Procedimento de Fascistas: Caça às Bruxas

Mônica Bergamo (FSP, 04/10/15) fez uma reportagem sobre a perda de vergonha da direita “sair do armário”, depois de 30 anos pós-ditadura. Acho que foi a primeira vez que a “grande imprensa brasileira” (sic) divulgou o que este modesto blog, junto com outros blogs progressistas, tratou em Intolerância.

É oportuno alertar para este tipo de gente criminosa que se acha livre para “caçar e matar petistas”. A ignorância, a estupidez e a truculência do boçal — que se formou em agronomia pela UFRRJ (Universidade Federal Rural do RJ) e depois estudou nos EUA, mora em bairro paulistano de classe média, e cuida de terras que tem em Minas Gerais — são um exemplo das forças fascistas que os golpistas parlamentares estão liberando, tal como “aprendizes de feiticeiro”.

Contra o retrocesso político, a favor da democracia, compartilho a reportagem abaixo, para quem não teve a oportunidade de lê-la.

Walquíria Leão Rego tem 70 anos e mora há três décadas no mesmo edifício, numa rua pacata do bairro de Perdizes. A socióloga, que dá aulas de Teoria da Cidadania na Unicamp, vive no 4º andar e sempre se deu bem com seus vizinhos de baixo: o engenheiro agrônomo José Luiz Garcia, 67 anos, a mulher dele, Marília, e a filha do casal, Ana Luisa. A jovem já deu aulas de inglês para Walquíria. A professora recebeu Marília para comer bolo e tomar chá.

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Walquíria já foi filiada ao PT. Hoje é “o que se pode chamar de eleitora fiel”. O vizinho nunca gostou da legenda. Mas a diferença não era um problema. “Jamais nos desrespeitaram”, diz ela.

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O clima de boa vizinhança começou a mudar há cerca de um ano, na época das eleições. Walquíria e o marido, Rubem Leão do Rego, colocaram um adesivo de Dilma no carro, um New Fiesta vermelho. Garcia, que guarda o automóvel na garagem justamente ao lado, colocou o seu: “Fora, Dilma. E leva o PT junto”. “Esse adesivo já é um sinal de selvageria. Achei sintomático”, diz ela.

Dilma foi reeleita e o ambiente no prédio de Perdizes azedou de vez. O engenheiro, inconformado com o resultado das eleições, que acredita terem sido fraudadas, começou a escrever dizeres contra o PT em cartazes do elevador. Um deles, da Sabesp, alertava sobre a falta de água: “A seca resiste”. Garcia escreveu: “O PT também”. No dia seguinte, o troco de um morador: “Desinformado”.

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“Então escrevi: ‘Lava Jato’, diz o engenheiro. “Aí eles ficaram loucos”, segue, referindo-se ao casal petista. Repreendido pela síndica, Garcia desistiu do elevador. “Criei um jornalzinho. Todos os dias eu escrevia notícias numa folha de papel: ‘José Dirceu, herói do PT, preso pela segunda vez’, ‘Lula, lobista dos empreiteiros’. Eles [os vizinhos] tinham que ler. Foram ficando tiriricas. Mas não podiam dizer nada porque o papel estava colado dentro do meu carro.”

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A tensão foi aumentando. Em 8 de março, dia do primeiro panelaço contra Dilma, o engenheiro “não se contentou em bater panelas”, diz Walquíria. “Ele passou minutos gritando, num grau de agressividade, de ódio: ‘Petistas filhos da puta, ladrões, corruptos'”, conta Walquíria. “O que eu fiz foi gritar como todo mundo”, diz Garcia.

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Em 16 de agosto, o engenheiro estava com febre e não foi à passeata contra o governo na avenida Paulista. Viu tudo pela TV e só saiu de casa para comprar remédio. Voltou da farmácia “com aquela adrenalina”, diz. “E entrei no prédio gritando: ‘Fora PT! Fora PT!’.” O elevador abriu e dele saiu Rubem, que disse: “O senhor me respeite”. Garcia diz que respondeu: “Respeito é para quem merece. O PT não merece”.

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Walquíria diz que ele, na verdade, gritava: “Eu não respeito petista ladrão, corrupto, filho da puta”. “Meu marido ficou lívido”, afirma.

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Há duas semanas, a filha dela, Daniela, foi visitar os pais e se encontrou com Garcia na garagem do prédio. “Ela tem muito medo dele. E ficou olhando na tentativa de prever algum gesto. Ele vira e diz: ‘O que está olhando, sua filha da puta?’. E mostra o dedo [médio] para ela. A Daniela pega o celular, anda na direção dele e diz: ‘Faz de novo que eu quero te fotografar!’. Ele dá ré com o carro, ela tem que recuar.”

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A briga foi parar na delegacia. Daniela prestou queixa dizendo que teve que “se deslocar para uma pilastra para evitar que José Luiz a atropelasse”. No fim do depoimento, um investigador, Arnaldo, se aproximou. Armado, disse: “Vocês vão me desculpar. Mas o PT é mesmo o partido mais corrupto da República”. Walquíria reagiu: “O senhor é um agente do Estado”. E ele: “E qual é o problema de eu achar que a Dilma é uma filha da puta?”.

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Garcia também foi ao 23º DP, no mesmo dia que Daniela, para dar a sua versão dos fatos. E diz que o casal agora vai ter que provar as acusações que fez. “Disseram até que eu quis matar a filha deles. Pegam um ‘negocinho’ e transformam num ‘negocião’. É o modus operandi do PT.” Ele mostra à coluna um vídeo com imagens da garagem e afirma que não colocou a vida de Daniela em risco.

