecimento dos sistemas não-ergódicos, enfatizando que é difícil se desligar da história anterior. Paul David (1985) usou o exemplo do teclado QWERTY para ilustrar como as escolhas da nova tecnologia foram influenciadas por outras forças que não as meras “escolhas ótimas em um mercado perfeito”. O argumento básico desse influente artigo era que a organização das letras no teclado foi resultado de pequenos eventos fortuitos, dando assim origem a um padrão, apesar da disposição do teclado competidor Dvorak ser melhor, de acordo com David.

Qualificar um evento como contingente tem os seguintes significados:

  1. que pode ocorrer ou não ocorrer; incerto;
  2. que ocorre por acaso ou por acidente; acidental; casual, fortuito, aleatório;
  3. diz-se de plano elaborado para substituir outro, no caso de eventualidades;
  4. na filosofia escolástica, diz-se de qualquer ocorrência fortuita e casual quando considerada isoladamente, mas necessária e inevitável ao ser relacionada às causas que lhe deram origem;
  5. no spinozismo, diz-se de circunstância aparentemente eventual, em decorrência de uma limitação do conhecimento humano na compreensão de sua origem causal;
  6. na filosofia contemporânea, em polêmica com a tradição, diz-se de evento natural ou humano que se caracteriza por sua absoluta indeterminação e imprevisibilidade.

Em termos gerais, David argumentou que não é possível entender porque certas tecnologias foram escolhidas sem analisar os eventos anteriores e seu impacto sobre as escolhas tecnológicas existentes. Isto foi discutido em termos de que “a história importa”.

David discute três razões pelas quais tais dependências de trajetórias ocorreram.

Primeiro, seleções cognitivas desenvolvidas ao longo do tempo podem ser vistas como influentes na formação de uma memória coletiva, sendo uma parte da redução do leque de escolhas por parte dos atores, devido a essas razões históricas.

Em segundo lugar, investimentos específicos de cada firma podem também ser uma parte de tal dependência de trajetória, já que a torna sensível aos eventos históricos anteriores.

A terceira razão está relacionada com a forte inter-relação em organizações complexas, que também incluiria a inter-relação tecnológica. Esta é certamente uma versão de dependência de trajetória que pode ser vista como mais intimamente ligada à noção “forte” de path dependence.

Além disso, é de fato uma definição muito mais geral em comparação com a interpretação de Rosenberg sobre sistemas técnicos e seu processo de transformação. Path dependence, nesta interpretação, pode ser considerada como sendo sensível às escolhas aleatórias no início de um processo, e onde essas pequenas etapas aleatórias serão reforçadas ainda mais. O papel de path dependence, mudança técnica localizada e inovações é discutido em termos de uma abordagem, ou uma ferramenta, para explicar a dinâmica econômica, indo além da análise estática do equilíbrio geral.

David enfrentou um debate acalorado a respeito de path dependence, bem como de suas diversas aplicações. Vale a pena notar que Hodgson sugeriu que o artigo de David, publicado originalmente em 2001 e republicado em 2007, é um dos artigos mais importantes sobre path dependence (Hodgson, 2007, p. 14).

Nele, David sugeriu a seguinte definição:

“Dependência de trajetória, da forma como eu gostaria de usar o termo, refere-se a uma propriedade dinâmica dos processos de alocação. Pode ser definida quer no que respeita à relação entre a dinâmica do processo e o(s) resultado(s) para o(s) qual(is) converge, quer no que se refere à limitação da distribuição de probabilidades do processo estocástico em consideração”. (David, 2007, p 123; ênfase original)

David argumenta também que a definição positiva de dependência de trajetória pode ser formulada da seguinte maneira: “Uma definição positiva é: uma trajetória dependente do processo estocástico é aquela cuja distribuição assintótica evolui como consequência (função de) do próprio processo histórico” (David, 2007, p. 125). Dando à path dependence uma definição mais geral, isto também teve importantes implicações para o papel dos efeitos lock-in, como observou ainda David.

