Pronunciamento do Presidente do Banco Central do Brasil na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado

Algoritmo 1-3-6-9

http://www.bcb.gov.br/pec/appron/apres/Discurso_Alexandre_Tombini_CAE_15_09_2015.pdf

Caso eu fosse Senador — apesar de eu ser ateu, “Deus me livre!” –, que perguntas eu faria ao Presidente do Banco Central do Brasil?

Considerando que os sábios-tecnocratas não são infalíveis, muito menos oniscientes e onipotentes, eu citaria como exemplos de má política de “stop-and-go” as seguintes “barbeiragens” na política monetária contra um crescimento sustentado:

  1. a elevação dos juros durante a retomada do crescimento de 2004;
  2. a única elevação de taxa de juros no mundo durante o último trimestre de 2008, quando explodiu a crise financeira mundial;
  3. a adoção da “macroeconomia prudencial” excessiva durante o primeiro semestre de 2011, quando levou a cotação do dólar para R$ 1,55 em julho;
  4. o susto com elevação da taxa de inflação mensal por quebra de oferta agrícola, motivando a retomada da tendência de alta da taxa de juros a partir de abril de 2013, depois de apenas seis meses com baixa taxa de juros (7,25% aa).

Considerando que, com a adoção de um algoritmo – o conceito 1, 3, 6, 9 – (veja quadro acima), ficou mais fácil para o investidor de formação universitária saber quanto tem de acumular para manter o padrão de vida atual na aposentadoria. Quem recebe R$ 25.000 / mês (R$ 300.000 ao ano), necessitará de saldo de R$ 2.700.000,00, ou seja, antes da depreciação da moeda nacional, tentava ser “quase milionário em dólares”…

O trabalhador-investidor nessa última faixa de idade está na pré-aposentadoria. Com três milhões de reais em volume de negócios, ele se torna um cliente de Private Banking. Existem apenas 58.000 pessoas nessa situação no Brasil.

Por exemplo, se a taxa Selic está em 14,25% aa, ela equivale a cerca de 1,1% a.m. Neste caso, quem recebe R$ 25.000 / mês (R$ 300.000 ao ano) e possui riqueza financeira em torno de R$ 2.700.000,00, receberá, a cada mês, renda de capital superior a sua renda do trabalho.

Após esses “considerandos”, eu perguntaria ao Presidente do BCB:

  1. Por que os membros do COPOM não assumem, pessoalmente, que têm conflitos de interesses em seus julgamentos e avaliações? Pela faixa de renda dos diretores do Banco Central – certamente, muito acima da renda média anual de R$ 241,8 mil que a DIRPF 2013/12 informa que os servidores do BCB/CVM/SUSEP receberam –, todos eles devem possuir um patrimônio financeiro expressivo, capitalizado com os juros que eles próprios fixam…
  2. Se o capital está empregado em juros, o trabalho está sendo desempregado pelos juros, então, por que não é também atribuído ao COPOM a missão social de combater tanto a inflação, quanto o desemprego, além de evitar crise cambial provocada por déficit no balanço de pagamentos?
  3. Com múltiplas atribuições para o Banco Central do Brasil (responsabilidade por controlar inflação-desemprego-crise cambial), suas atuações não seriam socialmente mais equilibradas e não desequilibradas como têm sido ao favorecer o enriquecimento financeiro das castas dos comerciantes-financistas e dos sábios-tecnocratas?
  4. Uma decisão “técnica” – tipo “certo ou errado” – pode ser tomada por maioria de votos?! Se não é por consenso técnico, é uma decisão política, isto é, coletiva, atendendo a certos interesses (do capital) e não a outros (do trabalho).
  5. A decisão “política” é neutra, imparcial, sábia? Desconfio dessa pretensa neutralidade dos sábios tecnocratas que têm apenas um mapa mental (ortodoxo) sem caminhos alternativos (heterodoxos). Por suas filiações teóricas monolíticas, os membros do COPOM têm controvérsias analíticas entre si? Não sofrem do viés heurístico da auto validação ilusória, pois só conversam com “gente que pensa igual”? Isso não os leva a cometer erros de avaliação?
  6. Pela ausência de “mandato dual” em que as decisões do Banco Central do Brasil seriam orientadas tanto para o combate à inflação como ao desemprego, não há “conflito de interesses” por parte dos fixadores da taxa de juros básica?
  7. Deparamo-nos com a ação discricionária da Autoridade Monetária: dosagem. Não é cômodo para os membros do COPOM, inclusive pessoalmente, adotar a overdose, quando “eles ganham com isso e não arriscam sua vida (profissional) por isso”? Tornaram-se “viciados por suas dependências por overdose de juros (“droga inebriante” que permite ganhar renda sem trabalhar) ou assumem a responsabilidade de terem se tornado os próprios “traficantes” – de influência?
  8. Se tivessem de responder pelo desemprego dos outros com os seus, ao agravarem-no com essa comodidade da política monetária brasileira – “instrumento único (juro) – meta única (inflação)” –, os membros da diretoria do Banco Central do Brasil não seriam mais comedidos como os dirigentes dos demais Bancos Centrais no mundo?

