Crédito encarece, mas não carece de Funding e sim de Demanda…

Crédito julho 2015A média dos saldos diários da base monetária situou-se em R$ 234,1 bilhões em julho de 2015, com expansões de 0,4% no mês e 3,6% em doze meses. No mês, foram registrados acréscimos de 1,9% nas reservas bancárias e de 0,1% no papel-moeda emitido. Em outras palavras, o estoque de moeda está elevando-se em ritmo muito inferior ao do crescimento da taxa de inflação. Está sendo aplicada pela Autoridade Monetária a clássica receita monetarista?!

Entre os fluxos mensais dos fatores condicionantes da base monetária, destacaram-se as operações com títulos públicos federais, que incluem a atuação do Banco Central no ajuste da liquidez do mercado monetário, com efeito contracionista de R$ 40,2 bilhões, resultante de vendas líquidas de R$ 61,3 bilhões no mercado secundário e resgates líquidos de R$ 21,1 bilhões no mercado primário. Em contrapartida, os ajustes nas operações com derivativos e as operações do Tesouro Nacional provocaram expansões respectivas de R$ 23,9 bilhões e de R$ 10,3 bilhões.

O saldo médio diário dos meios de pagamento restritos (M1) atingiu R$ 305,6 bilhões em julho, com avanço de 0,5% no mês, decorrente das elevações de 0,7% nos depósitos à vista e de 0,3% no papel-moeda em poder do público. Em doze meses, o M1 declinou 1,1%. Esses Haveres Monetários têm custo de oportunidade por não renderem juros...

O saldo dos meios de pagamento no conceito M2, que corresponde ao M1 mais depósitos de poupança e títulos privados, recuou 0,1% em relação a julho, totalizando R$ 2,1 trilhões,  ou seja, R$ 1,8 trilhão que rende juros. A variação refletiu, sobretudo, a redução de 0,3% nos depósitos de poupança, cujo saldo alcançou R$ 648,9 bilhões, após resgates líquidos de R$ 2,5 bilhões. O saldo dos títulos privados elevou-se 0,5%, somando R$ 1,2 trilhão, com captações líquidas de R$ 1,8 bilhão em depósitos a prazo. Os juros dos CDBs (% CDI) são maiores do que os 0,5% a.m. dos depósitos da poupança…

O agregado M3, que compreende o M2, as quotas de fundos de renda fixa e os títulos públicos que lastreiam as operações compromissadas entre o público e o setor financeiro, cresceu 0,4% no mês, alcançando R$ 4,5 trilhões, reflexo do aumento de 1,2% nas quotas de fundos de renda fixa, que somaram R$ 2,2 trilhões. Por dedução (R$ 4,5 tri – R$ 2,1 tri = R$ 2,4 tri de M3 – M2), essas operações compromissadas seriam cerca de R$ 200 bilhões.

O M4, conceito que compreende o M3 e os títulos públicos de detentores não financeiros, registrou elevação de 0,9% no mês e de 12,7% em doze meses, atingindo R$ 5,3 trilhões. Grosso modo, descontando os R$ 306 bilhões do M1, que não recebem juros, foram R$ 5 trilhões que se capitalizaram com a elevada média semestral da taxa de juros básica.

Se o saldo das operações de crédito do sistema financeiro atingiu R$ 3.111 bilhões, em julho de 2015, e a relação crédito/PIB alcançou 54,5%, deduz-se por “regra de três” que o BCB estimou para esse mês o PIB nominal de R$ 5.708 bilhões. O M4 representou 92,8% do PIB. Em julho, as transações correntes acumularam, nos doze meses anteriores, deficit de US$ 89,4 bilhões, equivalente a 4,34% do PIB. Logo, o funding do financiamento total (97,1% do PIB) correspondeu à soma da  relação crédito/PIB de 54,5% com a dívida mobiliária federal interna, fora do Banco Central, avaliada pela posição de carteira, de R$ 2.475,2 bilhões (43,4% do PIB) em julho, ou seja, 97,9% do PIB.

A conclusão é que não é por carência de funding que os dados de crédito de julho de 2015 evidenciaram uma deterioração nas condições de crédito, resultado de um aumento das taxas de inadimplência, da composição menos benigna do portfólio de crédito com recursos livres para indivíduos e do aumento generalizado de taxas de juros e de spreads. No acumulado em 12 meses encerrado em julho, o estoque de financiamentos do país cresce 9,9%, para R$ 3,11 trilhões.

Se o volume de crédito parou de perder fôlego, o avanço dos juros ficou mais rápido em julho. A taxa média dos juros das operações de crédito encerrou o mês em 28,4% ao ano, com aumento de 0,8 ponto percentual em relação a junho. No mês anterior, o incremento em taxas de juros havia sido de 0,5 ponto percentual.

Destaque para o crescimento do já altíssimo juro do crédito rotativo do cartão, que chegou a 395,3% ao ano em julho de 2015, com avanço de 23,2 pontos percentuais ante o mês imediatamente anterior. O valor é recorde da série histórica do BC. Embora tenha ficado significativamente mais caro, o crédito rotativo do cartão foi uma das linhas que mais cresceram no segmento de pessoa física. O estoque dessas operações subiu 0,5% ante junho e acumula alta de 12,3% em 12 meses, somando R$ 32 bilhões.

Outro indicador da percepção dos bancos de maior risco foi a redução do prazo das operações de crédito, que recuou em julho em velocidade superior à vista no mês anterior. O prazo médio das operações liberadas foi de 111,9 meses, ante 115,2 meses em junho, uma queda de 3,3% nessa base de comparação. No mês anterior, o recuo nos prazos tinha sido equivalente a 2,3%.

A taxa real de crescimento do crédito em 12 meses até julho foi de 0,5% – o menor percentual de expansão desde fevereiro de 2004. Uma ressalva importante sobre essa comparação é ponderar que o fraco crescimento real do crédito tem hoje um efeito muito maior do que naquela época. Isso porque, em 2004, o crédito não passava de 25% do PIB. Hoje, essa participação está em 54,5% do PIB. Como um dos principais canais de transmissão da política monetária, o mercado de crédito já dá sinais de forte reversão.

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