Educação e o Rendimento dos Ricos no Brasil

Categorias EducacionaisMarcelo Medeiros e Juliana Castro Galvão publicaram o Texto para Discussão 2080 do IPEA, Educação e o Rendimento dos Ricos no Brasil, onde avaliam em que medida a educação pode ser considerada um dos principais determinantes da riqueza no Brasil. O foco deste estudo é nos trabalhadores que compõem o 1% mais rico da distribuição da renda do trabalho. Para isso, foram utilizados os dados de formação universitária específica da amostra do Censo Demográfico de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A principal conclusão é a de que a educação pode ser importante para explicar a desigualdade total, mas não há evidências de que a educação de massa seja um dos fatores mais relevantes para esclarecer as diferenças entre os ricos e o restante da população brasileira. Nem mesmo a educação de elite pode ser tomada como um dos principais determinantes dos níveis atuais de riqueza. Há, portanto, uma parte importante da desigualdade total que não será reduzida por políticas educacionais.

Focam tanto na educação universitária em geral quanto nos cursos de elite, os quais são definidos como aqueles em que as chances de encontrar alguém acima da linha de riqueza são muito superiores às de outros cursos. Isso ocorre, por exemplo, com os cursos de Medicina e Engenharia. O interesse é na associação entre educação e riqueza, tanto no nível individual quanto no agregado, ou seja, deseja-se examinar como a educação aumenta as chances de um indivíduo pertencer ao 1% mais rico da distribuição dos rendimentos do trabalho e como os efeitos da educação universitária em geral e de elite afetam os níveis totais de riqueza na população.

Os ricos são um grupo-chave no estudo da estratificação social. As razões para estudá-los são quase autoevidentes. Eles se apropriam de uma fração desproporcional da renda e do patrimônio de uma sociedade.

O trabalhador brasileiro típico tem níveis educacionais baixos. Mais da metade da força de trabalho adulta sequer possui educação secundária completa. Apenas um sexto tem diploma universitário, incluindo pessoas com mestrado e doutorado, com as duas últimas categorias somando apenas 1% da força de trabalho, como mostra a tabela 1. É provável que diferenças na qualidade da educação amplifiquem a desigualdade nas quantidades de educação.

Essa composição é completamente invertida entre o 1% mais rico dos trabalhadores, com 76,8% possuindo um diploma universitário, dos quais 9,3% e 5,1% possuem, respectivamente, Mestrados e Doutorados. Diante da forte correlação entre educação e rendimentos no Brasil, este é um resultado esperado. É também possível encontrar 14,1% dos trabalhadores com Educação Secundária completa entre o 1% mais rico, dos quais alguns estão cursando universidade e obterão um diploma em poucos anos.

Possuir elevados níveis de escolaridade é uma característica compartilhada dentro do 1% mais rico. A questão relevante, porém, é em que medida um diploma universitário é suficiente para fazer com que alguém esteja no 1% mais rico.

Para examinar isso, o nível universitário será dividido em categorias e serão examinadas as chances relativas de pertencer ao topo da distribuição (estar acima da linha de riqueza) dos trabalhadores em cada categoria ocupacional.

Quatro categorias de cursos de graduação dominam o 1% mais rico, representando mais de dois terços da classe:

i)         Administração, Negócios e Economia;

ii)        Direito;

iii)       Engenharia, Ciências da Computação, Produção, Construção e Arquitetura; e

iv)       Medicina.

Se forem adicionados os dois níveis de pós-graduação – Mestrado e Doutorado –, as seis categorias agregam 86% da classe dos ricos. Evidentemente, essa composição poderia estar simplesmente refletindo a organização geral da força de trabalho. No entanto, não é o caso. A fração da força de trabalho total com um diploma universitário nas primeiras quatro categorias, 7,0%, é, na verdade, menor que a fração em todas as demais categorias, 7,3%.

Possuir um diploma universitário geral de modo algum parece ser suficiente para colocar alguém acima da linha de riqueza. Ao que tudo indica, por trás dos rendimentos mais elevados há algum tipo de “Educação de Elite”.

As probabilidades de que um trabalhador tem de pertencer ao 1% mais rico crescem substantivamente com a Educação Universitária. Um trabalhador com Educação Primária completa tem pouco mais que o dobro das chances de estar no 1% mais rico que um trabalhador com Educação Primária incompleta. Esta razão sobe para mais de quatro vezes e meia para trabalhadores com Educação Secundária completa e quase quarenta vezes mais para aqueles com diploma universitário (sem diferenciar cursos).

Quando se desagrega o ensino de graduação em categorias de cursos, observa-se uma desigualdade expressiva nas chances de estar no 1% mais rico em função do tipo de curso concluído. Os trabalhadores com diplomas na categoria formação de Professores e Ciências da Educação têm chances quase tão baixas quanto àqueles com apenas o Ensino Secundário.

Os que possuem diplomas em Humanidades, Psicologia, Ciências Sociais, Serviço Social e Artes – muitos dos quais, na prática, receberam uma educação predominantemente orientada à formação de professores – têm mais chances, mas encontram-se ainda entre as categorias educacionais inferiores.

A possibilidade de estar no 1% mais rico torna-se expressivamente maior para aqueles com treinamento em Engenharia e atividades correlatas (quase 54 vezes mais chance que um trabalhador sem educação primária completa), Direito (74 vezes mais chance) e Medicina (297 vezes). Em termos relativos, trabalhadores nessas três categorias têm, respectivamente, 9, 13 e 51 vezes mais chance de pertencer ao 1% mais rico que aqueles com diplomas relacionados à formação de Professores e Ciências da Educação!

A Educação pode ser importante para explicar a desigualdade total, mas não há evidências de que a Educação de Massa seja um dos fatores mais relevantes para esclarecer as diferenças entre os ricos e o restante da população no Brasil.

Obviamente, esta é uma questão de interpretação, mas acredita-se que a maneira apropriada de contemplar os resultados obtidos é concluir que nem mesmo a Educação de Elite pode ser tomada como um dos determinantes principais dos níveis atuais de riqueza.

Esta Educação de Elite, seguramente, diferencia alguns trabalhadores dos demais e, provavelmente, é um determinante importante da riqueza de alguns trabalhadores pertencentes ao 1% mais rico, mas uma grande parte destes seria rica mesmo sem a contribuição líquida estimada da Educação para seus rendimentos. Portanto, não se deve assumir que os ricos são ricos, predominantemente, porque são mais educados.

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