Poder da Moeda: Entendendo a Rivalidade Monetária

Currency PowerCyro Andrade (Valor, 15/09/15) publicou uma resenha do livro “Currency Power ­- Understanding Monetary Rivalry” de autoria de Benjamin J. Cohen. 304 págs., US$ 29,95 (Princeton Univ. Press).

Em “Currency Power: Understanding Monetary Rivalry”, Benjamin Cohen, professor de Economia Política na Universidade da Califórnia, vai aos bastidores das disputas de poder que se dão no tabuleiro da “geografia monetária”, como ele diz. É o universo em que, entre muitas outras moedas com níveis diversos de relevância, estão o dólar de Obama e o yuan de Xi — um, em posição de líder já há décadas; o outro, querendo elevar-se no ranking. Cohen explora esse campo de observação para fazer detalhada análise política, transcendente à visão econômica, mais comum, do que está por trás dos signos do dinheiro.

A introdução deste seu novo livro — o mais recente entre vários que escreveu, como “The Future of Money” e “International Political Economy: An Intellectual History” — vem com uma frase em epígrafe de Robert Mundell, Nobel de Economia em 1999: “Great powers have great currencies”. O que esse aforismo realmente significa?, pergunta Cohen. Qual é, precisamente, a relação entre moeda e poder? O que é causa, o que é efeito, e quais são as implicações para a distribuição de riqueza e autoridade mundo afora?

Mundell pode estar certo quando diz que há relações entre dimensões de poder e relevância de moedas — nessa ordem ou vice-versa, os dois sentidos de causalidade de que Cohen se ocupa em sua análise. E disso, ele supõe, os líderes chineses parecem convencidos. Tanto que vêm trabalhando sistematicamente para inscrever o yuan (ou renmimbi) no livro das moedas de amplo e acabado caráter internacional.

Mas tanto a teoria, que ocupa a parte inicial do livro, como a práxis, exposta nos capítulos seguintes, deixam perceber que aquelas conexões não primam pela simplicidade e não é fácil se movimentar na rede de variáveis assim constituída para chegar a resultados superiores — quando esse for um objetivo de Estado. Por isso, o yuan pode carregar quanta ambição queira Xi, mas o dólar, é convicção de Cohen, não expõe, ao menos por enquanto, nenhum flanco aberto a investidas que possam por em risco sua primazia nas várias órbitas da ordem econômica e política global.

Cohen cita o título do filme “It’s Complicated” (de 2009, estrelado por Meryl Streep), “que mostra como pode ser complexa a eterna batalha dos sexos”. Não seria diferente a natureza da rivalidade entre moedas: “It’s complicated”. São claros os limites que se impõem à capacidade de um governo deliberadamente “manufaturar” uma moeda internacional como estratégia de Estado. Galgar posições na pirâmide de moedas seria alguma coisa parecida como subir num pau de sebo. O que significa que, assim como se pode avançar, o movimento inverso também faz parte da realidade — até para o dólar, quem sabe, um dia.

Moedas internacionais, escreve Cohen, têm um ciclo de vida característico, uma sucessão de dois processos que se autorreforçam. Primeiro, dá-se o movimento “virtuoso”, no qual “recursos de poder promovem a internacionalização, que, simultaneamente, aumenta esse mesmo poder do Estado”. Depois ocorre a reversão, “em que o declínio geopolítico abala os atrativos da moeda, o que provoca a erosão das capacidades econômicas e políticas do Estado”.

“Grandes moedas”, emitidas por governos nacionais, por períodos mais curtos ou mais longos, predominaram no comércio internacional e finanças e estabeleceram um padrão para todas as outras. Exemplos históricos, lembra Cohen no livro, incluem:

  1. o dracma de prata da Atenas antiga,
  2. o solidus de ouro do Império Bizantino,
  3. o florim florentino e
  4. o ducado veneziano da Itália Renascentista,
  5. o florim holandês no século XVII,
  6. o peso de prata espanhol-mexicano do século XVIII,
  7. a libra esterlina no século XIX.
  8. E chega-se ao dólar americano no século XX, em seus movimentos rompantes após a Segunda Guerra Mundial.

Até onde a história estenderá seu curso ou recomendará atitudes?

Uma coisa é certa: “A internacionalização de uma moeda é produto de intensa competição. À primeira vista, o processo pode parecer principalmente técnico, e por isso mais apropriado à consideração de economistas. Na realidade, a rivalidade monetária é profundamente política, indo ao coração do que cientistas políticos chamam de equilíbrio global de poder”, afirma Cohen.

O que se pode chamar de “poder monetário”, aquele que se consubstancia nas interligações do uso internacional de uma moeda e as competências geopolíticas de seu governo? Apenas três papéis atribuídos a moedas parecem realmente agregar valor em termos geopolíticos, segundo Cohen: são as funções desempenhadas:

  1. em mercados financeiros,
  2. no comércio e
  3. como reserva de bancos centrais.

“Não tenho dúvida de que o objetivo de longo prazo da China é igualar, se não superar, a influência que os Estados Unidos exercem através do domínio internacional do dólar”, disse Cohen ao Valor. “Os chineses querem que o status de sua moeda corresponda a seu status de potência mundial. Mas a questão é: quando isso vai acontecer? Pretendem deixar que os fatos se desenrolem lentamente, ou estão com pressa? Não tenho ideia.”

Cohen tem certeza de que Pequim continuará em seus esforços de “manufaturar” uma moeda de primeiro nível. “Mas também estou certo de que nada será feito que ponha em risco o controle do Partido Comunista sobre a economia — em particular, no setor financeiro. Então, reformas [em direção a um novo patamar de liberação e desenvolvimento financeiro], se vierem, serão, na melhor das hipóteses, cautelosas e incrementais.”

