Que horas ela volta? – Excelente roteiro, diálogos, intérpretes, fotografia, etc. Tudo de bom! Filme imperdível!

Sob o ponto de vista marxista, o ótimo filme brasileiro – “Que horas ela volta?” – poderia ser sumariamente definido com um roteiro que retrata “a luta de classes a la brasileira”. O que é isso?! O tradicional populismo esnobe da burguesia herdeira paulistana que trata seus empregados nordestinos com aparente condescendência, isto é, uma atitude deferente, atenciosa (sincera ou não) de um “superior” (em poder ou dignidade social, econômica, institucional, política etc.) para com um “inferior” ou pessoa assim considerada.

Mas como dizia aquela propaganda de transportadora imobiliária: “o mundo gira, a Lusitana roda”. Na conjuntura política atual, o filme mostra a razão mais profunda do ódio da burguesia ao lulismo. Nele pode ser vista a origem do discurso de ódio antipetista.

Mostra a chegada de imigrantes nordestinos pelo aeroporto de Guarulhos – “virou uma rodoviária” –, não mais para servir de mão-de-obra explorada e submissa, mas sim para disputar (e ganhar) vaga no vestibular da USP. O filho da patroa não estuda, suficientemente, para enfrentar essa nova leva social e estranha a pretensão da filha da empregada querer estudar na FAU. Acomodado, ele vai disputar vaga em Universidade paga de pior qualidade…

O filme também trata da relação filho carente-pai(s) ausente(s). O amor entre a criança e a babá é mais profundo do que o com a mãe-executiva focada apenas em sua profissão. Por mais que tente, esta não consegue disfarçar a baixa autoestima – e a reduzida estima por marido e filho!

Ama-de-leite” é a mulher que amamenta criança alheia quando a mãe natural está impossibilitada de fazê-lo. Geralmente, no passado, esse encargo era dado às escravas que já tinham filhos.

O filme é interessante também por comparar essa dualidade no tempo presente. A classe ociosa herdeira impõe essa prática também à sua “criada”. Afinal, a imigrante nordestina foi “criada” como fosse da família…

O cinismo condescendente, que tenta acentuar sua (imaginária ou não) superioridade, tratando de maneira paternalista outra pessoa, de modo desdenhoso e arrogante, é incorporado pela elite econômica brasileira. Porém, quando a política afirmativa de cotas é imposta pelo “lulismo”, ela não consegue se apresentar como “elite cultural”. A rede social e as manifestações nas ruas demonstram, claramente, o nível de sua burrice e agressividade com “os outros”, a maioria do povo brasileiro.

Diretora do film Que Horas Ela ChegaEm seguida, apresento dados e informações sobre o filme, colhidos da resenha de Neusa Barbosa (Cineweb, via Reuters) publicada no site G1 e uma ótima entrevista com a diretora Anna Muylaert no Valor (17/04/2015).

“Consagrada por filmes como “Durval discos” (2002) e “É proibido fumar” (2009), a diretora e roteirista paulista Anna Muylaert atinge novo patamar em “Que horas ela volta?” (assista ao trailer acima), em que mistura com habilidade o drama familiar e a reflexão social, em um filme que fala com propriedade e sentimento sobre o Brasil de hoje.

Seus temas não dialogam só com o Brasil, aliás, como atestam os prêmios internacionais que a produção vem colecionando desde o início do ano, caso do Festival de Berlim, onde colheu o prêmio de melhor filme na mostra Panorama, e no Festival de Sundance, onde as atrizes Regina Casé e Camila Márdila dividiram o troféu de melhor interpretação feminina em filme estrangeiro.

Um dos grandes méritos deste roteiro, também assinado por Anna, é a capacidade de articular vários planos de uma mesma situação e multiplicar os olhares sobre ela. Assim, elege como sua protagonista a doméstica Val (Regina Casé), uma pernambucana que há vários anos trabalha como babá e empregada na casa de uma família de classe média alta em São Paulo. Então, assume o ponto de vista de alguém que ocupa o andar de baixo, literal e metaforicamente, na trama.

Tendo criado desde pequeno o filho da família, Fabinho (Michel Joelsas), Val é uma espécie de mãe substituta dele para a executiva Bárbara (Karine Teles), sua patroa. E a própria Val deixou para trás a própria filha, Jessica (Camila Márdila), que foi criada em Pernambuco por outra mulher, a quem ela envia regularmente dinheiro.

