Individualismo Metodológico

us_hegemony2Como no caso do holismo metodológico, as proposições fundamentais da individualismo metodológico (MI) são resumidas por Malcolm Rutherford, no livro Institutions in Economics: The Old and the New Institutionalism (1994), em três declarações:

MI (i): Somente os indivíduos têm objetivos e interesses.

MI (ii): O sistema social, e as suas alterações, resultam das ações dos indivíduos.

Ml (iii): Todos os fenômenos sociológicos em grande escala são, em última instância, explicados em termos de teorias que se referem apenas a indivíduos, suas disposições, crenças, recursos e interações.

Como antes, estas proposições estão dispostas em ordem de intensidade e em termos de volume de controvérsia que cada qual gerou. MI (i) recebe a crítica mais fraca e é menos controversa. Mais uma vez, Rutherford salienta que os dois primeiros axiomas são demonstrações sobre a natureza da realidade social, enquanto o terceiro define um programa de investigação.

MI (i) reflete a ideia fundamental dos individualistas de que qualquer instituição, sociedade ou entidade coletiva, não pode possuir um próprio e distinto objetivo ou propósito em si mesma. Isso não quer dizer que os indivíduos não podem se comportar como se tais objetivos e propósitos existissem.

“Uma instituição pode ter objetivos e interesses somente quando as pessoas lhe dão um objetivo, ou agir de acordo com o que elas consideram que deve ser o seu interesse, ou seja, uma sociedade ou uma instituição não podem ter objetivos e os interesses por conta própria” (Agassi 1960: 247).

Deve notar-se que MI (i), em si e por si, não diz nada sobre quais são os objetivos de um indivíduo e como são formados esses interesses. O postulado não endossa de forma positiva a ideia do condicionamento social, mas também não é inconsistente com esta ideia.

A proposição de MI (ii) tem a mesma linha de argumentação ou talvez um pouco mais.

MI (ii) faz a alegação de que as instituições e as normas sociais, além das mudanças delas, surgem como resultado das decisões (intencionais ou não) e ações dos indivíduos. O postulado repudia a ideia de que, inexoravelmente, leis, propósitos, ou forças sociais que determinam a natureza da sociedade e sua evolução, independentemente do que as pessoas, individualmente ou em conjunto, possam fazer.

MI (i) e (ii), considerados em conjunto, expressam a insistência dos individualistas na prioridade das determinações dos atores individuais sobre o todo social. Os indivíduos são os únicos atores reais; o todo social é a criação das ações empreendidas por indivíduos.

Não sem justiça, holistas muitas vezes veem essa ideia como uma negação da influência social sobre os indivíduos. Os holistas tendem a enfatizar a prioridade do social sobre o indivíduo. Eles salientam que o ser humano é um produto social, ao invés de que a sociedade é um produto de seres humanos.

Como já mencionado por Rutherford, alguns individualistas parecem ter grande dificuldade em reconhecer que o sistema social tem influência sobre o indivíduo, mas, para outros individualistas, como Watkins e Popper, o ponto-chave no MI (i) e (ii) é simplesmente que “pessoas que determinam a história, no entanto, as próprias pessoas são determinadas” (Watkins [1955] 1973: 179).

Mais recentemente, o termo “supervenção” – ação ou resultado de sobrevir, isto é, vir sobre outra coisa ou depois dela, vir ou acontecer em seguida – foi proposto para indicar a prioridade do indivíduo sobre o social, embora aceitando o condicionamento social dos indivíduos.

A Tese da Superveniência é que “quaisquer que sejam as relações complexas e recíprocas existentes entre entidades sociais e indivíduos, é a totalidade dos fatos individuais que determina a totalidade dos fatos sociais” (Currie, 1984: 345).

O social, portanto, sobrevêm ao indivíduo. É claro que não é apenas a totalidade dos fatos individuais em um determinado momento, t, o que determina a totalidade dos fatos sociais em t. A importância social das ações dos indivíduos, em um determinado momento, depende também das instituições e normas, previamente estabelecidas, sobre a história da sociedade até aquele momento.

Superveniência global não é, obviamente, incompatível com grande parte do que um holista diria a respeito da influência social sobre o indivíduo. O que a superveniência global sustenta, no entanto, é a prioridade do indivíduo sobre o social de um sentido particular, bastante fraco: embora histórias individuais idênticas resultem em estados sociais idênticos, o inverso não se sustenta.

A Tese da Superveniência é uma das versões mais fracas do individualismo, e, como tal, parece ser inconsistente apenas com as versões mais extremas de determinismo histórico ou cultural. Individualismo metodológico, no entanto, é geralmente considerado como fizesse alegações muito mais fortes relativas à teoria individualista e a respeito do tipo aceitável de explicação dos fenômenos sociais. Estas alegações, e os debates que elas provocaram, vêm de certas interpretações de declarações tal como Ml (iii).

Dentro da literatura individualista, a redução, ou melhor, o reducionismo, é muitas vezes apresentada como uma consequência simples de declarações como MI (i) e MI (ii).

