Concentração Econômica no Futebol

Concentração no Flamengo e Corinthians

Na minha última visita à Santa Catarina, terra amável, perguntei aos catarinenses como seu Estado tinha conseguido colocar quatro times — Chapecoense, Joinville, Figuerense, Avaí — na série A do Campeonato Brasileiro, sendo que um quinto — o Criciúma –, que eles consideram o mais rico deles, pois é patrocinado por uma corporação local, caiu para a série B no ano passado. Será que foi devido à melhor distribuição de riquezas no Estado, originalmente, por causa dos imigrantes alemães que possuíam minifúndios? Será resultado do futebol alemão do 7 X 1?!

Será que esses times catarinenses, devido à concentração de riqueza nos grandes times de São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre, cairão todos para a série B em 2016? E o Goiás e o Sport?

Temos que incorporar os estudos de concentração de riqueza à análise do futebol, para verificar que a “livre-competição” não existe também no esporte profissional. As linhas-de-partida são desiguais e há tendência de “espanholarização” (Real Madrid e Barcelona como únicos reais candidatos a campeões) no futebol brasileiro (“flatimão“), que prima-se pela rotatividade de títulos entre os times do “Clube dos Treze”: 4 do RJ, 4 de SP, 2 de MG, 2 de POA, 1 de Salvador. Dois times do Rio (Botafogo e Vasco) estão já perdendo o mercado para os dois de Curitiba…

No entanto, a estrutura mental dos economistas de O Mercado que analisam as Finanças do Futebol não é a mesma dos que analisam as Finanças Públicas? Sim, se a comparação for com uma equipe de especialistas em balanços do Itaú BBA, braço de atacado e investimentos do maior grupo financeiro do país. Segundo João José Oliveira (Valor, 24/08/15), essa equipe avalia que a elite do futebol brasileiro, participante da Série A do Campeonato nacional, terá que ser mais conservadora e jogar na defensiva para evitar, em 2016, um agravamento da crise financeira que se aprofundou em 2014. Na opinião conservadora, os gestores terão que:

  1. ser mais cautelosos na contratação de jogadores,
  2. cortar gastos e
  3. elevar receitas para equilibrar as finanças.

A gestão dos clubes brasileiros piorou muito. A maioria dos times precisa se adequar à realidade, traçar metas factíveis com seus tamanhos”, diz o gerente de crédito para grandes empresas do Itau BBA, Cesar Grafietti. Não analisa a dependência de trajetória com sua retroalimentação: derrotas esvaziam as finanças dos clubes! Assim como recessão (queda do PIB) diminui a arrecadação fiscal…

Entre 2013 e 2014, a receita bruta total dos 23 maiores clubes do país caiu 3%, a R$ 3,1 bilhões. E os custos cresceram 4%, para R$ 2,7 bilhões. Para piorar, as dívidas totais ficaram 22,8% maiores, superando R$ 4,5 bilhões. “Quase todos os clubes do país trabalham com fluxo mensal de caixa negativo, apelando a empréstimos bancários, adiantamentos de receita da TV e venda de atletas para fechar as contas“, afirma outro gerente de crédito de grandes empresas do Itaú BBA, Pasquale Di Caterina.

O estudo do banco sinaliza que mesmo os times que fecham o ano com superávit operacional estão trabalhando com fluxo de caixa mensal negativo. “Em geral os clubes gastam antes para correr atrás do recurso depois“, afirma Di Caterina. “Por isso, mesmo com a redução dos investimentos, os clubes não ajustaram o fluxo de caixa“, diz Grafietti.

No caso do Corinthians, o banco aponta que o déficit mensal é da ordem de R$ 5 milhões. Ao incluir pagamento de impostos renegociados e investimentos em contratação de atletas, o saldo negativo sobe a R$ 11 milhões mensais. Isso explica porque mesmo quando a receita supera custos operacionais, os times do futebol brasileiro somam uma perda agregada de R$ 150 milhões em termos de lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebtida).

Esse prejuízo operacional foi inferior aos R$ 202 milhões de perdas em 2013, mas apenas porque o time de maior torcida, o Flamengo, realizou um forte ajuste de balanço. O Ebtida do rubro-negro carioca subiu 37% entre 2013 e 2014, atingindo R$ 117 milhões. “A gestão financeira do Flamengo está sendo impecável, recolocando o clube nos trilhos da organização, mas agora é hora de buscar conquistas esportivas”, aponta Grafietti sobre a demanda por títulos da torcida.

Na ponta oposta, alguns clubes tiveram forte deterioração do desempenho operacional. O Atlético-MG, por exemplo, teve Ebtida negativo de R$ 41 milhões em 2014, ante um saldo que havia sido positivo em R$ 44 milhões um ano antes.

O banco aponta que muitas dívidas tributárias foram reconhecidas pelos clubes em 2014 por causa do programa de refinanciamento que o governo federal desenhou por meio do ProFut – que vai dar a quem aderir uma redução de 70% no valor das multas, além de cortar em 40% os juros e zerar os encargos desses débitos atrasados. “A Lei de Responsabilidade de Futebol naturalmente forçará os clubes a adotarem práticas mais restritivas de gastos e isto, no longo prazo, pode significar recuperação na condição econômico-financeira dos clubes. Mas depende da execução das punições”, diz Grafietti.

