Economia Como Objeto Complexo

Otimização de Sistemas ComplexosOrlando Manuel da Costa Gomes no capítulo Economia Como Objeto Complexo do livro Modelagem de Sistemas Complexos para Políticas Públicas, cujos editores são Bernardo Alves Furtado, Patrícia A. M. Sakowski, Marina H. Tóvolli (Brasília : IPEA, 2015), inicia-o dizendo que todos os dias, milhões de empresas e milhões de famílias em todo o mundo selecionam, entre muitas opções disponíveis, as ações a serem desenvolvidas que permitam melhor cumprir os respetivos objetivos de natureza econômica.

Qualquer tentativa de compreender e explicar um tão amplo e grandemente interligado sistema de relações humanas é uma tarefa desafiante que a Ciência Econômica vem perseguindo desde as suas origens no século XVIII.

A racionalidade perfeita é o pressuposto central da Ciência Econômica. Este é, efetivamente, o elemento que permite distinguir este campo científico de qualquer outro igualmente associado ao comportamento do ser humano ou de quaisquer outros organismos vivos. Os agentes econômicos são racionais nas suas decisões e também na forma como preveem o futuro.

O Homo-Economicus formula expectativas racionais, no sentido em que esta entidade é capaz de utilizar eficientemente toda a informação disponível de modo a evitar incorrer em erros sistemáticos quando prevê o futuro. Tomar como principal premissa da análise econômica a capacidade ilimitada dos agentes de apreender a realidade pode ser, de algum modo, interpretada como simplista. Contudo, é precisamente esta premissa que tem guiado a Ciência Econômica nas últimas décadas, permitindo-lhe abordar muitas questões importantes e paradoxais que emergem da observação empírica.

Há um corolário imediato do pressuposto da racionalidade: agentes que perseguem idênticos objetivos irão atuar exatamente da mesma forma e, consequentemente, a economia agregada pode ser percebida através da análise do comportamento de um agente representativo:

  1. a empresa representativa irá maximizar os seus lucros dadas as receitas esperadas e a sua estrutura de custos;
  2. a família representativa irá formular um plano de consumo de modo a maximizar a utilidade intertemporal;
  • a agência governamental representativa irá estabelecer objetivos de política e irá usar os recursos disponíveis para os atingir.

O paradigma do agente representativo serviu como a principal referência para uma geração inteira de economistas brilhantes que lançaram as ideias que constituem hoje os fundamentos da análise econômica ortodoxa. Neste grupo de cientistas, podemos incluir o nome de importantes e influentes pensadores, como Paul Samuelson, John Hicks, Kenneth Arrow, Gerard Debreu, Franco Modigliani, Robert Solow, Milton Friedman e Robert Lucas.

A Ciência Econômica progrediu substancialmente: mecanismos sofisticados da economia real foram reduzidos a simples modelos matemáticos, que, por sua vez, se tornaram ferramentas poderosas para abordar muitos temas econômicos relevantes.

O principal contributo da Ciência Econômica moderna foi, assim:

  1. a sua habilidade em explicar como um agente típico, dotado de recursos materiais e de conhecimentos, é capaz de avaliar os custos e benefícios de qualquer decisão e de escolher a opção que envolve um menor custo de oportunidade;
  2. sabendo como esse agente efetivamente age, podemos então extrapolar tal comportamento para a economia global.

Por conseguinte, ao tomar agentes completamente racionais com caraterísticas idênticas, a Ciência Econômica teria aparentemente descoberto uma fórmula adequada para perceber muitos dos fenômenos relevantes observáveis no mundo real.

Apesar dos importantes progressos alcançados pela Ciência Econômica no passado, por esta altura é relativamente consensual que é necessário começar a olhar para além da estrutura de análise que toma um agente representativo completamente racional. Alguns autores, como Colander, Holt e Rosser (2004), Gatti, Gaffeo e Gallegati (2010), Holt, Rosser e Colander (2011) e Kirman (2012), acreditam que uma nova era de pensamento econômico está emergindo; uma era onde a ciência econômica neoclássica convencional começa a dar lugar a uma interpretação do comportamento humano na qual há espaço para a diversidade, a heterogeneidade, a adaptabilidade e a complexidade.

A economia deverá ser interpretada como um Sistema Complexo, um sistema onde agentes com diferentes capacidades, diferentes dotações de recursos e diferentes preferências interagem para gerar um resultado que não é conhecido a priori e que é consequência direta do modo como o processo de interação se desenrola.

Neste capítulo 8 do livro Modelagem de Sistemas Complexos para Políticas Públicas, as razões pelas quais devemos interpretar a economia como um sistema complexo são dissecadas. É demonstrado que:

  1. a Ciência Econômica está afetando uma transição gradual para uma Ciência de Complexidade,
  2. os eventos macroeconômicos são necessariamente o resultado da forma como as unidades micro interagem em um nível local e
  3. uma abordagem de complexidade é suficientemente flexível para explicar muitos fenômenos agregados de relevo, como, por exemplo, longos períodos de afastamento das principais variáveis macro relativamente aos respectivos valores de equilíbrio.

Continua no próximo post.

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