Pelo exame apurado das variações anuais do juro nominal e real, taxa de inflação e salário real, verifica-se que, entre 2002 e junho de 2015, o crescimento médio anual do juro nominal foi mais do que o dobro do IPCA: 13,2% aa contra 6,1% aa.

Desde 2005 até 2014, a taxa de inflação ficou abaixo do teto da meta de 6,5%. Mesmo assim, em todo o período considerado (2003-jun/2015), a política de juro concedeu um juro real médio anual de 6,6% aos investidores. Em contrapartida, as variações do salário real restringiram-se à média anual de 1,3%. Então, foi 5 vezes maior o crescimento real da renda do capital do que o da renda do trabalho!

Em outras palavras, aquilo que Thomas Piketty afirma em relação às economias que ele examinou – “há concentração progressiva de riqueza porque a taxa de crescimento da renda do capital é superior à taxa de crescimento da renda do trabalho (r > g)” –, no caso brasileiro, que ele não examinou, é escandaloso o avanço da desigualdade social devido à política dos mais elevados juros do mundo.

No período 2003-junho/2015, enquanto o “agente representativo” dos capitalistas, acompanhando o juro real em suas aplicações financeiras, elevou seu poder aquisitivo em quase 130%, ou seja, dobrou e somou mais que ¼, o “agente representativo” dos trabalhadores, obtendo, em seus dissídios coletivos, os aumentos do salário médio real, elevou seu poder aquisitivo em apenas 17%!

Senador LINDBERGH FARIAS (Bloco Apoio Governo/PT – RJ) – Sr. Ministro Alexandre Tombini, Presidente do Banco Central, V. Exª sabe que eu aqui, em vários momentos, inscrevi-me para defender o Banco Central, para defender V. Exª, a política monetária do Banco Central, principalmente naquele momento do começo do Governo da Presidenta Dilma, quando o Banco Central viu a desaceleração da economia, antecipou-se e baixou a taxa de juros. Mas, como V. Exª agora está vestindo o figurino de falcão, duro em relação à política monetária, eu quero aqui, neste momento, levantar minhas preocupações sobre essa política monetária, nessa conjuntura de ajuste fiscal, Ministro Tombini.

Se formos ver nos números, nós estamos enxugando gelo. Estamos fazendo um aperto, por um lado, e a nossa dívida está crescendo, pela política monetária! Eu quero entrar aqui nos grande itens do Orçamento. Eu estou comparando o ano passado com os números anualizados até julho deste ano. Por exemplo, gasto com a Previdência: de R$ 431, subiu para R$ 438 – abaixo da inflação; Pessoal: de R$ 241 caiu para R$ 239; transferências de Estados e Municípios: caiu de R$ 230 para R$ 225; Custeio: R$ 254 para R$ 257. Investimento – isto aqui é criminoso: caímos de R$ 85 para R$ 66. Seguro-desemprego e Abono: R$59 a $60. Ou seja, está tudo aqui abaixo da inflação. Qual foi o problema?

E eu vou citar a nota do Banco Central – não estou citando outros dados. Nota do Banco Central de 28 de agosto de 2015: “No acumulado no ano, os juros nominais [deste ano até julho] somam R$ 288,6 bilhões…” Vamos comparar com o mesmo período do ano passado – está aqui na nota do Banco Central: no mesmo período do ano passado, nós gastamos R$ 148 bilhões! Ou seja, um acréscimo de R$ 140 bilhões! Como é que esse ajuste fiscal vai dar certo?