A sobreposição destes papéis femininos trocados é apenas uma das muitas sutilezas – e contradições – da realidade brasileira que a história desdobra dramaticamente para abordar seus conflitos e mudanças.

Assim, Val será confrontada com as mágoas de sua situação quando a filha decide vir para São Paulo, hospedando-se com ela, porque planeja prestar vestibular.

O fato de que a filha da empregada venha disputar o mesmo vestibular que o filho dos patrões – Arquitetura na FAU-USP – evidencia um quadro de transformação social e também de confronto.

É visível o desconforto de Bárbara com este detalhe, bem como com a atitude de sua nova hóspede na casa. Jessica, afinal, está longe de se conformar, como sua mãe, com os limites apertados de seu quartinho de empregada e com a proibição do acesso à piscina e até a certos alimentos, como até um prosaico sorvete.

A mãe se desespera com as ousadias da filha, o que também evidencia o fato de que as duas mal se conhecem, porque pouco conviveram. E a história flui bem melhor pelo fato de que a diretora-roteirista recusa sempre colocar ênfase excessiva tanto nos aspectos sócio-políticos como melodramáticos da história.

O grande acerto do filme é equilibrar muito bem como o público e o privado se entrelaçam irrecorrivelmente e não negar o espaço para o humor, área em que a espontaneidade de Regina Casé nunca nega fogo.

Atriz experiente, Regina compõe uma Val de carne e osso, encharcada de uma verdade humana autêntica, tanto na cumplicidade com o filho postiço que criou, Fabinho, como na humildade duramente aprendida em relação a “saber o seu lugar” – esse aprendizado do servilismo que traz uma herança da escravidão colonial – e também numa intuição certeira para atravessar barreiras.

Não há como não torcer por essa mulher.

De várias maneiras, o filme dialoga com o recente “Casa Grande“, de Fellipe Barbosa, com a diferença, aqui, de que a protagonista é a empregada doméstica, o que aprofunda a discussão sobre as fronteiras da discriminação e da invisibilidade social. Mas, no fundo, os dois filmes falam das mesmas coisas, das relações de classe do Brasil contemporâneo, das desigualdades desafiadas, das expectativas que buscam transformações, tudo isso sem sociologia, mas com ótima dramaturgia.”

Fernando Nogueira da Costa: na semana passada, assisti o filme também brasileiro “O Último Drive-In“. Passa-se em Brasília, apresentando a relação da pequena-burguesia decadente com seus subordinados – o dono do drive-in que comanda, diretamente, o trabalho de dois empregados. O “pequeno-burguês” busca apoio do velho amigo “burguês”, mas tem de corromper para conseguir seu objetivo de agradar a ex-mulher antes de sua morte. Focaliza também a relação familiar filho carente-pai ausente. Neste filme, o filho é um operário. O filme tem bela fotografia, mas à trama e ao roteiro faltam o ritmo de envolvimento e a catarse propiciados por “Que Horas Ela Volta?”.

Anna MuylaertEm seguida, a entrevista com a diretora, realizada por Adriana Abujamra (Valor, 17/04/2015):

O Tre Bicchieri, no bairro paulistano do Itaim Bibi, já está praticamente lotado quando Anna Muylaert chega, apressada, pedindo desculpas pelo atraso. Aos 50 anos, usa o cabelo comprido, crespo e solto. Bem diferente do estilo que adotava aos 21 – curto, loiro, envolto em uma faixa. Foi assim que a então recém-formada cineasta apareceu, nos anos 80, no programa “Ela“, da Rede Bandeirantes, para divulgar três curtas de sua autoria. Lá pelas tantas, anunciou: “Faço parte do novíssimo cinema paulista […]. Trago uma experiência de tentativa de revolucionar o cinema”.

“Ah, você achou essa entrevista? Tenho vergonha”, diz Anna, encabulada. “Eu tinha uma determinação, que é boa e que me trouxe até aqui, mas a arrogância eu deixei para trás”, avalia, já instalada à nossa mesa, que fica bem próxima à entrada do restaurante e colada a uma janela ampla, com vista para a varanda. Anna é roteirista e diretora de quatro longas, entre eles o ainda inédito por aqui “Que Horas Ela Volta?”. O filme tem recebido prêmios e críticas elogiosas por onde passa, como nos festivais de Berlim e Sundance – onde Regina Casé dividiu com Camila Márdila o troféu de melhor atriz -, além de ter sido vendido para os EUA e vários países da Europa.

