O Paradoxo e a Insensatez (por José Luís Fiori)

Pilhas de moedas

“Uma vez me perguntaram se o Estado brasileiro é muito grande. Respondi assim: “Eu vou lhe dar o telefone da minha empregada, porque você está perguntando isto para mim, um cara que fez pós­ doutorado, trabalha num lugar com ar­condicionado, com vista para o Cristo Redentor. Eu não dependo em nada do Estado, com exceção de segurança. Nesse condomínio social, eu moro na cobertura. Você tem que perguntar a quem precisa do Estado”.

Luiz G. Schymura, “Não foi por decisão de Dilma que o gasto cresceu”,

Duas coisas ficaram mais claras nas últimas semanas, com relação à tal da “crise brasileira“:

  • de um lado, o despudor golpista, e
  • de outro, a natureza ultraliberal do seu projeto para o Brasil.

Do ponto de vista político, ficou claro que dá absolutamente no mesmo o motivo dos que propõem um impeachment, o fundamental é sua decisão prévia de derrubar uma presidente da República eleita por 54,5 milhões de brasileiros, há menos de um ano, o que caracteriza um projeto claramente golpista e antidemocrático, e o que pior, conduzido por lideranças medíocres e de discutível estatura moral.

Talvez, por isto mesmo, nas últimas semanas, a imprensa escalou um grupo expressivo de economistas liberais para formular as ideias e projetos do que seria o governo nascido do golpe. Sem nenhuma surpresa: quase todos repetem as mesmas fórmulas, com distintas linguagens. Todos consideram que:

  1. é preciso primeiro resolver a “crise política”, para depois poder resolver a “crise econômica”; e
  2. uma vez “resolvida” a crise política, todos propõem a mesma coisa, em síntese: “menos Estado e menos política”.

Não interessa muito o detalhamento aqui das suas sugestões técnicas. O que importa é que suas premissas e conclusões são as mesmas que a utopia liberal repete desde o século XVIII, sem jamais alcançá-las ou comprová- las, como é o caso de sua crença econômica:

  1. no “individualismo eficiente”,
  2. na superioridade dos “mercados desregulados”,
  3. na existência de mercados “competitivos globais”, e
  4. na sua fé cega na necessidade e possibilidade de despolitizar e reduzir ao mínimo a intervenção do Estado na vida econômica.
  • É muito difícil para estes ideólogos que sonham com o “limbo” entender que não existe vida econômica sem política e sem Estado.
  • É muito difícil para eles compreender ou aceitar que as duas “crises brasileiras” são duas faces de um conjunto de conflitos e disputas econômicas cruzadas, cuja solução tem que passar inevitavelmente pela política e pelo Estado.

Não se trata de uma disputa que possa ser resolvida através de uma fórmula técnica de validez universal. Por isto, é uma falácia dizer que existe uma luta e uma incompatibilidade entre:

  • a “aritmética econômica” e
  • o “voluntarismo político”.

Existem várias “aritméticas econômicas” para explicar um mesmo déficit fiscal, por exemplo, todas só parcialmente verdadeiras. Parece muito difícil para os economistas em geral, e em particular para os economistas liberais, aceitarem que:

  1. a economia envolve relações sociais de poder,
  2. a economia é também uma estratégia de luta pelo poder do Estado, que pode estar mais voltado para o “pessoal da cobertura”, mas também pode ser inclinado na direção dos menos favorecidos pelas alturas.

Agora bem, na conjuntura atual, como entender o encontro e a colaboração destes economistas liberais com os políticos golpistas?

O francês Pierre Rosanvallon (1), dá uma pista, ao fazer uma anátomo-patologia lógica do liberalismo da “escola fisiocrática” francesa, liderada por François Quesnay. Ela parte da proposta fisiocrático-liberal de redução radical da politica à economia e da transformação de todos os governos em máquinas puramente administrativas e despolitizadas, fiéis à ordem natural dos mercados. E mostra como e por que este projeto de despolitização radical da economia e do Estado leva à necessidade implacável de um “tirano” ou “déspota esclarecido” que

  1. entenda a natureza nefasta da política e do Estado,
  2. se mantenha “neutro”, e
  3. promova a supressão despótica da política, criando as condições indispensáveis para a realização da “grande utopia liberal”, dos mercados livres e desregulados.