O que aconteceu com nosso déficit? Nosso déficit nominal era de 6,7% (do PIB) no ano passado; passou, no acumulado até julho, para 8,81% (do PIB)! E aí continua a nota do Banco Central. O Banco Central dá os números do déficit nominal. Diz o seguinte: “o déficit nominal no acumulado até julho deste ano foi de R$282 bilhões”. O déficit nominal, no mesmo período do ano passado, R$123 bilhões! Aqui no déficit nominal há uma diferença de R$159 bilhões; desses R$159 bilhões, Senador Blairo, R$140 bilhões foram da política monetária; R$19 bilhões devem ter sido provenientes de diminuição de arrecadação.

Agora eu me impressiono porque parece que esse debate é blindado! Ninguém fala sobre isso! Discute-se aperto, discute-se ajuste, e ninguém mostra o motivo! Há uma blindagem do sistema financeiro e dessa política que beneficia poucos rentistas aqui no País.

Então, eu queria que V. Exª falasse sobre esses números. A verdade nua e crua é a seguinte: a política monetária do Banco Central destruiu qualquer esforço fiscal sério neste País! Não, é sério isso! é um desencontro total! V. Exª é Ministro. Eu sei que o Banco Central tem autoridade operacional; mas V. Exª é Ministro; o esforço fiscal tem que estar articulado com o esforço monetário. E eu entendi a resposta de V. Exª sobre a questão dos swaps cambiais; eu sei que houve a desvalorização da nossa moeda, melhorou a situação das nossas reservas. Vale dizer que isso é uma receita financeira que vai lá para abater a dívida. Isso não exclui a minha pergunta: valeu a pena gastar 84 bilhões em swaps cambiais?

(Soa a campainha.)

O SR. LINDBERGH FARIAS (Bloco Apoio Governo/PT – RJ) – Ministro Tombini, a discussão do ajuste é a seguinte: é 1 bilhão de abono permanência, 2 bilhões ali, nós estamos falando de 84 bi. Eu falo das dificuldades desse ajuste porque existe um ponto lá que é o seguinte: reajuste de servidor público. Adiaram o reajuste para economizar 7 bi. Então, eu faço uma pergunta a V. Exª, porque inclusive esse é um debate que existe aqui. Muita gente fala que cada um ponto de taxa Selic significa 15 bi de impacto fiscal. Outros falam 20 bi. Eu queria que V. Exª me dissesse quanto é isso, porque, pelos meus cálculos, menos de 0,5 ponto da taxa Selic e nós resolvíamos o problema do funcionalismo. Eu sei que aí entra o debate: e a inflação, como está a situação da inflação?

Aqui novamente, Ministro, vamos olhar mês a mês. No mês de janeiro, a primeira causa de inflação: alimentos – batata inglesa, feijão, tomate; segunda: energia elétrica; terceira: tarifa de ônibus urbano intermunicipal. Todo mundo sabe que a taxa Selic não interfere diretamente em preços administrados e em preços de alimentos. Essa inflação de demanda está lá embaixo.

Eu pego o mês de fevereiro também. Primeira causa de inflação: transporte, gasolina, diesel; segunda: alimentação; terceira: habitação e energia elétrica.

Março. Causa primeira de inflação: habitação. Foi mais de 80%. Alimentos, cebola e outros. E por aí vai, Sr. Presidente.

Eu pergunto a V. Sª, nesse caso, se valeu tudo isso. Porque que destruiu qualquer tentativa de ajuste fiscal, isso é um fato. Impactou na economia. Nós estamos vivendo uma recessão deste ano, que alguns falam que está acima de 2,5%, e uma recessão da recessão comprada no próximo ano. Nós estamos tendo aumento de desemprego, diminuição da massa salarial do nosso País, e é aqui onde entro em outro ponto, porque, sinceramente, eu fui autor de um projeto que já foi aprovado nesta Comissão de Assuntos Econômicos e que eu inclusive protocolei para ser discutido na Agenda Brasil: é que me parece que esse mandato do Banco Central apenas sobre estabilidade monetária é um equívoco. O FED norte-americano tem um duplo mandato, e o que quero com meu projeto é colocar um duplo mandato, que é estabilidade monetária, mas também outro olhar na questão do crescimento e da geração de empregos, porque a sensação que eu tenho daqui é que os senhores conversam muito com os analistas do mercado, mas não estão sentindo a vida real desse nosso povo, que está sendo desempregado. Então, vou voltar a defender com toda a carga esse nosso projeto de dupla função do Banco Central.

