EconoFísica: Mudança de Paradigma na Ciência Econômica

complexAs observações efetuadas nos posts precedentes, resenhando o capítulo de autoria de Orlando Manuel da Costa Gomes, Economia Como Objeto Complexo, no livro Modelagem de Sistemas Complexos para Políticas Públicas, cujos editores são Bernardo Alves Furtado, Patrícia A. M. Sakowski, Marina H. Tóvolli (Brasília : IPEA, 2015), contrariam os mais básicos fundamentos da economia neoclássica do agente representativo.

Esta acredita que:

  1. os equilíbrios são inerentes às relações econômicas e
  2. as trajetórias das variáveis são exclusivamente determinadas pelas condições iniciais e por regras de movimento simples.

Essas regras possibilitam, desde o ponto inicial, prever com precisão:

  1. como essas trajetórias evoluem e
  2. onde o sistema irá permanecer no designado estado de equilíbrio em longo prazo.

As características referidas, nomeadamente as quatro propriedades que foram destacadas no último post — heterogeneidade, descentralização, evolução, dependência de trajetória em face ao passado em uma dinâmica fora do equilíbrio –, claramente qualificam a economia como um objeto complexo.

Com base nestas propriedades, diversos autores, como Markose (2005), McCauley (2005), Velupillai (2005) ou Rosser (2010), procuraram estabelecer uma noção de complexidade capaz de se assumir como apropriada para abordar os temas da economia. Esta noção envolve a consideração de três categorias diferentes:

  1. a complexidade conectiva,
  2. a complexidade dinâmica e
  3. a complexidade computacional.

O primeiro conceito, complexidade conectiva, destaca que o que verdadeiramente molda o comportamento dos elementos de um sistema são as relações que se estabelecem entre estes elementos e que a evolução do sistema é o resultado direto das ligações que emergem e desaparecem no seio de uma determinada rede de relações a cada período de tempo. Mais do que as características individuais de cada elemento, é a lógica de interação que interessa.

Esta interpretação de sistema complexo é a originalmente proposta por Simon (1962), autor que também refletiu sobre os limites do pensamento racional. A noção de racionalidade limitada abre a porta para a heterogeneidade entre agentes e, consequentemente, atribui significado às formas distintas de contato entre diferentes indivíduos.

A complexidade dinâmica relaciona-se com as propriedades das equações dinâmicas que se consideram para descrever a evolução do sistema econômico.

A Economia enquanto Ciência recorre fortemente a sistemas dinâmicos para interpretar a realidade. Estes sistemas são normalmente simples, envolvem relações lineares e implicam a convergência para um estado estacionário de ponto fixo.

No entanto, quando se escapa ao conjunto de forças do comportamento homogêneo e da racionalidade estrita, podem encontrar-se relações dinâmicas não lineares intrincadas entre variáveis econômicas, o que conduz a sistemas onde os resultados de longo prazo são não convencionais, nomeadamente adquirem a forma de aperiodicidade e movimento caótico.

Conforme Day (1994) destaca, um sistema dinâmico pode ser interpretado como complexo quando gera, para as suas variáveis endógenas, um padrão de movimento que não é regular, isto é, que não é um ponto fixo ou um ciclo periódico.

O caos está associado à complexidade porque ele reflete um resultado de longo prazo de instabilidade não explosiva e irregular que é determinado pelas condições iniciais do sistema. Os sistemas caóticos caracterizam-se pela dependência sensitiva em relação às condições iniciais, o que significa que dois diferentes estados iniciais, independentemente da proximidade entre eles, irão gerar flutuações irregulares de longo prazo respeitantes a trajetórias completamente distintas.

Uma terceira noção relaciona-se com a complexidade computacional. O trabalho nesta área remonta à influente contribuição de Shannon e Weaver (1949) à Teoria da Informação. Neste contexto, a complexidade é associada ao conceito de entropia: medida da variação ou desordem em um sistema, ou seja, medida da imprevisibilidade da informação. É a tendência ao estado de inércia, degradação e desordem de um sistema.

A entropia, portanto, está ligada à dificuldade que existe em processar informação. Quanto mais elevado o nível de entropia, mais complexo o respectivo sistema será.

Dado que trata com a capacidade de processar informação, a complexidade computacional levanta uma questão pertinente relacionada com o modo como a teoria econômica convencional enfrenta os seus desafios: se os agentes são racionais e otimizam o seu comportamento, eles irão empregar todo o seu esforço e recursos na procura por solução ótima.