A redutibilidade é vista como fosse fundamentada nos argumentos que:

  1. só as pessoas têm objetivos e propósitos e
  2. o sistema social é o resultado das ações de indivíduos.

Isso equivale a dizer que a superveniência do social sobre o indivíduo implica a redutibilidade do social para o indivíduo (Mellor, 1982: 70). Este argumento falha em parte por razões mencionadas anteriormente por Rutherford. Superveniência não requer nem implica que um determinado estado social só pode surgir de uma história particular surgida do nível individual de comportamento.

Reducionismo, por conseguinte, não é uma simples consequência de (ou firmemente fundamentada em cima de) proposições tais como MI (i) e (ii).

Mais grave é o fato de o mesmo ponto relativo a múltiplas realizações também é um de uma série de argumentos estreitamente relacionados que indicam a extrema dificuldade, se não a impossibilidade, de eliminar completamente os predicados sociais e expressar com sucesso a teoria social em termos puramente individualistas.

Em primeiro lugar, como já mencionado por Rutherford, termos sociais tais como “classe” ou “burocracia” não definem um único conjunto particular de relações individuais, estados e crenças.

Em segundo lugar, ações individuais adquirem seu significado em termos de seu contexto envolvente, e estes contextos geralmente envolvem instituições e normas sociais, que também devem ser descritas individualmente. Isto, no entanto, mais uma vez, simplesmente, levanta os mesmos dois problemas de múltiplas determinações e de contextualização social (Kincaid 1986: 498).

Em terceiro lugar, há outro problema relacionado, levantado por descrições de comportamento que utilizam a noção de papéis sociais. Comportamento de um indivíduo é comummente explicado por referência ao seu papel como, por exemplo, professor, médico ou juiz. Aplicar termos como essas lógicas de ações envolve uma referência implícita a uma vasta gama de normas sociais e instituições que rodeiam e definem cada papel. Expressar tudo isso [Sistema Complexo] em termos puramente individualistas parece ser uma tarefa inimaginável (Mandelbaum [1955] 1973; Lukes 1968).

Em quarto lugar, a estes argumentos pode ser dada uma dimensão histórica. As instituições existentes “afetam as oportunidades disponíveis para as pessoas, e elas moldam funções utilidade ou preferências das pessoas” (Nozick 1977: 357). Assim, um comportamento de um indivíduo não pode ser explicado sem se referir às instituições existentes no meio em que está operando.

Essas instituições existentes podem ser explicadas como os resultados da ações dos indivíduos no passado, mas essas ações passadas só podem ser explicadas referindo-se ao conjunto de instituições que existia naquele momento, e assim por diante. Como argumentado por Agassi (1960: 255), “esta regressão será uma tentativa mal sucedida de eliminar proposições sobre instituições derivadas de nossa própria explicação a não ser que se assuma que houve pelo menos um momento na história da sociedade em que só o ambiente material e a natureza humana determinaram uma ação racional” (ver também Nozick 1977: 359). Tomados em conjunto, estes argumentos indicam a grande improbabilidade de concluir com sucesso o programa reducionista. [FNC: cai-se no dilema de quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?]

A alegação de que explicações “totalmente adequadas” dos fenômenos sociais devem ser dadas em termos puramente individualistas é igualmente duvidosa. Se o argumento é que não há “uma explicação em termos exclusivamente individualista” para “cada tipo de evento social ou entidade”, então isso exige a redução das teorias, o que já foi visto ser muito improvável (Kincaid 1986: 504). Poderia se argumentar que a explicação individualista exige a explanação de cada evento social ou entidade somente com base no caso-a-caso, em vez de explicação por tipos de eventos sociais ou tipos de entidades sociais.

A posição que as explicações totalmente adequadas devem ser explanadas em termos puramente individualistas é, portanto, extremamente difícil de justificar. Além disso, mesmo se a redução das teorias fossem possíveis, daí ainda não se deduz que qualquer um deva seguir tal redução na prática. A redução não só pode ser muito difícil como também resultar em teorias de difícil controle que nada acrescentam à prática da capacidade preditiva.

Daí também não se segue que:

  1. a Ciência Social deve ser construída de forma individualista e
  2. as teorias sobre os fenômenos sociais devem sempre ser construídas a partir da teoria individualista em vez de qualquer outra maneira disponível.

Como apontado por Nozick (1977: 361), “o argumento de que a única maneira correta de construir uma Teoria Social é começar com a Teoria da Ação Humana não se desdobra de que trabalhar dessa maneira é uma condição necessária em consequência da Tese do Individualismo Metodológico”.

As proposições mais fortes do individualismo metodológico, a de que teorias sociais podem ser reduzidas às teorias individualistas ou a de que qualquer teoria totalmente adequada à interpretação dos fenômenos sociais deve ser explanada apenas em termos individualistas, não parecem ser sustentáveis.

A noção de superveniência global não fornece nenhum suporte ilimitado para a prioridade do indivíduo sobre o social. E demonstrações tais como MI (i) e (ii) só podem fornecer a base para a crítica individualista do historicismo, do funcionalismo, ou de qualquer outro tipo de argumento holístico que não fornece a especificação dos mecanismos pelos quais as ações individuais afetam o social.

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