Sistemas de trajetórias dependentes – que têm uma multiplicidade de possíveis equilíbrios entre os quais seleções de eventos contingentes podem ocorrer – podem se tornar assim bloqueados [locked in] para atratores que são ideais (ótimos), ou que são tão bons como quaisquer outros no conjunto viável, ou que tomam trajetórias que levam a lugares que todos gostariam de ter sido capazes de evitar, uma vez que eles constataram quando lá chegaram.” (David, 2007, p. 131)

Em linha com as definições acima estabelecidas, David e Thomas têm argumentado que dependência de trajetória deve ser considerada como uma característica sistemática. Eles especialmente enfatizam o papel da path dependence em um sistema dinâmico: “de um sistema cujo movimento permanece sob a influência das condições que são elas próprias legados contingentes de eventos e ações em sua história” (David e Thomas, 2003, p. 15).

De acordo com essa interpretação da dependência de trajetória, não é útil analisar todos os fenômenos econômicos como estivessem influenciados em certa trajetória dependente. Eles sugerem que vários problemas podem sim ser melhor analisados por uma tradicional análise de demanda e oferta.

No entanto, David e Thomas sugerem que a extensão em que a dependência de trajetória ocorre na vida econômica é um problema empírico. Eles argumentam fortemente contra a ideia de path dependence como um teoria. Pelo contrário, deve ser vista “como um rótulo que se refere em particular às propriedades dinâmicas que caracterizam alguns, mas não todos os processos de alocação de recursos” (David e Thomas, 2003, p. 17).

Eles ainda mencionam que ela pode ser definida como um processo relacionado com os processos dinâmicos e o resultado ou a limitação de possíveis ações disponíveis dentro de um sistema dinâmico.

Assim, um sistema dinâmico pode ser caracterizado por ser um sistema de trajetória independente, em que as condições iniciais não irão dificultar seu futuro desenvolvimento. O caso de sistemas dependentes de trajetória poderia ser definido em vez como “um sistema estocástico dependente de trajetória é aquele em que o sistema de distribuição assintótica evolui como uma consequência (função de) o processo de sua própria história “(David e Thomas, 2003, p. 18).

Os autores também argumentam que os processos dependentes de trajetória não são apenas uma questão de identificar as escolhas abaixo do ideal, devido às ineficiências estáticas. Eles veem, por exemplo, os mercados com fortes externalidades de rede como particularmente sensíveis aos eventos iniciais que configuraram sua história, mas eles também enfatizam que, em alguns casos, a dependência de trajetória também é um mecanismo que pode ser importante na promoção da eficiência dinâmica. A análise dos resultados positivos dos fenômenos de retroalimentação estão no centro das abordagens de ambos (David e Thomas, 2003, p. 26).

Em suma, esta interpretação da dependência da trajetória sugere que apenas algumas questões econômicas são adequadas para este rótulo. Tradicionais explicações de oferta e demanda são, de fato, mais úteis para explicar vários fenômenos econômicos. Por outro lado, para específicos problemas empíricos, por exemplo, em indústrias com externalidades de rede, path dependence pode ser utilizada como um rótulo ou uma ferramenta para estudar os fenômenos de retroalimentação positiva. Tais fenômenos podem ser tanto negativos ao seu caráter, dificultando a dinâmica econômica, ou positivos, por promover ainda mais o desenvolvimento econômico bem-sucedido.

De acordo com o ponto de vista de Lars Magnusson e Jan Ottosson, este novo desenvolvimento do conceito de dependência de trajetória pode intuitivamente ser promissor, uma vez que a questão da mudança institucional pode ser incluída em tal definição. No entanto, pode haver um risco em se adicionar pouco valor explicativo com o uso desse conceito amplo de path dependency, devido ao risco evidente de explicar cada processo dinâmico, bem sucedido ou não, como um processo dependente da trajetória. Isso abre caminho para a dependência de trajetória tipificar explicações que são muito genéricas.

Leia mais:

Dependência da Trajetória [Path Dependence]

Surgimento do Conceito de Path Dependence

Instituições: Carregadoras da História

Dependência de Trajetória em Ciências Afins: Ciência Econômica e Ciência Política

Processos de Dependência de Trajetória

Contingência

Sequências Reativas Cíclicas e de Feedback Negativo

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