Depois de se servir de um pedaço de pão, que come puro mesmo, Anna lembra que saiu da Escola de Comunicações e Artes da USP, a ECA, sedenta para fazer cinema, e logo veio o governo Collor (1990-1992), que pôs fim à Embrafilme (1969-1990). Não fosse o arrojo, provavelmente teria entregado os pontos ali mesmo. “Isso é uma sina, meu. Alguém que sobreviveu fazendo cinema naquela época, naquele momento, é alguém louco.”

Ainda mais para Anna, que saiu cedo da casa dos pais, aos 19 anos, e já tinha que se virar sozinha. Para pagar as contas chegou a vender muitos LPs de sua coleção e algumas joias. “Não tinha cobertor, quase não comia. Parece brincadeira, né? Mas era radical. Meu pai queria que eu fosse empresária, que tivesse uma produtora de vídeo. Mas eu queria fazer filme, topava até passar fome, aquilo era uma determinação. Eu era um vulcão, tinha um jeito próprio. Meu pai não aceitava.” Ela diz que o pai, o jornalista e empresário Roberto Muylaert, não lhe dava dinheiro. Voltava de viagem carregado de presentes para suas duas irmãs e para ela, nada.

A jovem era o oposto do perfil comportado esperado pela família – fã de rock, namorava o músico Tony Bellotto, do Titãs, usava calça de couro e camisa rasgada. A distância entre a filha desejada e a filha real era motivo para faíscas constantes. Hoje, diz, a relação está melhor. Há poucos dias tiveram uma conversa franca, para “lavar a roupa suja de tudo isso”.

Anna mora com os dois filhos – José, de 20 anos, e Joaquim, de 15 – em uma casa no Alto da Lapa. Ela ganhou a residência dos pais e recorre a eles quando o saldo bancário entra no vermelho, fato que tem ocorrido com frequência ultimamente. “Ganhei prêmios e louros, mas e grana? Um paradoxo. Estou no auge da carreira e na pior situação financeira da minha vida. Um caos. Chega a me dar tremedeira”, revela.

Enquanto estica a mão para pegar mais um pãozinho da cesta, ela conta que logo após sair da ECA ficou quatro anos em um “limbo”. Estava cheia de vontade de criar, mas as coisas não aconteciam. “Eu me sentia um nada.” Até entrar para a televisão. Primeiro na TV Gazeta, depois na Rede Cultura, para onde foi a convite de Serginho Groisman. À época, Robert Muylaert era o presidente da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da emissora. “Nunca tive um contato direto com meu pai ali, mas encontrei uma televisão muito bem organizada por ele. Era um momento de ouro, onde tudo fluía”, afirma. Foi na Rede Cultura que a cineasta se descobriu roteirista, quando teve na sua mão programas infantojuvenis como “Mundo da Lua” (1991-1992) e “Castelo Rá-Tim-Bum” (1994-1997).

Até então achava roteiro uma coisa “careta” e era praticamente analfabeta no assunto. Até que foi trabalhar como diretora de segunda unidade (“um diretorzinho menor”) no programa “Mundo da Lua”. Os primeiros episódios não estavam bons, diz Anna. Por sua “própria inquietude”, foi participar das discussões de roteiro. Chegou a passar noites em claro em busca de uma solução. “Entrei quase em um surto até encontrar uma saída.” O resultado não poderia ter sido melhor. O programa foi um sucesso e Anna foi alçada a coordenadora de criação.

Até hoje, quando está em fase de criação, a diretora fica “possuída”. Nesses momentos, não quer ver ninguém, não dorme, pesquisa o tempo inteiro, anda pela casa, arruma armário e se debate. “Já cheguei a puxar o cabelo.”

Os pães da cesta estão quase no fim, sinal de que é hora de fazer os pedidos. Nem bem abre o cardápio, Anna já sabe o que quer: salada com queijo de cabra de entrada e atum fresco com crosta de pistache de prato principal. “Uma tacinha de vinho?”, sugere o garçom. “Eu topo”, avisa Anna.

Quando o garçom se afasta, ela conta que foi metendo a mão na massa para aprender as leis da dramaturgia. “Como diz o [escritor britânico John] Le Carré: um gato deitou no tapete. Isso não é nada. Mas, se você disser o gato deitou no tapete do cachorro, aí sim você tem uma história.”

