Estudos de Jon Elster sobre Racionalidade e Irracionalidade

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A principal ideia que Jon Elster defende no livro Ulisses e as Sereias: Estudos sobre Racionalidade e Irracionalidade, publicado originalmente em inglês no ano de 1979, é a seguinte: a racionalidade especificamente humana se caracteriza pela capacidade de relacionar-se com o futuro, em comparação e a míope e gradual perspectiva produzida pela seleção natural.

Ele apresenta também a ideia de conduta imperfeitamente racional, cuja necessidade surge porque a falta de força da vontade pode impedir-nos de utilizar nossa capacidade de conduzirmo-nos de uma maneira perfeitamente racional. A ideia de “atar a si mesmo”, como fez Ulisses, “para não cair no canto das sereias”, é um conceito fundamental de Elster. Ele analisa também a estratégia distinta de “apostas indiretas privadas”.

Elster avalia a capacidade da Teoria do Agente Racional em comparação com os enfoques orientados por normas ou estruturas sociais. Ele chega à conclusão que essa Teoria da Racionalidade tem prioridade lógica sobre suas concorrentes, ainda que não seja, necessariamente, melhor para analisar cada caso em particular.

Ele trata de explicar como é possível interpretar crenças contraditórias e desejos conflitivos como significativos ainda que sejam irracionais. Em outras palavras, há uma sequência descendente de:

  1. racionalidade perfeita,
  2. racionalidade imperfeita,
  3. racionalidade problemática e
  4. irracionalidade.

Elster resume as ideias que analisa como constituintes de uma Filosofia da Ciência:

  1. Existem basicamente três modos de explicação em Ciência:
    1. a causal;
    2. a funcional; e
    3. a intencional.
  2. Todas as Ciências utilizam a explicação causal.
  3. As Ciências Físicas só empregam a explicação causal — os princípios de menor tempo e outras formulações de variação não são mais que instrumentos analíticos, sem nenhum poder explicativo.
  4. Na Biologia, não há lugar para a explicação intencional.
  5. Nas Ciências Sociais, não há lugar para a explicação funcional.
  6. Na Ciência Natural, pode fazer-se uma distinção entre a causalidade subfuncional (mutações, envelhecimento) e a causalidade suprafuncional (efeitos de derrame, benéficos ou nocivos, das adaptações individuais).
  7. Nas Ciências Sociais, pode-se estabelecer uma distinção similar entre a causalidade subintencional e a causalidade supraintecional. A primeira se refere aos processos causais que ocorrem dentro do indivíduo, formando ou pervertendo suas intenções. A última se refere à interação causal entre indivíduos.
  8. Deve-se estudar a conduta animal e humana com as noções de função e de intenção como ideias-chave reguladoras. Nem toda conduta animal é funcional, e nem toda conduta humana é racional ou intencional, porém existe sim uma suposição bem fundada de que, tipicamente, é isto o que ocorre.

Elster afirma que ainda que a seleção natural possa estimular até certo ponto a intencionalidade, existem diferenças críticas na própria essência da adaptação animal e humana. A capacidade da maximização global é um traço especificamente humano que não se encontra na seleção natural. Considera que a conduta estratégica é uma capacidade exclusivamente humana.

O argumento dele é que, nas sociedades humanas, não há nenhum mecanismo geral correspondente à seleção natural. Ele que nos permitiria inferir que as funções latentes de uma estrutura possam manter por obra da retroalimentação, de forma característica, a própria estrutura.

No entanto, ele não nega que a investigação interdisciplinar, que reúna os recursos empíricos e teóricos da Biologia e da Sociologia possa ser realmente útil. Por exemplo, na evolução humana, a estrutura social é parte do meio que determina que uma dada mutação seja benéfica ou nociva. Em outro nível, os componentes biológicos da linguagem, inteligência ou enfermidade mental sem a importância relativa da natureza e da cultura seguem sendo matéria de controvérsia.

