Faturamento X Lucro em Futebol

 

Em análise dos borderôs divulgados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a Fundação Getúlio Vargas (FGV) realizou levantamento sobre o faturamento em bilheteria dos jogos do primeiro turno do Campeonato Brasileiro. Segundo o estudo, o Atlético é um dos líderes em bilheteria, com arrecadação de 10,1 milhões – o percentual de lucro é de 53%. Por sua vez, o Cruzeiro é o terceiro com maior percentual de lucro, com 73%. A Raposa arrecadou R$ 5,7 milhões na metade inicial da competição, embolsando 4,1 milhões.

Esses valores representam o dados discriminados nos balanços financeiros. Logo, eles variam de acordo com a padronização de cada balanço, que difere de clube para clube. É importante ressaltar que as arrecadações não são, de fato, o montante que cada clube recebe, uma vez que parte do dinheiro se refere a um percentual do valor pago pelo sócio-torcedor. Os clubes, assim, colocam no demonstrativo valores fictícios para cada associado, sendo que em alguns programas os torcedores têm entrada liberada sem o pagamento do ingresso.

Líder de público, o Palmeiras está à frente em relação à arrecadação com bilheteria, com R$ 23,4 milhões, seguido por Corinthians (R$ 13,9 milhões) e Grêmio (R$ 8,2 milhões).

Apesar de arrecadar quase o dobro do Cruzeiro (R$10,1 milhões contra R$ 5,7 milhões), o Atlético aparece com percentual menor de faturamento líquido em função do acordo realizado com a Minas Arena. Em jogos no Estádio da Pampulha, o Galo paga uma taxa fixa de operação (R$ 115 mil), além de 20% da receita líquida – o clube alvinegro, em contrapartida, tem direito a vender os ingressos para os setores da concessionária. A despeito de atuar apenas em jogos com expectativa de grandes públicos no Mineirão, os valores são mais vultosos e fazem diferença, uma vez que a arrecadação é bem menor em atuações no Independência. O Galo fez quatro jogos no Mineirão neste Brasileiro, contra Joinville, São Paulo, Sport e Grêmio.

Outra diferença que chama atenção para os rivais mineiros é a taxa paga à empresa de serviços de ingressos: o Galo paga cerca de R$ 155 mil em grandes jogos no Mineirão. Já o Cruzeiro assumiu essa tarefa em seus jogos e reduziu bastante os custos.

“O Atlético consegue faturamento maior em função do público. No borderô, o clube descrimina o valor que é pago à Minas Arena, que chega a 20% do valor total. Já o Cruzeiro não tem essa diferença paga à concessionária. A grande diferença e o que impacta é esse valor recebido pela Minas Arena”, esclarece o Lucas Calil, pesquisador da FGV.

Como demonstrado nos boletins financeiros, o Cruzeiro não faz o pagamento de taxa de operação à Minas Arena. Assim, as despesas do clube são mínimas no estádio. “O Cruzeiro tem alta rentabilidade exatamente porque o clube tem uma boa média de ingressos declarados e despesas pequenas nos jogos, assim como Grêmio e Internacional”, explica o pesquisador pesquisador da FGV.

O Cruzeiro decidiu parar de pagar a taxa de operação no Mineirão em 2013, depois que o Atlético atuou no estádio, contra o Olimpia-PAR, pela final da Copa Libertadores, sem efetuar esse pagamento. Uma cláusula no contrato com a operadora diz que o clube passa a ter direito a qualquer benefício concedido a outra agremiação. O presidente Gilvan de Pinho Tavares entende que o Cruzeiro está apenas cumprindo o acordo.

Diferentemente do Atlético, o Cruzeiro não comercializa ingressos da Minas Arena em seus jogos. O clube tem uma carga disponível de 54 mil bilhetes por partida no estádio. Além disso, a operadora só pode vender entradas 20% mais caras que o ticket da cota celeste.

Segundo explicação dada à reportagem em 2014 pelo ex-gerente de marketing Marcone Barbosa, o clube celeste se baseia no Regulamento Geral das Competições da CBF e lança o valor de R$ 25 para cada sócio presente no Mineirão. Esse é o preço correspondente à metade do ingresso mais barato da bilheteria.

Dessa forma, cria-se uma renda fictícia a cada partida. Exemplo: os sócios com lugar fixo no estádio, que pagam entre R$ 105 e R$ 220 por mês têm entrada garantida nos jogos, mas são contabilizados como se pagassem R$ 25 por duelo.

Essa é uma forma de o Cruzeiro amenizar o valor a ser pago como tributo à CBF e à FMF por partida, que é calculado sobre a renda bruta dos jogos apresentada nos borderôs. Outros clubes seguem essa mesma estratégia, amparada no Regulamento Geral das Competições da CBF.

Na última partida contra o Internacional, por exemplo, o Cruzeiro teve, em tese, um déficit de cerca de R$ 30 mil. Isso porque a arrecadação total foi de R$ 449.105,00, dos quais R$ 168.690,00 e R$ 179.300,00 relativos aos sócios. Assim, retirando esse valor que já é contabilizado como dinheiro dos programas de associados e ainda descontados R$ 116.737,01 das despesas, a Raposa teve déficit de R$ 30.380,55 na partida contra o Colorado.

“Em relação à diferença dos clubes, cada um tem uma prática diferente de borderôs, clubes do Rio fazem de uma forma; já o Cruzeiro e o Atlético fazem esse tipo de distinção quanto aos sócios. Uma das reflexões desse levantamento é que os clubes brasileiros poderiam exercitar melhor este tipo de transparência, oferecendo ao torcedor todos os dados possíveis”, afirma Calil.

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