Em um sistema complexo que envolve entropia, o esforço computacional requerido para atingir a solução ótima pode ser tão grande que se torna pouco razoável, considerando uma perspectiva de custo-benefício, procurar encontrar tal solução. Deste modo, no contexto de um ambiente complexo, o tomador de decisões enfrenta um trade-off entre encontrar a melhor solução e o emprego de recursos que é necessário para a alcançar.

Os argumentos apresentados acima apontam para a ideia inequívoca de que a Economia deve ser estudada sob uma perspectiva de complexidade. No entanto, como já antes salientado, o pensamento econômico convencional tem evitado esta abordagem.

Uma das razões pelas quais a Ciência Econômica ortodoxa se distancia da perspectiva da complexidade relaciona-se com:

  1. a atitude conservadora dos economistas e
  2. a sua dificuldade em aceitar as técnicas e os instrumentos que outras ciências desenvolveram e têm para oferecer.

A Ciência Econômica é hoje a ciência dos modelos lógicos e coerentes, modelos estes que são rigorosos de um ponto de vista conceitual e onde as noções de racionalidade, equilíbrio, otimização e eficiência são dominantes. Para ir além deste paradigma, a busca obsessiva pelo comportamento otimizador tem de ser descartada em favor de uma abordagem multidisciplinar que atribua relevância à experimentação e à análise cuidadosa dos fatores de natureza institucional.

Um dos campos científicos que melhor pode prestar auxílio à Ciência Econômica na procura por um paradigma de complexidade é a Física, onde já há muito a visão mecanicista do mundo que a Ciência Econômica continua a adotar foi substituída por uma interpretação baseada na interação entre agentes.

Um novo campo de conhecimento, designado Econofísica, emergiu com o propósito de oferecer novos pormenores sobre o modo como as questões econômicas devem ser discutidas. Um raciocínio indutivo é adotado, o qual se baseia fortemente na observação e mensuração do comportamento coletivo. A Ciência da Econofísica nasceu e desenvolveu-se com as contribuições de Mantegna e Stanley (2000), Gallegati et al. (2006), Rosser (2008) e Yakovenko (2009), entre outros.

A introdução da Física na Economia é útil para um melhor entendimento de como ordens espontâneas eclodem nos mercados. A Física tem uma longa tradição no que concerne à análise de sistemas auto-organizados, adaptativos e evolutivos, e as suas ferramentas podem facilmente ser adaptadas para entender e interpretar o comportamento humano sob um cenário de interação.

Desencadear uma mudança de paradigma em um campo científico é, certamente, uma tarefa árdua e de grandes proporções. Os economistas estão bloqueados nas suas próprias metodologia e técnicas e irão provavelmente oferecer resistência à adoção de novas abordagens.

Felizmente, a percepção do mundo como uma entidade complexa é algo que muitos outros campos de conhecimento (não apenas a Física, mas também, por exemplo, a Biologia ou a Psicologia) já aceitaram, tendo desenvolvido um conjunto significativo de instrumentos de análise que estão agora disponíveis para que a Ciência Econômica possa abordar e explorar os seus próprios assuntos sob o cenário no qual eles verdadeiramente surgem, nomeadamente um cenário complexo constituído por múltiplas componentes heterogêneas e que interagem entre si.

Adicionalmente, há uma questão metodológica envolvendo a Ciência Econômica convencional que tem impedido a sua evolução para uma Ciência da Complexidade. A Ciência Econômica é normalmente tida como uma ciência dedutiva, isto é, uma ciência que começa por estabelecer hipóteses, sobre as quais um modelo é construído e onde, no final, o modelo é confrontado com a realidade. Preocupações de natureza empírica apenas surgem no último passo deste processo, no sentido de confirmar os pressupostos que foram estabelecidos no início.

Sob este processo, a realidade é forçada sobre o modelo e a Ciência Econômica a transformar-se na ciência que explica aquilo que queremos, desde o ponto de partida, efetivamente observar, em alternativa a ser a ciência que começa por observar fatos e que constrói modelos para explicar esses fatos.

Uma inversão de paradigma é necessária, ou seja, a Ciência Econômica necessita de adotar uma metodologia indutiva, começando pela observação e exploração de fatos reais, prosseguindo em seguida para a sua explicação analítica. Interpretar a Economia como um objeto complexo exige esta mudança metodológica.

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