Além de Le Carré, Anna procurou norte para a escrita lendo o “guru” americano do roteiro cinematográfico Syd Field (1935-2013) e o livro “A Psicanálise dos Contos de Fadas”, do psicólogo austro-americano Bruno Bettelheim (1903-1990). Deste último, diz, aprendeu que a função das histórias para as crianças vai muito além da mera diversão. “É dizer também: ‘Ó, você é fraco, todo mundo manda em você, mas você vai aguentar. Você tem valor, vai suportar e vai vencer.”

Anna e o diretor do “Castelo Rá-Tim-Bum”, Cao Hamburger, criaram, em 1997, o quadro “TV CRUJ” (Comitê Revolucionário Ultra Jovem), exibido dentro do programa infantil “Disney Club” (parceria do SBT com o estúdio americano). As crianças encaminhavam para a emissora fictícia calhamaços de cartas contando sobre as dificuldades que enfrentavam em casa. Até hoje Anna lembra da carta de uma menina que dizia: “Por favor, me ajudem, meu tio me belisca”.

A cineasta diz que sempre respeitou a maneira de pensar das crianças e nunca quis impor nada, a mesma postura que adotou no trabalho dedicado ao público jovem e também em casa, com os filhos. “Acho que é porque passei maus bocados como filha. Meus pais me queriam ao modo deles, e se não era aquilo, não servia.”

O celular de Anna toca. Do outro lado da linha, o filho José, fruto de sua união com o músico André Abujamra, das bandas Os Mulheres Negras e Karnak. Assim que desliga o telefone, diz que José quer ser músico, aliás, “músico não, quer ser ‘bluesman’, do Mississippi e com boné”. Já Joaquim, o caçula, fruto de um namoro com o pintor Marcio Antonon, nem cogita seguir carreira artística.

Chega o garçom com a bebida. Anna prova o vinho. Assim que coloca a taça sobre a mesa, conta que participou de alguns laboratórios para roteiristas do Instituto Sundance – que organiza o festival em Park City, Utah, nos EUA –, onde passava por cinco consultores, cada um de uma nacionalidade e cada um focando um aspecto específico do roteiro. “Os caras escarafunchavam o texto. O ‘game’ desses laboratórios é falar tudo, não poupar ninguém. Você sai de lá fervilhando, apto a dar um ganho absurdo no roteiro.”

De todos seus filmes, diz, foi o último que dedicou mais tempo: 20 anos maturando a ideia. O filme conta a história de Val (Regina Casé), que deixa a filha no Nordeste para virar babá em São Paulo. O reencontro ocorre quando a menina vai para a cidade prestar vestibular, questiona o status quo e causa distúrbios na casa da família onde a mãe trabalha.

A ideia surgiu quando Anna teve seu primeiro filho. Até então, vivia focada na vida profissional. “Descobri que ser mãe era um trabalho sagrado, o maior que eu poderia ter. Fiquei um ano em casa.” Ao seu redor via as amigas delegarem a tarefa a babás. “É uma preguiça. Deixar seu filho para alguém, que ganha pouco, fazer o trabalho é deixá-lo um inútil. O cara chega aos 18 e não vai saber nem apagar a luz sozinho. Essa prática é um dos grandes problemas do Brasil, porque a elite é muito frágil. É muito playboy. É muito otária. É muito preguiçosa!”, diz Anna, indignada, batendo a mão sobre a mesa a cada frase que pronuncia. “Tive empregada a vida toda, dando força, mas nunca aquela de branco destinada exclusivamente à criança.”

Todo esse discurso Anna colocou em prática, para valer mesmo, quando se mudou com os dois filhos para Paraty (RJ). José tinha 8 anos, e Joaquim, 3. Durante um ano levava os meninos de bicicleta à escola e trabalhava no roteiro de “Durval Discos”. “Fui lá padecer, eles gozam de mim até hoje. Não sabia cozinhar, queimei três panelas de arroz. Mas, cara, você coloca os moleques para fazer, eles vão lá e ajudam. E sem reclamar.”

O garçom leva os pratos já vazios da salada e Anna traz “Que Horas Ela Volta?” de volta à baila. Na penúltima versão do roteiro, conta, a filha da empregada terminava como a mãe, cuidando de uma criança alheia. Até que um americano, com quem trabalhou nos laboratórios, comentou que Anna era uma pessoa de classe média bem-intencionada, mas que, se ela fosse a filha da empregada, certamente o desfecho seria outro. Ficou ruminando aquilo durante anos, até que um dia, apenas seis meses antes do início das filmagens, veio o pulo do gato.

