Economia e Psicanálise (por Daniel Pereira da Silva)

imagemDaniel é meu aluno no Doutoramento do IE-UNICAMP, na disciplina Economia Interdisciplinar. É daqueles alunos que me dão orgulho de ser Professor desse centro de excelência no ensino. É muito gratificante verificar a formação de quadros profissionais bem preparados para servir à sociedade que lhes pagou os estudos!

Reproduzo abaixo sua reflexão sobre a relação entre Economia e Psicanálise, tema de sua Dissertação de Mestrado, disponível para download ao fim do post.

“A Psicanálise, por iniciativa de seu inventor, Freud (1856-1939), é um saber leigo. Leigo, não indouto, subjetivo ou epistemologicamente descompromissado. Enquanto leiga, a psicanálise é inconforme. Ela não se conforma com a Psicologia, a Medicina, a Filosofia, a Biologia ou outros conhecimentos igualmente inventados pela humanidade.

Mas a Psicanálise também não é autônoma, porque isso significaria encerrar-se em si mesma. Isso sim, ela existe, inescapavelmente, no meandro do que se tem ciência (os tais saberes) e o que é inconsciente. Ela se faz como uma análise subversiva do sabido. Em face disso, nada mais irregular do que rotulá-la de “disciplina” e, pelo mesmo motivo, as interlocuções entre a Psicanálise e os demais saberes não podem ser chamadas de “interdisciplinares”.

Os saberes psicanalíticos advêm do descobrimento de Freud de que não somos senhores de nós mesmos. Podemos atribuir ao menos dois significados para essa sentença.

O primeiro deles é a incômoda revelação de que nós não cabemos na nossa consciência e que, na verdade, ela deixa de fora um arcabouço imenso do que nos constitui, arcabouço esse denominado de inconsciente.

O segundo significado intensifica o desconforto: não só a consciência não nos determina, mas também as formas possíveis dessa consciência são suportadas pelo inconsciente, ou seja, o inconsciente determina as possibilidades lógicas do pensável.

Sem dúvida, a metáfora de um iceberg é bastante elucidativa, como também é pertinente dizer que o inconsciente é aquilo que nos escapa e do qual, invariavelmente, não escapamos. Nesse sentido, quaisquer ideias de objetividade e racionalidade acabam por perder a potência (vale dizer, narcísica) que fazem com que nos sintamos homens e mulheres intendentes de si.

O inconsciente, então, é o objeto primaz da Psicanálise. E o que permite que a Psicanálise aborde essa paragem não conhecida do sujeito humano (seja esse sujeito o indivíduo ou a sociedade) é que, apesar de incógnito, o inconsciente é organizado. Ele possui modo, estrutura, princípios.

Mais do que isso, a maestria do inconsciente sobre os sujeitos faz com que ele, o inconsciente, salte aos olhos nas mais corriqueiras ocasiões – tanto nas mais famosas como no sonho, nos atos falhos, nas psicopatologias e nos comportamentos de massa; quanto naquelas que atravessam nossa subjetividade cotidiana, nossos desejos, angústias, escolhas e contradições.

Seja pelo incômodo que esses enunciados nos provocam, seja pelo status que a consciência tem na tradição científica da modernidade, a Psicanálise e seu objeto, o inconsciente, acabam, muitas vezes, vulgarizados, relegados ao estatuto de suposições e levados ao posto de quase esoterismo. No entanto, o impacto do saber psicanalítico sobre as áreas do conhecimento é inegável.

Ele já oferece importantes contribuições para a Medicina, a Filosofia, a Linguística, a História, as Ciências Sociais e tantas outras. Talvez um dos maiores exemplos da significância do conhecimento psicanalítico seja a existência de uma Clínica de Psicanálise dentro do Centro de Estudos do Genoma Humano, na Universidade de São Paulo (USP).

E quanto às possibilidades entre Economia e Psicanálise?

Sem duvida, quase inexiste uma aproximação entre esses saberes, sobretudo a partir de economistas. Mas uma justificativa ao menos embrionária para tal aproximação não poder ser outra: a Economia é uma Ciência Humana e Social. Queremos dizer que os agentes econômicos são homens e mulheres e que, como tais, se organizam em sociedade. Se esse enunciado parece trivial e desnecessário, o escrutínio de seu significado pode indicar o contrário.

Se a humanidade é a promotora do econômico, então os objetos que atravessam o estudo da Economia devem conter em si a humanização. Valor, troca, distribuição, necessidades e desejos, consumo, trabalho, decisão, futuro, moeda…

Todos esses elementos, de uma forma ou de outra, passam por concepções ontológicas de processos de significação individual e social. Assim, as diferentes concepções de Economia, bem como as (ainda mais diversas) correntes de pensamento econômicos, não escapam de definir, explicita ou implicitamente, reducionista ou sistematicamente, o comportamento das pessoas e a forma com que, delas, deriva a sociedade.

A Psicanálise tem a contribuir na análise do econômico, pois apresenta uma noção absolutamente particular de abordar a humanidade: sua aproximação profundamente não utilitarista e não naturalista das relações entre as pessoas, os objetos, e os terceiros revela que essas relações extravasam sobremaneira as concepções correntes de racionalização. Isso porque a Psicanálise se aventura a estudar como se configura a estrutura subjetiva das pessoas, lançando bases para explicar – para além dos agentes alegóricos de total consciência e discernimento – o caráter inconsciente que transpassa as atuações dos atores sociais.

Exatamente por propor uma ótica bastante elucidativa das formas de interação entre o homem, sua história e seu meio, a Psicanálise pode ser uma abordagem relevante na ampliação da apreensão das relações de produção, das relações monetárias, da alocação de recursos, das concepções de valor, da formação de instituições, da escolha de objetos, etc. Em suma, antes de qualquer interdisciplinaridade, a análise psicanalítica pode se oferecer como um elemento orgânico e epistemologicamente consistente para investigações extremamente caras à Economia, sobretudo à Economia Política.

 

Links relacionados:

Reprodução de um Artigo de Eliana Cardoso no Valor: https://lifefpnews.wordpress.com/2014/01/17/freud-explica/

Comentário do professor Fernando Nogueira da Costa:

https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2014/03/01/estudo-dos-processos-mentais-comportamento-individual-e-suas-respostas-ao-ambiente-socioeconomico-e-politico/

Texto: Por uma crítica da economia libidinal – Vladimir Safatle: http://www.oocities.org/vladimirsafatle/vladi118.htm

 

Dissertação de Daniel Pereira da Silva para download: Dissertação de Mestrado – Daniel P Silva – Versão Final

One thought on “Economia e Psicanálise (por Daniel Pereira da Silva)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s