Foi o que Rosanvallon chamou de “paradoxo fisiocrata“, ou seja: a defesa da necessidade de um “tirano liberal”, que “adormecesse” as paixões e os interesses políticos, e se possível, os eliminasse.

No século XX, a experiência mais conhecida deste projeto ultraliberal foi a da ditadura do Sr. Augusto Pinochet, no Chile, que foi chamada pelo economista americano Paul Samuelson de “fascismo de mercado“. Pinochet foi – por excelência – a figura do “tirano” sonhado pelos fisiocratas: primitivo, quase troglodita, dedicou-se quase inteiramente à eliminação dos seus adversários e de toda a atividade politica dissidente, e entregou o governo de fato a um grupo de economistas ultraliberais que puderam fazer o que quiseram durante quase duas décadas.

No Brasil não faltam – neste momento – os candidatos com as mesmas características e os economistas sempre rápidos em propor e dispostos a levar até as últimas consequências o seu projeto de “redução radical do Estado”, e se for possível, de toda atividade política capaz de perturbar a tranquilidade de sua “aritmética econômica”.

Neste sentido, não está errado dizer que os dois lados deste mesmo projeto são cúmplices e compartem a mesma e gigantesca insensatez, ao supor que

  1. seu projeto golpista e ultraliberal não encontrará resistência, e
  2. no limite, não provocará uma rebelião ou enfrentamento civil, de grandes proporções, como nunca houve antes no Brasil.

Porque não é necessário dizer que tanto os líderes golpistas quanto seus economistas de plantão olham para o mundo como se ele fosse uma “enorme cobertura”, segundo a tipologia sugerida na epígrafe, pelo Sr. Luiz Schymura. Um raro economista liberal, em entender a natureza contraditória dos mercados, e natureza democrática do atual déficit público brasileiro.

(1) P. Rosanvallon, Le liberalisme économique. Histoire de l’idée de marché, Editions Seuil, Paris, 1988

 

Líder do MBL Quem é esta triste figurinha acima?!

Ele passou no vestibular e agora poderia estar concluindo o primeiro ano de Economia na Universidade Federal do ABC. (!) Mas abandonou o projeto e, desde o ano passado, dedica-se integralmente à causa anti-Dilma Rousseff.

Kim Kataguiri, 19 anos, é um dos líderes da direita através do MBL (Movimento Brasil Livre), entidade criada no fim de 2014 para difundir ideias liberais e, principalmente, combater o PT.

Inocente útil?! Não, estado, condição ou característica de quem é boçal, revelando ignorância, estupidez, falta de cumprimento do dever de estudar não tem perdão. Ele, em entrevista (FSP, 17/09/15), revela comportamento, atos ou ditos próprios de boçal. Este é todo aquele que é falto de cultura, ignorante, rude, tosco. Por extensão do termo, é aquele que é desprovido de inteligência, sensibilidade, sentimentos humanos; besta, estúpido, tapado.

No passado, o termo “boçal” era referente a escravo negro recém-chegado da África, que ainda não falava o português. Este sim era um inocente útil.

Na entrevista, ele afirma como, com apenas 19 anos, se tornou “líder da direita brasileira“: frequentando fóruns e palestras de institutos liberais (sic).

Que institutos são esses?

Instituto Mises. Instituto Liberal. Instituto Millenium.

Pergunta que não quer calar: quem financia estes ricos “institutos liberais” que se dedicam, diuturnamente, a formar quadros direitistas para golpear a democracia brasileira?

Leia maisInstituto Millenium e Golpe Demo-midiático

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