Por fim, só para encerrar. Impressiona-me aqui alguns Senadores de oposição que falam de frouxidão do Banco Central no ano passado, que falam numa política como se esse ajuste fosse insuficiente, como se quisessem mais cortes. Eu concluo dizendo: não vejo saída para o Brasil nem para retomar o crescimento, nem para resolver o problema fiscal do Brasil sem mudar a política monetária. E quero dizer que, no debate que vamos ter aqui até o final do ano, sobre saídas para esse déficit, nós estamos trabalhando muito a lógica de que tem de haver uma tributação maior para os mais ricos. Estamos martelando muito no projeto que é tributar a distribuição de lucros e dividendos no nosso País. Eu não sei por que o Governo ainda não abraçou essa proposta. Teria um impacto fiscal de 50 bilhões.

Agora, Ministro, depois da vinda ao Brasil de Thomas Piketty, autor do O Capital: no século XXI, reclamando da ausência de dados disponíveis pela Receita Federal, a Receita Federal disponibilizou esses dados, e o que a gente vê no Brasil é o seguinte: os 10% mais pobres pagam 32% dos seus rendimentos com impostos; os 10% mais ricos, 22%. Agora, o problema está no 0,5% muito rico, que paga apenas 6%. E essas pessoas, Sr. Ministro… Quando o funcionário público ganha R$ 5 mil, ele paga uma tabela de Imposto de Renda de 27,5%. Quando um empresário que recebe R$ 300 mil recebe a título de distribuição de lucros e dividendos, não paga nada. Paga zero.

Então, esse é um projeto que queremos colocar nesta discussão, no momento em que estamos procurando alternativas para o Orçamento.

Eu peço, Sr. Ministro, desculpas se fui duro, mas quem está falando é um Senador preocupado com a situação deste País, preocupado com a recessão deste e do próximo ano. Parece-me que falta essa visão mais coordenada por parte do Banco Central tanto em relação ao crescimento econômico quanto em relação à situação fiscal do País.

Muito obrigado.

 

—-

O SR. ALEXANDRE TOMBINI – (…)

Senador Lindbergh, obrigado pelas palavras. As suas considerações são, como sempre, muito bem colocadas, específicas. Anteriormente, não sei se V. Exª estava aqui, eu ilustrei aqui uma situação em que o Banco Central não mexe na taxa de juros, no entanto, as taxas sobem duzentos pontos.

Eu queria ilustrar com aquele exemplo, que está no material de V. Exªs, dizendo que, sim, o Banco Central tem um impacto sobre, digamos, o custo financeiro da dívida, mas, naturalmente, não há espaço para voluntarismo, no sentido de, digamos, artificialmente colocar essa taxa onde achamos que poderia ser interessante do ponto de vista do financiamento do Tesouro, porque, ao fim e ao cabo, o Tesouro vai se financiar ao longo de um período mais largo do que uma taxa de overnight e esse financiamento se dará a taxa de mercado.

Se o mercado entender que uma política monetária aumenta o risco na economia, ele vai cobrar a taxa de juros. O Tesouro pode não sancionar essa taxa de juros, mas aí vai sobrar um tanto de liquidez na economia, que vai bater no dólar, vai bater na inflação; enfim, nós sabemos como isso opera.

Mas, sem dúvida, eu mencionava anteriormente que as taxas que nós praticamos hoje não sei para que lado vão no curto prazo. Não vou aqui…O Copom se reúne em fins de outubro; depois, se reúne no final de novembro, enfim. Mas eu queria dizer que essas não são taxas de médio e longo prazo para o Brasil. Essas são taxas, neste momento.

E de novo: nós não estamos aqui preocupados com a inflação de um item específico. V. Exª mencionava alguns itens, uma proliferação de itens. Mas, desde o início dessa, digamos, retomada do ciclo de aperto, o que nós estamos buscando fazer é evitar os efeitos ou mitigar os efeitos de segunda hora, da segunda rodada desse aumento de preço.

É fato que uma grande parte tem a ver com preço administrado. Mas, obviamente, se o Banco Central, o Governo como um todo mais o Banco Central não tomar conta dessas possíveis repercussões tomar conta dessas possíveis repercussões, nós teremos essa inflação se propagando no tempo e, então, quem vai perder mais é o assalariado vendo o seu poder de compra erodido.

