Rentabilidade Patrimonial de Empresas Não-Financeiras X CDI

Retorno X PL X CDI

Obs.: no primeiro gráfico acima, publicado no Valor (03/09/15), parece-me que as legendas estão trocadas: a curva azul (tendência crescente) é a da variação do CDI.

Quer entender uma das raízes do discurso de ódio contra o Governo Social-Desenvolvimentista por parte de “empresários perdedores”?

Rocca (2015: 2) afirma que “a maior parte [da queda da taxa de investimento] foi ocorrida nas empresas não financeiras. Tudo indica que a queda da taxa de retorno sobre o capital investido para níveis inferiores ao custo médio da dívida dessas empresas, desde 2012, seja um dos fatores mais relevantes para explicar esse desempenho. Especialmente no setor industrial, o problema aparece na forma de redução de margens, que resulta da dificuldade de repassar aos preços de venda os aumentos de custos, especialmente do custo unitário do trabalho que se elevou muito acima do preço em reais dos produtos importados, estes reduzidos pela valorização do real”.

Ele acha que “a recente correção de preços relativos, inclusive câmbio, contribui para a recuperação de margens, enquanto que o sucesso do ajuste fiscal pode sustentar mais adiante a redução do custo de capital. Este movimento, sendo combinado com a criação de condições favoráveis à participação privada em infraestrutura, pode ajudar na reversão do cenário em favor da retomada do investimento”.

A rentabilidade média do capital próprio das empresas de capital aberto e das maiores fechadas, como registra a Nota CEMEC 3 (12/03/2015), entre 2012 e 2014, é inferior à taxa de inflação e, portanto, ficou negativa em termos reais. “Nesse período, essa taxa ficou muito abaixo da taxa de juros de uma aplicação em títulos públicos federais, com risco de crédito praticamente nulo e alta liquidez”.

As constatações de Rocca (2015) sugerem que um dos fatores de inibição dos investimentos na indústria a partir de 2010 resulta da estagnação da produtividade que resultou no aumento do custo unitário do trabalho combinado com a valorização real do câmbio, resultando em redução da relação câmbio/salário. Os preços em moeda estrangeira dos produtos industriais importados crescem ao longo de todo o período, com um ciclo curto de redução em 2009, mas a evolução de seus preços em reais é limitada pela apreciação da moeda nacional.

Fernando Torres (Valor, 03/09/15) confirma que apenas um terço das companhias abertas brasileiras deu retorno contábil aos seus acionistas acima da rentabilidade da renda fixa, conforme levantamento feito pelo Valor com base em dados do Valor Empresas.

Considerando uma amostra de 234 companhias não financeiras de capital aberto registradas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), 55% delas tiveram, em 2013, retorno sobre o patrimônio líquido acima do CDI – o juro cobrado nos empréstimos entre os bancos e que anda colado com a taxa básica Selic, definida pelo Banco Central.

De lá para cá, esse percentual vem caindo trimestre a trimestre — sempre considerando o lucro acumulado em 12 meses dividido pelo patrimônio líquido médio –, até se chegar ao índice de 33% no período de um ano encerrado em junho de 2015.

O retorno sobre o patrimônio registrado por uma empresa não se confunde com a rentabilidade obtida por investidores na bolsa com as ações dessas companhias, já que a variação das cotações depende de inúmeros outros fatores.

Mas essa medida é relevante por dar uma dimensão relativa para o lucro das companhias (é diferente ter resultado líquido de R$ 10 para um capital investido de R$ 100 ou de R$ 50) — e inclusive serve para determinar se o negócio é viável economicamente.

Os dados do levantamento permitem dizer que os acionistas de dois terços das empresas brasileiras de capital aberto teriam feito melhor negócio se tivessem fechado suas empresas em meados do ano passado e deixado o dinheiro aplicado no banco, ou em títulos públicos do Tesouro Nacional, sem praticamente correr riscos.

A redução desse grupo de empresas que está acima da linha d’água da rentabilidade, que ajuda a entender o pessimismo dos empresários, deve-se a dois fatores.

De um lado, acompanhando a Selic, a variação do CDI subiu de 8,02% ao longo do exercício de 2013 para 11,76% no período de 12 meses encerrado no segundo trimestre deste ano.

Ao mesmo tempo, a mediana do retorno sobre o patrimônio líquido desse grupo de empresas caiu sistematicamente, saindo de 9,5% no primeiro período de observação para 6,8% no último intervalo. Esse retorno é inferior até mesmo à variação da inflação medida pelo IPCA em igual período, que se aproximou de 9%.

A combinação de alta de custos e despesas, e de vendas ainda crescendo, mas em ritmo menor, ajuda a explicar a piora dos resultados operacionais das companhias nesse período.

Já a valorização do dólar e a própria alta dos juros também são fatores relevantes, já que penalizam a linha de resultado financeiro e jogam para baixo o lucro líquido das empresas.

Cabe notar ainda que esse percentual de empresas com rentabilidade acima do mínimo desejável para uma companhia – que é superar o retorno da renda fixa – tende a cair nos próximos trimestres. Seja porque a economia segue submetida ao ajuste fiscal, seja porque a demanda agregada está também regulada por alta taxa de juros.

Quando se verifica quantas empresas tiveram retorno sobre patrimônio acima de 14,25% nos últimos 12 meses até junho de 2015, o percentual cai de 33% para 27% da amostra.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s