Olhar Estrangeiro: Anatomia da Crise Financeira provocada pelo Golpismo Parlamentar

Cotações cambiais 2002-2015Dólar 2007-2015 Especulação cambial 23.09.2015BCB X dólarBTC e IDE 2014-15

Desde que se armou o Projeto Golpista Parlamentar, apostando no “quanto pior, melhor”, este obteve o apoio ideológico dos seus aliados, economistas oportunistas. Estes  reapresentaram o Projeto Ultraliberal, no qual seriam os tecnocratas alheios à soberania nacional e ao interesse coletivo, privatizando o que restou do patrimônio público e implantando o individualismo sem altruísmo, O Mercado entrou em polvorosa!

Ele está em atividade intensa. Essa azáfama leva à grande agitação ou confusão. O tumulto não permite precificação de acordo com fundamentos reais. Nessa especulação frenética, os insiders profissionais raspam os outsiders amadores…

Mohamed A. El­Erian (Bloomberg, 24/09/15) diagnostica a anatomia do desastre financeiro no Brasil, vista de fora. Reproduzo seu artigo abaixo para o exame de como os observadores e/ou porta-vozes dos investidores estrangeiros estão vendo o País.

“O Brasil está passando por uma repetição do tipo de desarticulação financeira de um mercado emergente que muitos esperavam que tivesse sido deixada para trás na década de 80 e começo dos anos 2000. Se não for reprimido por um “circuit breaker” — referência ao mecanismo das bolsas que interrompe as operações em momentos de oscilações muito bruscas –, esse ciclo autossustentável poderá ganhar força, expondo o país a choques econômicos que afetarão de maneira particularmente dura os pobres e contribuirão para a disfunção política.Em resposta a uma saída de recursos dos fundos de investimentos e a aceleração da fuga de capital, os três principais mercados financeiros do Brasil estão presos em um processo de reforço mútuo de destruição de valor. O resultado é uma combinação terrível de grande desvalorização cambial e aumento de custos de empréstimos externos e do juro doméstico.

Essas tendências exacerbam a ameaça de dois ciclos viciosos adicionais. O primeiro liga o governo ao setor corporativo. Quanto mais os bônus soberanos e a moeda são pressionados, maior a ameaça de contágio para o setor corporativo.

O rebaixamento da nota de crédito do Brasil ao grau especulativo pela S&P já reduziu as classificações de empresas do país, aumentando os custos dos empréstimos a refinanciamentos de forma generalizada. Enquanto isso, o escândalo da Petrobras, a maior empresa do país, desperta temores de que o Estado poderá ser forçado a intervir com um socorro financeiro, contribuindo para o desconforto com a situação financeira do país.

O segundo ciclo liga o setor financeiro às perspectivas econômicas. Quanto mais os mercados financeiros forem perturbados, maior o risco para a economia como um todo, que já está lutando contra uma recessão e a inflação elevada. Esse ciclo poderá levar à disparada dos custos de produção, queda da atividade, aumento do desemprego, queda dos salários reais, diminuição do consumo e aceleração da fuga de capital.

Quando não se faz nada, esses tipos de ligações se alimentam de si mesmos, expondo o país ao que os economistas chamam de um “equilíbrio múltiplo“: o risco de em vez de reverter para a média (encontrar-se o caminho de volta à estabilidade), a economia do Brasil se deteriorar ainda mais, aumentando o risco do deslize para um resultado ainda pior.

O Brasil precisa desesperadamente de um “circuit breaker” para eliminar a crescente ameaça de consequências negativas em cascata. A melhor maneira de conseguir isso seria através de uma série de decisões oficiais definidas pelo governo e aprovadas pelo Congresso, que:

  1. restabeleçam a dinâmica de crescimento,
  2. contenham a deterioração fiscal e
  3. revertam as crescentes pressões inflacionárias.

Tais medidas levariam a uma normalização bem rápida dos mercados financeiros, resultando em uma valorização cambial e uma redução notável dos custos dos empréstimos, doméstica e internacionalmente. Com isso em mente, o governo submeteu uma série de propostas fiscais ao Congresso Nacional. Infelizmente, a disfunção política do país torna as perspectivas de uma aprovação plena nada animadoras.

A história nos mostra que quando um país adia a implementação de um “circuit breaker” doméstico, essa função em potencial é transferida – pelo menos parcialmente – para atores externos, incluindo organizações multilaterais lideradas pelo FMI. E quanto mais demorar para essa combinação de medidas externas e domésticas se aglutinar, mais duras terão de ser as reformas a serem aceitas pelos líderes políticos e a população do país.

