Holismo Metodológico

Totalidade do SerHolismo Metodológico (MH), segundo Malcolm Rutherford, no livro Institutions in Economics: The Old and the New Institutionalism (1994), é uma abordagem associada mais frequentemente à Sociologia e à Antropologia do que à Economia, mas, como Rutherford (1994) já observou, muitos escritores dentro da OIE têm usado o termo para descrever o seu própria posição (Gruchy 1947; Wilber e Harrison 1978; Ramstad 1986).

A abordagem holista pode ser resumida como se segue:

MH (i): O todo social é mais (“fenômeno emergente distinto”) do que a mera soma de suas partes.

MH (ii): O conjunto social influencia significativamente as condições de comportamento ou funcionamento de suas partes.

MH (iii): O comportamento dos indivíduos deve ser deduzida a partir leis, fins ou forças macroscópicas ou sociais, que são sui generis e que se aplicam ao sistema social como um todo, e a partir das posições (ou funções) de indivíduos dentro do conjunto total.

Estas três premissas estão organizadas em ordem crescente da mais fraca e menos controversa para a mais forte e mais controversa. Os dois primeiros axiomas têm a ver com a natureza da realidade social. O terceiro pertence a um programa de pesquisa. MH (iii) não é, contudo, uma simples consequência lógica de MH (i) e (ii), apesar de alguma aparência em contrário.

MH (i), que afirma que o todo social é mais do que a soma de suas partes, é uma exposição da ideia de que a sociedade é mais do que uma mera agregação de indivíduos autônomos. As sociedades têm uma coerência, ordem e estrutura que as torna mais do que apenas grupos de indivíduos agindo de forma independente.

Claro, essa ideia, por si só, pode ser (e foi) atacada por sua trivialidade: ninguém a rejeita, ela não se aplica apenas a grupos sociais, mas a um grande número de assembleias. Para usar o exemplo de Popper (1961: 82), “até três maçãs dispostas de uma certa maneira em uma bandeja são mais do que apenas um amontoado casual de maçãs e bandeja”.

Mesmo assim, MH (i) não serve para apontar para a importância inegável da história e das tradições de um grupo social em dar-lhe coerência e, em especial, sua própria personalidade. Apesar de normalmente ser visto como um individualista, e apesar de suas críticas a outros aspectos do holismo, Popper (1961: 17-18) argumentou que “o grupo social é mais do que a mera soma total de seus membros e é também mais do que a mera soma das muitas relações pessoais existentes, em qualquer momento, entre quaisquer dos seus membros”.

Um grupo pode facilmente manter o seu caráter intacto se ele perde alguns de seus membros menos importantes. Mas não é concebível que um mesmo grupo possa manter muito do seu caráter original se todos os seus membros originais são substituídos por outros. [FNC: pense um time de futebol de um mesmo clube, por exemplo, o time do Cruzeiro foi bicampeão em 2013-14, depois foi desmantelado, e o clube luta contra o rebaixamento para a série B em 2015. Snif, snif…] Os membros que constituem agora o grupo [“o time ou a equipe”] poderão, eventualmente, ter construído um grupo muito diferente, se não tiverem entrado no grupo original um por um, mas fundado sim um novo em seu lugar.

As personalidades de seus membros podem ter uma grande influência sobre a história e a estrutura do grupo, mas este fato não impede o grupo de ter uma história e uma estrutura própria. Também não impede este grupo de estar influenciando fortemente as personalidades de seus membros.

Essa citação de Popper, com sua ênfase sobre a história e as tradições de um grupo social e sobre a influência da história e tradição sobre os indivíduos, estabelece ligações de MH (i) com a proposição MH (ii). A afirmação de MH (ii) de que a sociedade influencia por inteiro, ou até mesmo apenas em certa medida, determina o comportamento dos indivíduos que a compõem, provocou uma grande controvérsia.

Sociólogos levam isto a ponto de dizer que as regras sociais impostas por sanções externas fazem mais do que simplesmente restringir o indivíduo. Os indivíduos são educados para aceitar normas estabelecidas. Como eles internalizam as normas, eles se tornam personalidades socializadas. Por isso, “a disposição de uma pessoa a respeitar normas torna-se independente de sanções externas e, em vez disso, torna-se parte mesma do caráter de uma pessoa” (Vanberg, 1988: 5).

Aqueles que aceitam axiomas como MH (ii) tendem a criticar os individualistas, incluindo a maioria dos economistas ortodoxos, por ignorar a importância das regras sociais estabelecidas e as normas éticas de comportamento, além do altruísmo e a empatia, é claro. O Homo Economicus não é apresentado como um Homo Empathicus como são, na realidade, os descendentes do Homo Sapiens

Estas críticas de MH (ii) sugerem, no entanto, que a internalização e a socialização implicam que o indivíduo não tem escolha já que é, completa e incondicionalmente, estabelecido pelas normas sociais adotadas. Como Brunner (1987: 375) coloca, de acordo com o holismo mais extremista, “o homem é totalmente programado por seu contexto social”!

É verdade que é possível encontrar muitos exemplos deste conceito de Sobre-socialização do Homem, particularmente na Sociologia (Wrong 1961; Granovetter, 1985), mas está longe de ser claro que todos aqueles que aceitam MH (ii) interpretam o postulado como que implicando mais do que uma aceitação incondicional de ou a disposição para seguir às regras sociais. Isso representaria uma posição não incompatível com muitas versões do individualismo.

Popper (1961: 158), por exemplo, não encontra nada de errado na ideia de que “a natureza humana varia consideravelmente de acordo com as instituições sociais”. Watkins ([1957] 1973: 172) concorda que “o individualismo metodológico permite o condicionamento cultural de uma maneira generalizada”, desde que seja “explicado unicamente em termos de outros fatores humanos e não em termos de algo desumano, tais como uma suposta lei historicista que impele as pessoas, arbitrariamente, ao longo de algum curso pré-determinado”.

Esse argumento de Watkins nos leva ao MH (iii), o postulado de que o comportamento dos indivíduos deve ser explicado apenas em termos de leis sociais ou históricas. Isto desde que essas forças, funções ou fins não sejam elas próprias explicáveis como os resultados das decisões (intencionais ou não) das ações dos indivíduos. Este argumento tem sido sempre objeto de ataque veemente por individualistas de todas as matizes.

Enquanto muitos holistas encontram certo mérito em algumas das críticas ao historicismo e ao funcionalismo, querem contra-atacar com o argumento de que existem muitos tipos de “leis sociais”, alguns das quais não envolvem “leis globais de mudança direcional” ou fins sociais abrangentes (Mandelbaum [1957] 1973). Apesar disso, holistas duvidam que o comportamento individual possa ser explicado sem referência às condições sociais.

Todas as versões do holismo dão primordial importância ao todo social. Este conjunto social é visto com a capacidade de influenciar e condicionar o comportamento individual. No entanto, a força com a qual o social é visto como o condicionamento ou a determinação do comportamento do indivíduo varia substancialmente entre holistas.

Assim, também, é questionada a interpretação dada a noções tais como leis e funções sociais. Em alguns casos, afirmações holistas parecem implicar que as entidades macro ou sociais têm algum tipo de poder de agência sobre si própria, mas esta não parece ser de nenhuma maneira uma ideia universal por parte de todos os holistas.

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