O recente pedido da China de inclusão do yuan na cesta de moedas que definem o valor do direito especial de saque (DES) — ativo de reserva internacional que o FMI emite para suplementar as reservas dos países-membros — “tem o claro propósito de promover a internacionalização do yuan”. Com isso, “certamente cresceria o prestígio da moeda chinesa, a ponto de estimular bancos centrais a inclui-la em suas reservas”, avalia Cohen. Mas ele não vê aí um sinal de que a China está se movendo seriamente em direção a um novo patamar de liberalização e desenvolvimento financeiro, como será necessário para a conclusão do processo de entrada na cesta do DES.

“Bem ao contrário. É um sinal de que Pequim espera obter as vantagens da internacionalização ao menor custo possível, nos termos que sejam ditados pelo contínuo controle da economia pelo governo. Pouco está sendo oferecido além de uma promessa de dar mais atenção ao sentimento do mercado quando o Banco Central estabelece a taxa de câmbio diária do yuan. Em princípio, isso permite que Pequim declare que a taxa de câmbio agora é determinada pelo mercado, e isso ajuda a atender o critério do FMI de que, para fazer parte da cesta do DES, a moeda deve ser “livremente utilizável”. Resta ver, porém, se manterão seu compromisso na prática.”

O campo de observação de Cohen é amplo, seja quando teoriza, seja na análise de movimentos que se dão na “geografia” modificada pela internacionalização de moedas, que acentua relações hierárquicas, expandindo os domínios de algumas poucas para limites que ultrapassam em muito suas jurisdições domésticas. Também se transformam os papéis que as moedas desempenham, no comércio e nas finanças internacionais. “O resultado é produzido por uma espécie de processo darwiniano de seleção natural, conduzido principalmente por forças de competição — algo parecido com a Lei de Gresham, mas em sentido contrário. Em vez de o dinheiro ‘ruim’ expulsar o ‘bom’, dá-se o oposto”.

A epígrafe que encima o capítulo do estado atual da competição entre moedas é uma frase do economista Barry Eichengreen: “Um mundo de múltiplas moedas internacionais está chegando”. Será mesmo?

Fala-se muito (“loose talk”, na expressão de Cohen) sobre a redução do poder do dólar. O mundo estaria se movendo em direção a um sistema multimoedas, com vários polos. “A predição de Eichengreen é típica”, escreve Cohen, assim como a conclusão, em estudo publicado pelo Banco Mundial, de que “o cenário mais provável para o sistema monetário internacional é um sistema multimoedas centrado em torno do dólar americano, do euro e do renmimbi”.

Jonathan Kirshner entra no coro, dizendo que o advento de uma ordem de múltiplas moedas é “altamente provável”. Para alguns, o futuro praticamente já chegou, estabelecendo-se um protagonismo tripartite, entre dólar, euro e yuan.

Nas palavras de Fred Bergsten, também lembrado por Cohen, “o sistema monetário internacional já está se tornando bipolar, e pode, em breve, ser tripolar”. Ou, como o Banco Central Europeu coloca, “o sistema monetário internacional está a ponto de tornar-se tripolar”. Desse modo, “a multipolaridade seria, parece, o novo normal, com a implicação de que o sistema monetário está se tornando crescentemente competitivo”, diz Cohen.

Se considerados os limites de suficiência analítica da participação em mercado tomada como indicador de competitividade, a conclusão geral parece fora de dúvida, admite Cohen. Contudo, ao contrário da impressão comum, de uma multipolaridade emergente no sistema monetário global, “parece haver pouca evidência de um nível maior de competição”.

O que se vê é um único polo principal no sistema: o dólar americano. “O euro fica consideravelmente atrás. Outros, como o iene, a libra e o franco suíço, são, na melhor das hipóteses, “players” de nichos. E o yuan está tão atrás na corrida que mal merece um registro.”

Mais precisamente, segundo Cohen, níveis de concentração não mostram sinais de declínio significativo. “A mais notável característica da estrutura de competitividade do sistema é sua relativa estabilidade, e não qualquer mudança secular. Há mais de duas décadas, o dólar se mantém como a única moeda verdadeiramente global, ainda dominante para a maior parte dos propósitos. Apesar da emergência de rivais da moeda americana, o sistema ainda não pode ser descrito como alguma coisa assemelhada a um oligopólio.”

Essa conclusão guarda consistência com estudos sobre ancoragem de taxas de câmbio, que também encontram pouca evidência de mudanças significativas ao longo do tempo. “É representativa uma pesquisa do Banco Central Europeu, de 2011: verificou-se que ‘não houve, nos últimos 30 anos, mudanças sistemáticas ou de tendência em práticas cambiais… O dólar americano manteve-se como principal moeda-âncora, com o euro em distante segundo lugar.”

Estudo recente da Organização Mundial do Comércio mostra compatibilidade dessa escala de preferências com o que acontece nas transações com bens e serviços. Em matéria de aplicação em reservas internacionais, dá-se a mesma configuração em favor do dólar.

Cohen afirma que “o ponto importante é a estabilidade do sistema como é hoje”. Contudo, nada excluiria a possibilidade de se dar uma mudança significativa. A análise que se encontra no livro tem caráter claramente dinâmico, é orientada por perspectivas.

“Estivesse a Europa de fato disposta a enfrentar sua prolongada crise, o euro poderia desempenhar um desafio efetivo para o dólar; o yuan poderia eventualmente ganhar lugar correspondente ao tamanho da economia chinesa; e mesmo as moedas de outras economias de mercado emergentes, como Índia ou Brasil, poderiam começar a atrair uso internacional.” A mensagem, porém, é que nada disso aconteceu ainda. A multipolaridade não é ainda o novo normal.

 

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