Sem a rápida implementação de “circuit breakers”, uma estabilização das condições financeiras do Brasil dependerá do reengajamento em grande escala do capital externo e do retorno do capital em fuga. Isso não deve acontecer enquanto os preços dos ativos brasileiros e o valor de sua moeda despencarem para níveis ainda menores e isso ofereça a investidores estrangeiros e domésticos retornos ajustados aos riscos que sejam interessantes. Esta foi a situação no quarto trimestre de 2002, quando tais circunstâncias quase provocaram um caro “default” do país.

Para aqueles que acompanham de perto o Brasil, o momento evoca esperança e ansiedade. A esperança é baseada no conhecimento de que com uma melhor governança, não seria preciso muita coisa para recuperar essa economia promissora. A ansiedade envolve a possibilidade de mais uma vez a classe política deixar de servir os cidadãos de maneira adequada, provocando sofrimento para os segmentos mais vulneráveis da população.”

Variações cambiais trimestresDisparada do riscoPIB per capita em dólar

Renato Rostás, Camila Maia, Stella Fontes e Fernando Torres (Valor, 23/09/15) avaliam que  alta acumulada de 30% do dólar neste terceiro trimestre de 2015 até o dia 22/09/15, se mantida até o fim deste mês de setembro, tem potencial para provocar um estrago de dezenas de bilhões nos resultados do conjunto de companhias abertas do país.

Com o câmbio acima dos R$ 4,00, será o terceiro maior salto do câmbio em um trimestre, desde o Plano Real, em julho de 1994. Pior só o primeiro trimestre de 1999, quando houve o abandono do regime de câmbio fixo, e o intervalo de junho a setembro de 2002, quando O Mercado temia a primeira eleição do ex-presidente Lula.

[FNC: na verdade, em 2002, O Mercado reagia às barbeiragens do Banco Central sob o comando de Armínio Fraga, p.ex., antecipação inesperada da MtM, que levou às perdas nominais nas cotações dos Fundos, e o terrorismo pré-eleitoral, tipo “Serra ou o Caos”.]

Como muitas empresas brasileiras possuem dívidas em dólar, no momento em que fecham os balanços elas precisam atualizar o valor desses compromissos com a nova taxa de câmbio.

[FNC: não gostavam de fazer “carry-trader”, i. é, tomar dinheiro barato no exterior para aplicar em juros altos aqui? Agora sofrem a consequência da especulação com cupom cambial sem hedge…]

No setor industrial, apenas Vale, CSN, Gerdau, Usiminas, Suzano, Klabin e Fibria devem ver suas dívidas em reais aumentarem em quase R$ 40 bilhões como resultado da variação cambial. Na Petrobras, o efeito deve alcançar R$ 70 bilhões.

Algumas das empresas com alto endividamento em dólar usam derivativos ou contabilidade de hedge para evitar que alta da dívida tenha efeito relevante no lucro do período, como é o caso de Petrobras, CSN, Gerdau, Braskem e BRF. Para as que não usam esses instrumentos, o impacto aparece todo na linha de resultado.

Embora no curto prazo o efeito seja “só contábil”, no longo prazo significa uma saída de caixa maior para pagar dívida.

No caso das exportadoras, outra “proteção” surge do lado das receitas, com melhora do resultado operacional ao longo do tempo.

[FNC: é o chamado “hedge natural”, ganhos nos ativos dolarizados compensam perdas no passivo em moeda estrangeira.]

Mas as que tiveram com liquidez mais frágil podem ter dificuldade de refinanciamento até mesmo das dívidas em reais. O cenário de elevada volatilidade contribui para potencializar os riscos e trazer restrição ainda maior de crédito pelos agentes o que pode levar a uma pressão maior por pedidos de recuperação judicial.

Com 80% da dívida em dólar, a Fibria é uma das que deve ver o endividamento subir, mas registrar uma melhora do resultado operacional. A dívida bruta total da empresa era de R$ 9,02 bilhões em junho e pode subir para R$ 11,1 bilhões no terceiro trimestre. Por outro lado, como mais de 90% do faturamento também está atrelado à moeda americana, a variação do câmbio médio neste terceiro trimestre garantiria uma alta de 12% na receita, para R$ 2,6 bilhões, mantido tudo mais constante.

No caso da Gerdau, o endividamento total pode subir 23,3%, para R$ 27,5 bilhões. Mas o HSBC lembrou em relatório há alguns meses que aproximadamente 70% do faturamento da siderúrgica é dolarizado. Isso engloba, além das exportações de aços longos e especiais do Brasil, as operações da companhia na América do Norte. Supondo vendas estáveis no exterior durante o terceiro trimestre, a receita da siderúrgica poderia crescer 9% só com o câmbio, para R$ 11,8 bilhões.