O argumento dele contra a interdisciplinaridade só se dirige à transferência de paradigmas inteiros: ao recurso das intenções em Biologia e das funções em Sociologia.

Ele não nega que possam encontrar-se casos em que a adaptação biológica conduz a um desvio dos máximos locais e ao alcance dos máximos globais, nem que a explicação funcional às vezes possa ser útil em Sociologia. Elster se limita a questionar se:

  1. não pode haver uma suposição geral de que os máximos globais serão alcançados por seleção natural, e
  2. as funções latentes não explicam de forma característica a persistência das estruturas sociais que mostram essas funções.

Elster não quer ser interpretado como antirreducionista, pelo menos, não como membro da extrema variedade daqueles que postulam uma brecha insanável entre a adaptação animal e a adaptação humana. Crê que a capacidade humana de maximização global deve ser explicada como resultado da maximização local de ascensão gradativa na seleção natural. Neste sentido, ele se reconhece como um reducionista, sendo o objeto da redução a capacidade humana de comportar-se dessa maneira.

Crê que a conduta racional deve reduzir-se a dois passos:

  • primeiro, submetendo-a abaixo da capacidade geral de resolver problemas racionalmente;
  • segundo, explicando essa capacidade geral pelo funcionamento da seleção natural.

Desde logo, adverte que não está negando a utilidade ocasional das analogias biológicas como fonte de novas hipóteses. Porém, nega que as analogias biológicas devam ter uma categoria privilegiada. As ideias devem ser julgadas por sua descendência não por seus antepassados.

Elster afirma que a seleção natural sempre atua como se o meio fosse paramétrico, ainda que, na realidade, ele seja estratégico, isto apesar do Homem ser capaz de levar em conta a natureza estratégica do contexto. O Homem, em contraste com a seleção natural, é capaz de conceber a solução de jogos em que nenhum jogador tenha uma estratégia predominante.

O agente parametricamente racional trata seu meio ambiente como uma constante, apesar que o agente estrategicamente racional leva em conta o fato que o meio está integrado por outros agentes, e que ele é parte de seu meio, e que os demais sabem disso, etc. Em uma comunidade de agentes parametricamente racionais, cada qual acreditará:

  • que é o único cuja conduta é variável, e
  • que todos os demais são parâmetros para seu problema de decisões.

Falando sobre essas crenças incongruentes, os agentes geram consequências não intencionais e perversas do tipo analisado pelos sociólogos. Tal conduta é irracional sob um ponto de vista coletivo, ainda que, individualmente, cada agente satisfaça as condições de racionalidade.

No modo de interação estratégico ou da Teoria dos Jogos, cada agente deve levar em conta as intenções de todos os outros, incluindo o fato de que as intenções deles se baseiam em suas expectativas concernentes às suas próprias.

Durante longo tempo se acreditou que isso implicava em uma regressão infinita, porém com frequência não ocorre isso. Utilizando o conceito de um ponto de equilíbrio, é possível anular a regressão infinita e chegar a um ponto de ação unicamente definível e previsível, que será escolhido por Homens racionais.

Sob o ponto de vista de Elster, o fato decisivo é que os agentes humanos não só tomam suas decisões com base em suas expectativas do futuro, como também com base em sua expectativas acerca das expectativas dos demais agentes. Cada indivíduo reflete a totalidade sob seu ponto de vista.

A transparência e a simetria dessa interação fazem que o destino dos agentes esteja em suas próprias mãos, apesar que uma comunidade de agentes parametricamente racionais possa estar a mercês de forças causais que os iludiram e que frustraram perpetuamente seus planos. Seja como for, os agentes estratégicos lograrão escapar do que Elster chama de forças causais supraintencionais. A causalidade subintencional em grande parte é biológica, ou seja, resultante de instintos básicos.

Leia maishttp://www.college-de-france.fr/site/jon-elster/course-2008-01-10-15h00.htm

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