“Levei anos para entender que aquela menina não é uma coitada. É pobre, mas inteira. Teve educação e quer fazer arquitetura na USP. Chega quebrando regras de comportamento invisíveis que separam as castas”, afirma a diretora. Anna diz que Regina Casé está “um espetáculo” na pele de Val. Uma das peculiaridades de sua direção é apenas apresentar o norte da cena para que os atores improvisem em cima. “Só escolho ator criador. Ator intérprete não me interessa. O que escrevi não me interessa, quero que o ator avance.”

Arrumando um punhado de comida no garfo, a diretora diz que considera “Que Horas Ela Volta?” seu melhor filme. “Dei todo o meu sangue por ele. Já assisti cem vezes, e me emociono toda vez.” Tira os olhos do prato, olha para cima e diz, séria. “Estou em um momento muito louco. Extrema alegria por ter conseguido uma consagração internacional, e uma tristeza imensa por estar com a conta no vermelho.”

Após ser rodado o filme ficou um tempo parado na ilha de edição por falta de verba. Os organizadores do Sundance viram um trailer do longa, se encantaram e insistiram para que fizesse parte da competição. Fabiano e Caio Gullane, irmãos e sócios da produtora Gullane, conseguiram recursos para que o filme fosse finalizado a tempo de concorrer. “Que Horas Ela Volta?” não só ficou pronto como foi ovacionado. Seria uma história de final feliz, não fossem as dívidas que o projeto ainda tem. “Ele é um buraco, um abacaxi. Faz um ano que não ganho salário.”

Como paga as contas? Com o dinheiro emprestado do pai e a verba recebida do Ministério da Cultura para a realização do longa “Mãe Só Há Uma”, que está em fase de edição. É um filme de baixo orçamento – custa R$ 1,2 milhão, que ela obteve via edital de projetos para longa-metragem desse porte. O “Que Horas Ela Volta?“, que teve custo bem maior, conseguiu recursos de fontes municipais e estaduais, mas não foi beneficiado com nenhum dos editais federais, justamente os que tornam disponíveis os maiores valores.

Conseguir essas verbas, diz, é tão difícil que Sara Silveira, produtora de “Mãe Só Há Uma”, desconsidera essa alternativa. A Gullane, produtora do “Que Horas Ela Volta?”, arrisca, mas o resultado costuma ser pífio. Os cineastas beneficiados, lamenta, costumam ser os cariocas. “Está saindo matéria falando do filme na Europa e nos Estados Unidos, foi vendido para um monte de países, ganhou prêmios, em Berlim os caras deram festa em nome do filme, mas eu não tenho dinheiro. Eu não tenho nem plano de saúde”, desabafa, antes de dar uma garfada no peixe, que desce fácil. Indigesto mesmo é o assunto.

“Você faz uma coisa e não continua. É estanque. Você sempre começa do zero, mesmo depois de anos de trabalho. Meu currículo não é considerado nos grandes editais? Sabe, estou cansada de viver só da minha determinação.” Seus professores da ECA, lá atrás, bem que alertaram, desde o primeiro dia de aula, sobre as dificuldades da profissão. Eles diziam, para que a turma ficasse bem ciente, que terminariam os dias como caixa de supermercado. “Eu, novinha, cheia de ambição, como você viu naquela entrevista de TV, não acreditava. Mas hoje digo: os caras tinham razão.”

O garçom leva os pratos e oferece o cardápio de sobremesas. Anna sugere que a gente peça mais uma taça de vinho e divida um zuccotto, que vem a ser um pão de ló recheado com zabaione, pistache e pedaços de chocolate.

Outra questão, diz, com o restaurante já praticamente vazio e bem mais silencioso, são os distribuidores dos filmes. “Eles roubam a gente descaradamente. Vão mentindo, vão enrolando. Dizem ‘Ah, não sobrou dinheiro, gastamos com publicidade para o seu filme’. Ah é?, digo, mas não vi publicidade em lugar nenhum. Manda um anúncio, manda um clipping. Nada. Os caras são bandidos. Ban-di-dos”, repete, escandindo as sílabas.

