Individualismo contra o Holismo?

World PuzzlSe holismo envolver, necessariamente, a ideia de que totalidades sociais têm seus próprios propósitos ou objetivos, em consequência, ele entrará em conflito com o individualismo metodológico com sua rejeição básica de tais objetivos e propósitos holísticos.

Se individualismo envolver, necessariamente, o reducionismo ou a ideia de que toda a terminologia social, tanto pode quanto deve ser eliminada, se ela partir de explicações de eventos e entidades sociais, em consequência, o holismo, com sua ênfase básica sobre a irredutibilidade do todo social em suas partes individuais, entra em conflito fundamental contra o individualismo.

No entanto, como argumentado por Malcolm Rutherford, no livro Institutions in Economics: The Old and the New Institutionalism (1994), muitos autoproclamados holistas não aceitam que as instituições ou as totalidades sociais têm objetivos ou efeitos em si próprias, e alguns podem mesmo serem capazes de aceitar a Tese da Superveniência, pelo menos na sua forma global.

Da mesma forma, alguns individualistas, nomeadamente Popper e Agassi, não têm nenhuma pretensão de que:

  1. todas as teorias devem ser reducionistas ou
  2. toda a terminologia social deve ser eliminada.

Isso, segundo Rutherford, abre um meio termo metodológico onde se reconhece que:

  1. o todo social é mais do que uma simples agregação de indivíduos, e
  2. o contexto e as influências sociais são condições de comportamento individual,
  3. ao mesmo tempo, as explicações “totalizantes” nas Ciências sociais devem conter a especificação dos mecanismos através dos quais os comportamentos individuais geraram os fenômenos sociais em questão.

Em termos das várias proposições delineadas anteriormente por Rutherford (leia posts anteriores), MH (iii) e MI (iii) estão em conflito, mas MH (i) e (ii) e MI (i) e (ii) são declarações sobre a realidade que não são incompatíveis entre si. Se aceitarmos MH (i) e (ii) e MI (i) e (ii), em consequência, o desafio se torna encontrar uma adequada instrução para o programa no qual se abandona MH (iii) e MI (iii).

Várias tentativas de definir esse tipo de programa foram feitas. Currie (1984) argumenta que a Superveniência Global pode servir como um metafísico núcleo duro [hard core] de um Programa de Pesquisa Científico para as Ciências Sociais:

“Tal programa reconhece a natureza holística dos conceitos sociais e sua resistência à caracterização em termos de equivalentes individualistas (…). Mas reafirma a alegação de que o domínio de fatos individuais é mais fundamental do que o domínio dos fatos sociais” (1984: 355).

Agassi (1975) argumentou para o que ele chama de Individualismo Institucional.

“O objetivo deste programa não é nem o de assumir a existência de todas as coordenações [interações que resultam em auto-organização sem autoridade central] nem explicá-las todas, mas sim o de assumir a existência de alguma coordenação, a fim de explicar a existência de algumas outras coordenações. É um erro assumir que a única explicação satisfatória das instituições é composta por pressupostos que não dizem nada a respeito de instituições” (Agassi 1960: 263)

O significado desse ponto de Agassi é que ele destaca a impossibilidade de endogeneizar todas as instituições dentro de uma teoria que toma como dados apenas o ambiente físico e os estados psicológicos dos indivíduos. Dentro qualquer teoria que tenta explicar o desenvolvimento ou a mudança de alguma(s) instituição(s), alguma outra instituição terá de ser tomada como exógena (ver também Boland 1982).

Uma posição um pouco semelhante foi articulada por Christopher Lloyd (1986) sob o nome de Estruturalismo Metodológico. Para Lloyd, a maioria das versões do individualismo metodológico exageram a autoridade dos indivíduos enquanto algumas versões do holismo, indevidamente, imputam poderes de representação [agência] a entidades sociais:

Ação ocorre sempre dentro das estruturas de relações, regras, funções e classes. Mas as estruturas não são agentes da maneira que alguns funcionalistas e holistas parecem acreditar. Elas têm poderes, de certa forma, condicionados, que estabelecem parâmetros para o exercício da ação humana de agência [representação], mas elas não podem causar mudanças em si próprias.

Isto significa que os seres humanos não são agentes puros, porque seu poder é limitado e restringido, tanto interna como externamente, e isso também significa que a ação humana, individual e coletiva, é o agente fundamental da história.

Este Estruturalismo Metodológico não é reducionista, sustentando que as explicações de mecanismos causais têm que ser dadas em ambos os níveis, isto é, micro e macro” (1986: 37).

Embora essas várias posições não sejam idênticas, em todos os detalhes, todas elas servem para apontar a necessidade de uma Ciência Social, inclusive a Ciência Econômica, que reconheça e incorpore os aspectos razoáveis tanto ​​dos programas holistas quanto dos individualistas, enquanto rejeita as versões extremas de ambos.

Agassi (1975: 154) salienta que “muitos teóricos sociais sentiram a necessidade de um tal ‘via media’ [‘terceira via’] e que muitos deles têm, de fato, explorado de maneira pioneira tal caminho”.

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