Então, o que nós estamos fazendo é fixar o nosso ponto de convergência da inflação não neste ano, que seria uma política realmente extremamente agressiva para trazer a inflação para o centro da meta neste ano. Desde que nós aceitamos esse desafio em novembro do ano passado, o Banco Central mencionou que queria trazer a inflação para a meta em dezembro de 2016, ou seja, um período de 24 meses de convergência. Bom, houve um ajuste de preços administrados significativo. Houve uma depreciação da moeda expressiva. Então, esses choques estão sendo – digamos – mitigados com o efeito da política monetária.

Mas queria dizer também que, quanto às condições monetárias, por outro lado, essa depreciação da moeda nacional é um aspecto de expansão da política macroeconômica. O resultado é de expansão. Ou seja, o comércio nacional realmente não está crescendo como já cresceu no passado, mas é um resultado que impacta favoravelmente às exportações e – digamos – inibe as importações. Ou seja, do ponto de vista da demanda global da economia, ele tem expansão. Mas, para isso ser possível, essa mudança de preço relativo tem que ser duradoura e, para ser duradoura depois de uma depreciação pronunciada da taxa de câmbio nominal, nós temos que segurar a inflação. Se não o fizermos, vai ficar o câmbio correndo atrás da inflação. Então, o que está sendo feito hoje é mitigar os efeitos de segunda ordem, esses grandes choque num processo de ajustamento num período dilatado – 24 meses, e não 12 meses, como reza a cartilha. Porém naturalmente nós vamos seguir a cartilha, respondendo ao Senador José Medeiros. Isso está sendo considerado.

Quanto à questão da receita e despesa financeira, é sempre um número interessante. Comparando – não diria alhos com bugalhos – receita financeira com despesa primária, seria totalmente imprudente se nós começássemos a misturar esses canais. Seria realmente uma criatividade. Ou seja, nós estaríamos usando uma receita financeira para cobrir uma despesa obrigatória ou que se perpetua ao longo do tempo. O que aconteceria se o preço do ativo virasse contra nós? Nós temos que fazer um brutal ajuste. Então, receita financeira para bater dívida, para cuidar da parte financeira.

Mas o que eu queria dizer é que, de fato, aqueles números que V. Exª citou são números precisos – não vou questioná-los; são nossos números. Do ponto de vista da validade do ajuste primário… Ajuste primário é porque você tem mais controle sobre receita e despesa primárias, porque você teria, por exemplo, que controlar taxa de câmbio, de juros, prêmio de risco. Isso não tem controle. Por mais que você pense que às vezes você tem controle, você não o tem. Isso é definido pelo mercado, nem no mercado local, mas internacional, que tem condições de afetar isso.

Então, o instrumento de ajuste é o que tem mais controlabilidade por parte do Governo. Agora, em relação ao agregado que você escolhe para ajustar esses instrumentos para dar sustentabilidade, para pôr em trajetória declinante esse agregado fiscal, a pessoa usou, por muito tempo, a dívida líquida, que nem mexeu muito. Geraram questionamentos sobre os ativos que eram usados para abater da dívida bruta. Então, passa para o extrema, usa só a dívida bruta. Mas eu queria lembrar que o conceito que essa agência usa é dívida bruta menos a disponibilidade do Tesouro no Banco Central, por exemplo, onde entram todas essas valorizações. Por exemplo, reservas internacionais são um ativo que todo o mundo conhece, têm transparência, todo o mundo sabe como é que aplica, têm segurança, liquidez e lucratividade.

Então, obviamente que esse primário é importante para estabelecer esse agregado, não necessariamente a dívida bruta, que está sofrendo influência de variáveis que estão mexendo muito no curto prazo, mas também nosso ativo está mexendo muito em função dessas variáveis. Portanto, primeiro, não dá para amarrar a despesa primária com receita financeira. Seria um desastre. É muito bom hoje. Amanhã pode ser um desastre. Segundo,nós temos que escolher os nossos instrumentos de política fiscal, aqueles que nós conseguimos minimamente controlar e, terceiro, o agregado que deve ser utilizado é um agregado que faça sentido para os mercados, para aqueles que financiam a dívida do Governo. Qual é um agregado faz sentido? Por exemplo, esse que é utilizado por essas agências. Pega a dívida bruta e retira um ativo que todo mundo sabe que tem liquidez. Por exemplo, a disponibilidade do Tesouro no Banco Central, a disponibilidade em caixa do Tesouro, onde entram os resultados da reserva, os resultados Swap. Enfim, ou dívida bruta menos reservas internacionais, que é um ativo que todo mundo conhece, sabe medir. Enfim, tem transparência total.