Prova de que a gestão dos clubes precisa ser aperfeiçoada é o endividamento bancário do futebol brasileiro, que também seguiu subindo, para R$ 456 milhões. “É possível inferir que a dívida bancária suportou investimentos de 2013 e 2014”, aponta o terceiro integrante da equipe de gerentes de crédito do Itau BBA, João Cruz Junior.

Em 2014, o volume de investimentos feitos pela elite do futebol brasileiro sofreu redução pela primeira vez em cinco anos, caindo 23,5%, a R$ 621 milhões.

O desafio do futebol brasileiro, diz o Itau BBA é ajustar as finanças para tornar a operação sustentável sem frustrar os torcedores. O Atlético-MG pagou o preço para ser campeão da Libertadores e da Copa do Brasil, nas últimos duas temporadas. “O caminho não parece ser o de contratar atletas caros, mas um planejamento que inclua comissão técnica de qualidade que saiba implementar uma política que possa mesclar atletas de custo e qualidade maiores com jogadores da base“, diz Cruz Junior.

Os gerentes de crédito do Itaú BBA também enxergam espaço para os clubes brasileiros ampliarem as receitas. No segmento de TV, a renegociação de contratos que começam a vencer em 2018 terão que ampliar as fatias de ganhos com a venda de “pay-per-view”, que vem ganhando assinantes enquanto a TV aberta perde audiência.

O Itaú BBA diz que é necessário também melhorar o faturamento com os atletas de base, uma vez que hoje os maiores clubes não são donos de seus próprios jogadores – cujos direitos comerciais pertencem a terceiros, ou investidores ou empresas.

Há espaço ainda para um salto nas receitas de bilheteria, com a ampliação dos programas de sócio torcedor e a melhor exploração das novas arenas construídas para a Copa. “Mas isso só deve ocorrer depois que os clubes conseguirem equalizar o próprio financiamento desses ativos”, lembra Grafietti, citando o caso do Corinthians.

O alvinegro paulista não tem se apropriado das receitas milionárias do estádio que foi palco da abertura da Copa porque praticamente toda a receita de bilheteria está indo diretamente para a empresa de propósito específico avalista da obra, que custou R$ 1,2 bilhão – e que terá que ser paga em dez anos.

Outra fonte de receita, a publicidade, depende da economia brasileira, que vem patinando. “E agregar receita de publicidade depende de credibilidade. Boas gestões, com salários em dia, sem discussões políticas internas que extrapolam os muros do clube são aspectos fundamentais para que uma empresa tenha seu nome associado às marcas do futebol”, afirma Cesar Grafietti.

O estudo do Itaú BBA, banco de investimentos do grupo Itaú, realizou projeção preocupante para os cofres de Atlético e Cruzeiro. De acordo com estudo, divulgado inicialmente pelo site  da ESPN, os mineiros serão os clubes brasileiros com maior prejuízo no fim de 2015. Além deles, apenas o Internacional, entre os ‘grandes’, apresentará desempenho negativo.

Segundo o estudo, que identifica o prejuízo EBITDA – diferença entre receitas e despesas antes do pagamento de impostos, juros e amortizações –, a situação do Atlético é a mais grave, registrando saldo negativo de R$25 milhões no fim do ano. O Cruzeiro, por sua vez, terá prejuízo de R$19 milhões. O Internacional, “terceiro colocado”, tem saldo estimado em R$3 milhões negativos.

O estudo explica que a gestão do Atlético age com ousadia, mantendo elencos que disputam títulos há três anos seguidos. Por isso, segundo o estudo, a conta não fechará no fim da temporada. “Em 2014 o clube conseguiu se segurar com o dinheiro da venda de Bernard em 2013, mas depois disso não houve entrada adicional consistente. Se não cortou custos em 2015 – e pelo elenco de boa qualidade e quantidade que manteve para a disputa da Libertadores e do Brasileiro, adicionado de algumas contratações, parece não tê-lo feito – vai sofrer ao longo do ano”, pondera o estudo.

Reprodução

Já o Cruzeiro, conforme avalia o Itaú, trabalha no ‘limite da agressividade financeira’, sempre apresentando geração de caixa negativa. “O clube está longe de apresentar uma gestão financeira moderna e que busca uma folga financeira, levando ao extrema a ideia de que clube de futebol não precisa de lucro, precisa de títulos. É verdade, mas no meio do caminho pode ter que lidar com alguma temporada na Série B, como quase aconteceu há alguns anos”, diz.

Reprodução

Veja as previsões do Itaú BBA para o final de 2015:

Atlético-MG: prejuízo de R$ 25 milhões
Botafogo: lucro de R$ 3 milhões
Corinthians: lucro de R$ 17 milhões
Cruzeiro: prejuízo de R$ 19 milhões
Flamengo: lucro de R$ 89 milhões
Fluminense: lucro de R$ 29 milhões
Grêmio: lucro de R$ 42 milhões
Internacional: prejuízo de R$ 3 milhões
Palmeiras: lucro de R$ 63 milhões
Santos: lucro de R$ 14 milhões
São Paulo: lucro de R$ 9 milhões
Vasco: lucro de R$ 7 milhões

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