“Hum, bom, não?”, diz Anna, com a colher no doce. Ela salienta que não quer ficar sentada se lamuriando, não é do seu feitio. Ultimamente tem conversado com Manoel Rangel, cineasta e diretor-presidente da Agência Nacional de Cinema (Ancine), em busca de propostas e soluções. Se tudo continuar como está, Anna diz que é capaz de “largar tudo.”

“Que Horas Ela Volta?” foi adquirido por vários países, “que somaram uma fortuna de dólares”, e ganhou mais um edital, dinheiro que deve entrar até o mês que vem. Pode ser que sua situação financeira melhore em breve.

“O filme está aí. Se eu morrer hoje, o trabalho fica. Conta negativa alguém vai lá e paga. Não estou passando fome”, diz, enquanto raspa, com gosto, o restinho do doce no prato.

Saímos do restaurante e seguimos, de táxi, para a produtora onde a cineasta edita “Mãe Só Há Uma”. No trajeto, Anna dá mais detalhes do filme. Inspirado em um caso real, conta a história de um menino roubado na maternidade que cresce com a família trocada. Aos 16 anos, o protagonista descobre a farsa. “Discuto identidade. Para esquentar, coloquei outra questão. O menino é transgênero, assunto muito presente hoje em dia. As coisas estão muito fluidas na nova geração. As meninas de 18 ficam com mulher e com homem, é normal, todo mundo se beija. Tem cara que coloca calcinha e vestido em casa e namora mulher.” Alheia aos olhares do motorista, que observa a conversa, Anna diz que o ator escolhido para protagonizar o longa tem um irmão transgênero, fato que só foi revelado pela mãe do ator já no meio das filmagens.

Chegamos à Dezenove Som e Imagem, uma casa simples em uma rua pacata de Pinheiros. Entramos correndo para fugir da chuva, que cai forte no fim de tarde desta sexta-feira. Anna acena para Sara Silveira, uma das sócias fundadoras da produtora, e subimos uma escada no fundo da casa. Na pequena sala, Hélio Vilela Nunes, que trabalha com Anna na montagem do filme, já está a postos. O trabalho do dia é finalizar um cromo, uma espécie de trailer.

Começa. Uma festa. Música. Um casal (o protagonista e uma jovem) aparece dançando e se beijando, até fecharem-se em um dos recintos do lugar, em momentos cada vez mais quentes. A câmera se aproxima dos dois e é possível notar que o rapaz usa cinta-liga. A cena continua, os dois se beijam. “Hélio, vamos colocar uns gemidos aí.” Sobe o som. Cai a chuva. Cai o pano.

3 thoughts on “Que horas ela volta? – Excelente roteiro, diálogos, intérpretes, fotografia, etc. Tudo de bom! Filme imperdível!

  1. Oi, F., vi uma entrevista da Regina ´Casé e fiquei interessada, até porque gosto do trabalho da Ana Muylaert e o tema me interessa muito. A entrevista é muito boa, afora essa chorumela do pessoal da área da Cultura. Quer financiamento, mas não quer que o governo dê prioridades… Difícil mesmo é o trabalho de doméstica, dos trabalhadores sem qualificação brasileiros … Noutro dia, no Profisssão Repórter, disparado o melhor programa da TV brasileira, passou um episódio sobre domésticas. Vale a pena procurar para rever…. Creio que isto reflete bem o conservadorismo de nossa sociedade… Bjs, Glorinha Moraes.

    1. Veja entrevista da Regina Casé: http://globotv.globo.com/rede-bahia/bahia-meio-dia-salvador/v/regina-case-fala-sobre-filme-que-horas-ela-volta-que-estereia-nesta-quinta-feira-27/4424150/

      Outra: http://globotv.globo.com/gnt/saia-justa/v/entrevista-com-ana-muylaert-diretora-do-filme-que-horas-ela-volta/4421688/

      Mais uma: http://globotv.globo.com/tv-vanguarda-sp/madrugada-vanguarda/v/estreia-de-filme-que-horas-ela-volta/4427996/

      Ainda bem que a Regina Casé é global!

      PS: dica para apreciação de uma bela cena por parte de quem não conhece São Paulo: quando ela, no final, passa na Marginal Pinheiros, ao lado de um muro, e dá um sorriso, aquele muro é o da raia da USP, que “protege” (sic) o campus do resto da cidade. A filha superou aquela barreira!

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