Então, eu queria dizer que as suas colocações são, certamente, importantes. Nós temos preocupação, sim. Acho que isso vai refletir na inflação; nós vamos abrir um espaço lá na frente para retomar níveis mais de médio e longo prazo dessa variável, que é o nosso instrumento, e acho que esse é um instrumento para o Banco Central, um instrumento que nós utilizamos para a estabilidade monetária e financeira.

EM RESUMO (Eduardo Campos e Alex Ribeiro, Valor, 16/09/15):

Os custos fiscais das políticas monetária e cambial ficaram sob fogo cerrado de parlamentares da base aliada e da oposição durante depoimento ontem do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado.

Vários senadores questionaram o prejuízo de R$ 89,515 bilhões no acumulado do ano até 4 de setembro nas operações de swap cambial. Da base aliada, o senador Lindberg Farias (PT-RJ) disse que Tombini está com o “figurino de falcão” e que “a politica monetária está matando o ajuste fiscal” porque provocou uma alta de R$ 140 bilhões nos encargos da dívida pública neste ano até julho, comparado com igual período de 2014.

O senador José Serra (PSDB-SP), da oposição, disse que o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC deveria ter parado de subir os juros há algum tempo devido a um quadro de dominância fiscal, quando a penúria das contas do governo é tão grande que apertos monetários são ineficazes contra a inflação.

O presidente do BC rebateu as críticas dos senadores, sinalizando que não vê constrangimentos fiscais para a continuidade das políticas monetária e cambial.

Tombini repetiu que as perdas com “swaps” cambiais são mais do que compensados pelo ganhos das reservas cambiais — e argumentou que, neste ano, as operações estão tendo um impacto positivo num dos principais indicadores de solvência observados por agências de classsificação de risco, como a Standard & Poor’s (S&P), que rebaixou o Brasil na semana passada.

Segundo ele, a S&P usa um conceito que representa a dívida bruta menos os valores mantidos pelo Tesouro na conta única. O BC, disse ele, depositou R$ 83,5 bilhões na conta única referente ao lucro apurado no seu balanço, produzido pelos ganhos cambiais com as reservas internacionais.

Sobre os impactos fiscais da política monetária, Tombini argumentou que a falta de pulso firme do BC para controlar a inflação aumentaria os custos de captação do Tesouro. “Não há espaço para voluntarismo para colocar a taxa de juros onde consideramos conveniente para o Tesouro”, disse mais de uma vez.

Tombini pontuou que, depois que o BC parou de subir a Selic, em 30 de julho de 2015, a taxa longa de juros subiu dois pontos percentuais, puxadas pela incertezas no quadro fiscal. “Os custos de financiamento do Tesouro subiram sem que o BC subisse os juros”, disse. Segundo ele, se por hipótese o BC baixasse a taxa básica para 7% ao ano, os custos de financiamento do Tesouro disparariam.

Tombini disse também que o quadro brasileiro, hoje, claramente não é de dominância fiscal, como teria havido em 2002. Naquele período, disse, um bom pedaço da dívida pública estava vinculada ao dólar. Nesse ambiente, altas de juros levavam à deterioração da percepção fiscal, que provocavam depreciação cambial e realimentavam o aumento da dívida, que parcialmente era vinculada ao dólar. E o dólar voltava a subir com a deterioração fiscal, pressionando a inflação e tornando inócuo o aperto monetário. “Hoje, desde 2007, o Brasil é credor em dólar”, afirmou Tombini.

Ele também disse que, num ambiente em que a inflação está em 9% ou um pouco mais, não se pode falar em dominância fiscal. Isso porque o deflator do Produto Interno Bruto (PIB) é fortemente positivo, fazendo com que o PIB nominal usado no cálculo do endividamento suba cerca de 7%. “É difícil se falar de dominância fiscal num ambiente desses.”

Segundo Tombini, “estamos num ajuste que não é cor de rosa”, mas O Mercado já vê queda da inflação no começo de 2016.

Sobre agências de rating, Tombini disse que elas erraram no passado, mas que o país tem de se mobilizar para evitar rebaixamento de mais de uma agência, pois isso teria impacto sobre investimentos institucionais.

No lado fiscal, Tombini reforçou que mesmo que o ajuste não aconteça na velocidade antecipada as medidas são “fundamentais” e que o BC usa um superávit primário de 0,7% do PIB para fazer suas projeções.

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