No caso da Vale, a dívida pode aumentar 22,5%, saindo de R$ 92,4 bilhões para R$ 113,1 bilhões, enquanto a receita poderia subir até 11%, para R$ 24 bilhões, não fosse a leve queda do minério de ferro de um trimestre para o outro.

Apenas como referência do impacto que a variação do dólar pode ter nos resultados, no segundo trimestre deste ano, quando o câmbio variou pouco – teve queda de 3% -, as despesas financeiras líquidas de um conjunto de 250 companhias abertas brasileira ficaram em R$ 15 bilhões. Já de janeiro a março deste ano, período em que o dólar subiu 21%, essa mesma linha do balanço ficou negativa em R$ 41 bilhões.

O momento é extremamente ruim para as empresas que precisam rolar dívidas. A combinação do cenário de geração de caixa operacional significativamente mais fraca a com maior pressão das despesas financeiras e estresse de liquidez se transforma em uma “tempestade perfeita” para as empresas mais endividadas.

[FNC: comentários issspiiierrrtos e “engraçadinhos” só agravam o ambiente emocional de O Mercado…]

O desempenho das empresas na bolsa reflete, em parte, os efeitos do câmbio. Em uma ponta, as ações das empresas exportadoras com a desvalorização da moeda brasileira ajuda tanto em termos de competitividade quanto de aumento da receita. Na outra ponta, as que têm elevada dívida em dólar, estão entre as maiores quedas. Apesar de grande parte da dívida dessas companhias ser denominada em dólar, elas não têm receita significativa na moeda, ficando mais expostas ao efeito cambial.

[FNC: lembre-se que O Mercado de ações no Brasil é uma “titica”, que gira apenas cerca de R$ 6 bilhões por dia, portanto, sujeito às manipulações interesseiras de grandes investidores que “soltam verde para colher maduro”.]

5 thoughts on “Olhar Estrangeiro: Anatomia da Crise Financeira provocada pelo Golpismo Parlamentar

  1. Olá professor.
    Como será possível o atual Governo tomar decisões oficiais definidas com uma séria crise interna de liderança e ser apoiado pelo Congresso onde a base aliada (petistas e demônios pmdebistas) não acreditam no projeto de governo?

    Se a coalizão partidária não funcionar o FMI vem aí ?

    1. Prezado Bruno,
      o Sistema é Complexo… O sistema partidário brasileiro está fragmentando em 35 partidos, a maioria dos quais é mera “legenda de aluguel”. Pior, não podemod solicitar a eles próprios que se autoreformem!

      A Constituinte eleita exclusivamente para a reforma política seria uma possível solução. Porém, o Poder Legislativo não aprova esse projeto do Poder Executivo — e corre-se o risco de o Poder Judiciário julgar contra a exclusividade dela restrita à reforma política. Nesse caso, ela poderia aprovar um retrocesso, p.ex., em relação às conquistas da Cidadania na Constituinte de 1988.

      Fora FMI! Com reservas de US$ 370 bilhões, maiores do que sua dívida externa, o Brasil passou a ser credor externo. O BCB tem “bala-na-agulha” para estabilizar a taxa de câmbio.

      Uma lição (perversa) da história recente é que não se pode “trair o eleitorado”: se a maioria votou contra o ajuste fiscal-liberal, não deveria ter entregue o MinFaz a um liberal-fiscalista…
      att.

  2. Fernando,
    a Vara de Guantânamo custou 6% do PIB para salvação do que nossa Presidenta vaticinou como prioridade única: “Não permitirei que se desorganize o mundo do trabalho” (ou algo muito parecido).

    Note que a produção de petróleo entra em uma sucessão de recordes, algumas obras se sustentam (em que pese o golpe “mortal” [pensam eles] na indústria pesada do Brasil); após ligeiras paralisações, a produção de máquinas e equipamentos já entrega seus produtos acabados, Pasadena deu lucro, Abreu e Lima jorrou diesel (o grande objetivo pois que alivia o Balanço de Pagamentos com o aumento de nossas exportações) e muito mais.

    Tudo isso é como Deus… percebe-se pelos efeitos se existe conexão com Ele. O segredo é parte do sucesso em operações bélicas e nisso nossa Diva é expert!

    Para finalizar, o Almirante Othon nomeia como testemunha o Ministro Jobim e um ex-comandante das Forças Armadas O juizinho venal deve estar se borrando nas calças!

    Eu pergunto: o que sabem desta matéria os pigmeus de mercado? Tentam impor ao Poder Popular uma referência que os permita manipular o Governo, mas o QG do Estado Maior é impenetrável. Perto da dimensão de nossa economia o tal “mercado” tem o tamanho de uma pulga!

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