Fixação de Juros: Processo Experimental, Lento e Gradual

Juros - tentativa-e-erro

Como elevar juros em “estagnação secular”? Com tendência deflacionária, elevar o custo de oportunidade face a qualquer investimento produtivo?! Como sair de uma “armadilha da liquidez” sem um remake, ou seja, uma Economia de Guerra provocada por uma “Terceira Guerra Mundial”?

Harriet Torry e Jon Hilsenrath (The Wall Street Journal, 15/09/15) informam que, nos sete anos em que os Bancos Centrais responderam à crise financeira cortando as taxas de juros, mais de uma dúzia de BCs no mundo desenvolvido tentaram elevar os juros de novo. Todos foram obrigados a recuar.

Isso paira como uma ameaça para o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, que contemplava subir as taxas de juros pela primeira vez em quase uma década na reunião de política monetária desta semana, mas decidiu manter a taxa de juros perto de zero, apontando para as preocupações com a fraqueza da economia global.

Independentemente de agirem agora ou depois, as autoridades do Fed dizem que esperam subir os juros de forma gradativa. A história recente indica que gradual, aos olhos do Fed, pode não ser gradual o bastante. A economia pode não colaborar e as taxas podem permanecer excepcionalmente baixas por um longo período.

Os bancos centrais na zona do euro, Suécia, Israel, Canadá, Coreia do sul, Austrália, Chile, entre outros, tentaram aumentar as taxas de juros nos últimos anos, mas tiveram de reduzi-las de novo à medida que observavam as “marcações-a-mercado”, isto é, a reações perversas de O Mercado.

As inversões das taxas de juros pelos bancos centrais nos últimos anos tiveram diferentes causas e consequências.O Banco Central Europeu (BCE), em 2011, teve receios quanto ao aumento dos preços das commodities. Na Suécia, Canadá, Austrália e Israel, booms no setor imobiliário se tornaram uma preocupação. O Banco do Canadá e outros viram uma recuperação tomando forma, o que acreditaram que permitiria taxas mais altas à medida que o desemprego recuava.

O Banco de Israel, sob a batuta de Stanley Fischer, atual vice-presidente do Fed, foi um dos primeiros a agir. Ele começou elevando as taxas de 0,5% ao ano, em setembro de 2009, assim que a recuperação começou, para 3,25% em maio de 2011. Com a economia de Israel afetada pela recessão na Europa e com a desaceleração da inflação mundial, o sucessor de Fischer, Karnit Flug, reduziu desde então as taxas de juros para 0,10%.

Dois bancos centrais que não elevaram ainda os juros desde a crise – o Fed e o Banco da Inglaterra – têm desfrutado de recuperações econômicas mais fortes que os demais.

A experiência pós-crise dos outros inclui uma lição, diz o economista do Royal Bank of Scotland Marcus Wright, que estudou reversões de políticas monetárias de bancos centrais. “Seja muito, muito cauteloso ao elevar as taxas. É preciso que haja um motivo muito, muito forte.”

A Suécia começou a elevar os juros em 2010 receando que o crédito fácil estava causando um superaquecimento no mercado imobiliário. Apesar da alta do desemprego, o Riksbank (o BC sueco) elevou sua taxa de referência em 1,75 ponto percentual, para 2% ao ano, entre julho de 2010 e julho de 2011.

O aumento foi seguido pelo recuo da inflação e uma reversão dos ganhos no mercado de trabalho. Com a escalada da crise na Grécia intensificando os efeitos na economia sueca, o Riksbank reverteu seu curso e reduziu as taxas em dezembro. O país está hoje entre as economias europeias com taxas de juros negativas — a Suécia cobra os bancos para deixarem seu dinheiro depositado no banco central.

“O aperto [da economia] cedo demais pode ter custos muito grandes, como foi o caso da Suécia”, afirma Lars Svensson, que renunciou a seu cargo de vice-presidente do Riksbank em 2013 em protesto contra as decisões de política monetária da instituição.

Vários fatores estão mantendo os juros baixos, muitos deles fora do controle dos bancos centrais.

  1. A desaceleração nas economias em desenvolvimento, especialmente na China, tem enfraquecido a demanda por commodities e derrubado os preços.
  2. Bancos em economias desenvolvidas têm se recuperado lentamente da crise de 2007 a 2009, restringindo o crédito ao setor privado.
  3. O envelhecimento da população em economias avançadas e a lentidão no aumento da produtividade têm minado a capacidade das economias de sustentar as taxas de juros mais altas que os bancos centrais almejam.
  4. E governos que buscam promover contenções fiscais têm deixado a cargo dos bancos centrais promover o estímulo econômico.

Os bancos centrais não podem pressionar por taxas mais altas no longo prazo do que suas economias podem suportar, diz Svensson. Segundo ele, no cenário do pós-crise, os bancos centrais tiveram dificuldade em definir taxas baixas o suficiente para fortalecer suas economias.

Algumas autoridades de bancos centrais dizem que analisar em retrospecto é bom, mas eles têm que agir conforme as circunstâncias econômicas evoluem.

O vice-presidente do Riksbank, Per Jansson, em um discurso do ano passado, respondeu às críticas dizendo que, “em retrospecto, fica claro que a política monetária poderia ter sido de alguma forma mais expansiva se soubéssemos que a inflação ficaria tão baixa quanto está hoje”. Mas, diz ele, “isso é uma consequência natural e inevitável do fato de que a política monetária tem que ser baseada em estimativas, que são incertas”.

O ex-presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, que aumentou os juros em 2011, disse que precisou reagir ao aumento da inflação provocado pelos preços das commodities e ao risco de que as famílias e as empresas pudessem esperar taxas mais altas de inflação no futuro.

O BCE tem como meta uma inflação próxima a 2% ao ano e a instituição entregou “exatamente o que nós prometemos” durante seu mandato, disse ele em entrevista ao WSJ. As subsequentes reduções nas taxas de juros ocorreram depois que deixou o cargo e o cenário da inflação mudou, disse ele. SegundoTrichet, ele usou outras medidas para combater a turbulência financeira, incluindo compras de títulos de dívida e empréstimos de emergência aos bancos.

A própria história do Fed sugere que elevar os juros depois de uma crise financeira pode ser um processo doloroso e lento, além de propenso a erros.

Em 1936, sete anos após a quebra da Bolsa de Nova York, o Fed agiu para elevar as exigências das reservas dos bancos. O governo também tentou impedir um influxo de ouro ao ampliar a oferta de dinheiro e implementou aumento de impostos e cortes nos gastos federais para melhorar os balanços fiscais. A combinação fez com que os bancos reduzissem a concessão de empréstimos, o que afetou o nível de emprego e o crescimento, e os Estados Unidos caíram na sua terceira pior recessão do século XX.

O Fed retomou uma política de dinheiro fácil que continuou até bem depois do fim da Segunda Guerra Mundial. As taxas oferecidas pelos títulos do Tesouro americano de três meses não ficaram acima de 1% até 1948 e não superaram 2% até 1952.

As autoridades do Fed agora dizem que planejam agir gradualmente. Mas as suas expectativas para as taxas podem ainda ser altas demais. Em junho, autoridades estimaram que o Fed elevaria as taxas dos fundos federais de curto prazo de perto de zero para 1,625% ao ano até o fim de 2016 e para 2,875% até o fim de 2017.

Os investidores têm uma visão diferente. Os mercados futuros de fundos do Fed, onde os operadores fazem apostas sobre a previsão da taxa de juros de referência do banco central, colocam a meta do Fed abaixo de 1% ao fim de 2016 e abaixo de 1,5% ao fim de 2017.

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