Dissonância Cognitiva entre Especialistas e Neófitos

O-lobo-em-pele-de-cordeiroAquiles Mosca é estrategista de investimentos pessoais e superintendente-executivo comercial do Santander Asset Management. É autor dos livros “Investimento sob medida” e “Finanças Comportamentais“. Preside o Comitê de Educação de Investidores da Anbima. Em artigo (Valor, 12/08/15) lança uma interessante questão: “no mundo dos investimentos, e particularmente na atual conjuntura brasileira, quantos investidores estão com dificuldade de se desfazer de papéis que registraram baixas consideráveis nos últimos meses, mesmo com as más notícias sobre as perspectivas para tais empresas e setores?”

Esse comportamento está relacionado ao que a Psicologia denomina de dissonância cognitiva, identificada por Leon Festinger (1956). Segundo esse conceito, somos tomados por um estado de tensão psicológica quando somos alvo de percepções incompatíveis. Essa tensão interior será tão mais forte quanto maior for a incompatibilidade dessas percepções com a imagem que a pessoa tem dela mesma, ameaçando sua autoestima.

Sob tais condições, a reação instintiva da maioria é tentar eliminar, ou ao menos reduzir, o desconforto. Isso pode ser feito de duas formas:

1) reduzir as percepções incoerentes, as ignorando, minimizando, desqualificando ou modificando, e

2) aumentar as percepções que tragam coerência, dando mais peso às informações que confirmem a imagem que cultivamos de nós mesmos e de nossas ações.

No cenário atual de investimentos no Brasil, Mosca levanta a hipótese de que “podemos estar diante de uma dissonância cognitiva quando confrontamos posições nos mercados de risco locais com aquelas que poderiam ser mantidas em ativos no exterior. Para usar como exemplo o ativo de risco por excelência, a bolsa de valores, vivemos uma realidade de um mercado de renda variável que tem revezado movimentos para baixo ou “de lado” ao longo dos últimos quatro anos e meio. Nesse período, resgates líquidos vêm ocorrendo nessa modalidade de investimento e, via de regra, são direcionados para aplicações cujos retornos são mais previsíveis, notadamente na renda fixa.”

Indaga e responde: “Será que não existe, na mesma categoria de aplicação, isto é, na renda variável, em algum lugar do mundo, alternativas melhores de investimentos para a parcela de recursos que se destinava ao risco? Olhando friamente os números, a resposta é um contundente sim. Basta olhar os retornos registrados por mercados acionários estrangeiros no mesmo período, como S&P 500, Eurostoxx, Dax, para mencionar apenas alguns. Isso sem falar nos ganhos oriundos do câmbio, em virtude da desvalorização que o real sofreu ante as moedas nas quais tais bolsas são cotadas.”

Diz: “É curioso ver como a ficha da globalização já caiu na cabeça do brasileiro enquanto consumidor, mas nem se mexeu como investidor. Basta pensar por alguns segundos para verificar que já somos consumidores globais. (…) Contudo, se pararmos para aplicar o mesmo raciocínio à poupança e aos investimentos do aplicador local, não veremos nem de perto a mesma ‘globalização'”.

Reconhece que, “na renda fixa, isso é totalmente justificável. Dado o alto patamar dos juros reais, não há nada mais atraente no sistema solar. Já na renda variável, o cenário é diferente. Supondo que ainda haja brasileiros com perfil moderado ou agressivo, uma parte dos recursos que deixa a bolsa local deveria ter como destino ativos de renda variável no exterior, e isso teria gerado ganhos extraordinários para as carteiras (inclusive superiores à renda fixa local) nos últimos anos”.

“Aqui há uma forte dissonância e, dada a atual conjuntura, a estratégia do fumante de ignorar os potenciais malefícios de sua manutenção já tem custos não desprezíveis para o investidor local. Alternativas para sair dessa armadilha não faltam e, com a nova instrução no 555 da CVM, seu acesso será ainda maior. Um caso exemplar em que a regulação se moderniza antes dos hábitos dos investidores.”

FNC: Eu diria que há uma dissonância cognitiva entre os especialistas e os amadores. Recomendo a esses não se aventurarem em mercado de capitais, cuja renda variável é instável e/ou volátil, o que significa risco em Finanças Pessoais. Os especialistas acompanham online em tempo real essa volatilidade e sabem se defender melhor.

Mesmo assim, os profissionais assessores financeiros estão livres dos fenômenos comportamentais e conseguem aconselhar seus clientes de forma perfeitamente racional,  sem se deixar levar pelas emoções de seus clientes ou  sem cair em suas próprias armadilhas?

A resposta é não,  afinal, são eles, os assessores financeiros,  mais treinados e habituados às práticas do mercado, mas sua psicologia humana continua presente  em seu comportamento e, portanto, apresentam racionalidade limitada.

Um dos debates da “fronteira teórica” das Finanças Comportamentais é se há diferença entre  as heurísticas dos:

1.investidores individuais, amadores  e/ou pessoais  de “investimentos pequenos (pessoais)”

2.investidores institucionais, profissionais  e/ou terceirizados  de “investimentos grandes (corporativos)”.

Os autores acabam distinguindo entre:

  1. os seguidores das ideias capitais das Finanças Racionais, que mesmo assim incorrem em vieses de auto-atribuição (sucesso se deve a eles e fracasso aos clientes) e de auto-validação (só consideram “genial” quem pensa igual a eles — e com isso fazem uma validação ilusória de suas opiniões) e
  2. os que cometem os erros apontados pelas heurísticas pesquisadas pelas Finanças Comportamentais.

Aqueles se aproveitam dos comportamentos “irracionais” destes… Os insiders elevam os preços mais e mais, e vendem, no auge, aos outsiders, que compram nessa fase e vendem na baixa, quando os insiders estão retornando ao mercado. Insiders profissionais desestabilizam, exagerando as altas e as quedas, enquanto os outsiders amadores, que compram por preço alto e vendem por outro mais baixo, são vítimas da euforia, que os irá afetar mais tarde.

Os participantes da cotação por um ativo podem pertencer a classes distintas, com distintos interesses, experiências e propósitos: há diferentes graus de especialização diante de cada situação. Há capacitação em termos de cinco estágios:

1.Principiante, neófito ou amador;
2.Principiante avançado;
3.Competente;
4.Proficiente;
5.Especialista.

Portanto, se você se enquadra como principiante, neófito ou amador, não se meta à besta, arriscando o dinheirinho que tanto lhe custa ganhar em aventuras globais!

Lobo em Pele de Ovelha

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