Sistema Bancário Brasileiro e a Creditização do Território

Regionalização do crédito 2011-14

Maria Christina Carvalho (Valor, 30/09/15) informa que “favorecido pelo aumento da taxa de juros, o setor financeiro ampliou sua participação no Produto Interno Bruto (PIB) para 6,7% em 2014, acima dos 6,2% de 2013 e da média anual de 6,3% da década passada. A contribuição supera a de setores tradicionais, como a construção civil, que foi de 6,5% do PIB de 2014; da agricultura, de 5,6%; e da indústria extrativa, de 4%, embora essas sejam atividades que seguramente empregam mais pessoas. Com 683,3 mil empregados, o setor financeiro representa 1,7% do mercado formal de trabalho, que compreende 41,2 milhões de pessoas.

Na década de 1980 e boa parte dos anos 1990, período de inflação elevada, o setor financeiro tinha uma participação superior a 10% do PIB, com pico de 26,5%, em 1989. Com a estabilização da economia, a importância da atividade financeira, que inclui as operações de intermediação financeira, seguros, previdência complementar, assistência médica suplementar e outras auxiliares, diminuiu e hoje representa quase 10% do setor de serviços, que responde por 71% da atividade econômica, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).”

A participação no PIB não é uma boa medida para o setor financeiro na economia. Comecei minha carreira profissional no IBGE com o dever de inclui-lo como “Setor-Matriz”, isto é, na Matriz de Insumo-Produto no Brasil. Foram 8 anos (1978-1985) comigo resistindo a aceitar a Metodologia da Contas Nacionais da ONU, que classificava o setor como produtivo ao “agregar valor”! Meu argumento era que o setor se apropria de parte do valor excedente de setores produtivos (inclusive serviços) que, de fato, agregam valor…

Eu até conseguia convencer os meus ouvintes de que o RBIF (Resultado Bruto de Intermediação Financeira), basicamente, era composto por um diferencial entre juros recebidos e juros pagos; só a RPS (Receita de Prestação de Serviços) poderia ser classificada como Valor de Produção. Isso ia até eu me deparar com um “muro-instransponível”: o argumento que as Contas Nacionais brasileiras tinham que ser comparáveis com as de outros países. Portanto, a metodologia de transformar a soma de RBIF + RPS como proxy do “faturamento” ou VP (Valor de Produção) tinha de ser única. Logo, considera-se que o setor financeiro “agrega” valor…

Daí o resultado risível de 1989, provavelmente inédito na história mundial, o setor financeiro “agregando” (sic) 26,5% no PIB brasileiro!

Mas o importante é a disponibilidade do quadro acima. O Banco Central não divulga, rotineiramente, dados de balanços bancários regionalizados por destino de empréstimos. Será que o quadro é agregação dos locais dos créditos concedidos e dos depósitos captados? Em geral, a contabilidade bancária é centralizada na sede da Matriz do Banco, o que dá muita distorção, pois as sedes do BB e da Caixa é no DF e dos demais grandes bancos é em SP.

Fabio Contel, docente do Departamento de Geografia da FFLCH/USP, escreveu-me para reiterar um convite . O Departamento realizará, entre os dias 6 e 8 de abril de 2016, o Seminário Internacional Geografia e Finanças, visando discutir problemas ligados à esta interface entre o espaço geográfico e o sistema financeiro e bancário. Está convidando especialistas de diversas áreas do conhecimento, do Brasil, México, Inglaterra, Argentina e Estados Unidos, para ajudar nos debates.

Ele deseja contar comigo em no Seminário, como expositor na Mesa Redonda intitulada “O sistema bancário brasileiro e a creditização do território”, a ser realizada no dia 07/04/2016. Então, vou armazendo dados regionais para me preparar.

Estudo do consultor Roberto Luís Troster, ex-economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) contabiliza que 43% dos 243 bancos que existiam antes do Plano Real tiveram o controle transferido ou deixaram de existir em menos de cinco anos. Atualmente, existem 174 bancos, de acordo o Banco Central (BC), incluindo as instituições múltiplas, comerciais, de investimento, câmbio e desenvolvimento; 55 financeiras, 92 corretoras, 108 distribuidoras e 1,2 mil cooperativas de crédito, totalizando quase 2 mil empresas financeiras. Apenas os bancos somavam R$ 747 bilhões de patrimônio ao final de 2014, dos quais 70% privados de capital nacional, 16% estrangeiros e 15% públicos.

Para Troster, é mais importante avaliar a contribuição do setor financeiro para o crescimento da economia por meio de indicadores como a oferta de crédito e de serviços financeiros. Antes do Plano Real, as operações de crédito eram equivalentes a menos de 20% do PIB. Só vieram a deslanchar neste século, com a redução dos juros, atingindo os 30% em 2007, 40% em 2009, 50% em 2013 e chegando a 54,5% em julho de 2015 e a um estoque de R$ 3,1 trilhões. Essa expansão também foi possível por causa dos avanços institucionais propiciados por mecanismos como a alienação fiduciária e o crédito consignado.

O sistema financeiro brasileiro também deve ser medido incluindo o mercado de capitais. No ano passado, as empresas brasileiras levantaram R$ 157,1 bilhões no mercado de capitais, 1% a mais do que em 2013, de acordo com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Quanto à regionalização dos ativos administrados por Private Banking (clientes com mais de R$ 3 milhões em volume de negócios financeiros), a ANBIMA publica o quadro abaixo. No Sudeste moram os detentores de 78% das riquezas financeiras!

Private Banking jun 2015

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