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Relatado em blogs, o desentendimento despertou solidariedade de professores e até do Ministério do Desenvolvimento Social ao casal – Walquíria é autora de um livro sobre o impacto do Bolsa Família na vida das mulheres que recebem o benefício.

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“Ele não sabe nada de nossas vidas. Nunca se preocupou em saber por que votamos no PT, por que 54 milhões de pessoas votam no partido”, diz Walquíria, que afirma se identificar com o projeto social da legenda, de redução das desigualdades. “Na cabeça dele, as pessoas são ignorantes ou ladras e por isso votam no PT.”

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“Quando um vizinho defende um governo cleptocrata e fobiocrata, ou ele faz parte da cleptocracia ou ele é um idiota total”, diz Garcia. “Não tem acordo. Eu vou passar por ele todos os dias e dizer: ‘Bom dia, seu petista’?. Acabou o diálogo. Não temos outra opção, não temos como reagir. A maioria silenciosa não aguenta mais. Só que agora não é mais silenciosa.”

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Ele acredita que a Operação Lava Jato deveria convencer qualquer eleitor a não votar mais no PT. “Eu digo, poxa, será que isso não é suficiente? São evidências, gente. Não são invencionices do [juiz Sergio] Moro. Se o cara não se convenceu até agora, fica difícil. Aí eu já questiono o discernimento dele.”

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O engenheiro diz que leu na internet a repercussão da briga que protagoniza. “Dizem que é preciso dar um basta [no ódio político]. Eu concordo. Agora, para que seja dado um basta, eles precisam parar de roubar, né?”

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Ele se formou em agronomia pela UFRRJ (Universidade Federal Rural do RJ) e depois estudou nos EUA. Hoje, dá consultorias e cuida de terras que tem em Minas Gerais. Defende a agricultura orgânica. Diz que foi de esquerda na juventude.

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“Se depois da queda do Muro de Berlim o cara não se dá conta de que o esquerdismo é uma coisa furada, é burrice. Usar camiseta do Che Guevara, você vai me desculpar! Com todos os livros mostrando que ele era um assassino sanguinário?”

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Acredita, no entanto, que a esquerda está mais forte do que nunca. “Falam de recrudescimento da direita. Mas o que está havendo é um recrudescimento do socialismo, com a China rivalizando, a Rússia. E na América Latina tem esse pessoalzinho da Bolívia, da Venezuela.”

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Para ele, o Brasil não teve uma ditadura entre 1964 e 1985, e sim um “governo militar”. “Nós aqui tivemos uma ditadura tropical. Tinha até Congresso e partido político. A ditadura brasileira avacalhou.” Não defende, no entanto, a volta dos militares. “Mesmo porque eles acabaram. Agora são um bando comandado por um devasso, o Jaques Wagner [ministro da Defesa, de saída do cargo]. Na internet tem até fotografia dele em baile de Carnaval com duas mulheres se beijando. Isso pra mim é devassidão.”

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Ele viu a imagem de Wagner na internet. “Ela [a web] possibilitou que as pessoas se informassem. Hoje você tem ‘zilhões’ de informações para processar. Você vê as coisas acontecendo na televisão, na internet. É evidente que isso aí gera reação.”

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“Essa raiva… Raiva, não, indignação…. Como é que você separa indignação de raiva? Aí vamos entrar numa questão de semântica”, diz ele para explicar o que sente.

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A “raiva” surgiu com o mensalão. “Ali foi o começo.” Antes disso, já era um crítico do programa Bolsa Família. “Você já viajou pelo Brasil? Você não arruma ninguém mais para trabalhar. Ninguém quer pegar no pesado. Essa não é a receita para um país que quer se desenvolver -criar essa legião de pessoas que têm aversão ao trabalho. O Brasil está ingovernável, numa situação pré-falimentar”, diz ele, encerrando a entrevista e pedindo para não ser fotografado.

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Entusiasta do Bolsa Família, a professora Walquíria credita à imprensa o fenômeno do que chama de “ódio político”. “Este foi o clima que a mídia criou no país.”

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Ela diz que, por isso, agora vive com medo do vizinho. “Eu não sei o que uma pessoa com esse grau de ódio político é capaz de fazer”, afirma.

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Há dez dias, a professora voltou ao 23º DP com o advogado Marco Aurélio de Carvalho e o deputado Paulo Teixeira (PT-SP) para pedir investigação criminal. O policial que xingou Dilma Rousseff foi chamado por seus chefes e obrigado a se desculpar.

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Já o engenheiro Garcia permanece convicto de que suas atitudes foram corretas. “Se eles querem que eu peça desculpas, eles não vão conseguir. Eu não sou culpado. Eu jamais vou pedir desculpas, entendeu? Jamais.”

6 thoughts on “Procedimento de Fascistas: Caça às Bruxas

  1. Caro Fernando, no exemplo retratado estamos de acordo: o irracível engenheiro Garcia é um exemplo de incivilidade e grosseria, enquanto Walquíria e o marido parecem ser pessoas sensatas. Mas este é um recorte bastante particular da realidade e ignora que todo este ódio foi cuidadosamente cultivado pelo PT.
    Analiso esta questão no artigo MÁRIO MAGALHÃES E A INDIGNAÇÃO SELETIVA ( http://wp.me/p4alqY-gF ). Deixo aqui o convite para a leitura.

    1. Prezadas Questões Relevantes,
      acho que uma instituição partidária não tem uma cabeça única. Assim como ironizo que fala em O Mercado ou O Governo, acho que não cabe falar em O Partido.

      Responsabilidades criminais são individuais. Os indivíduos que cometem crime devem responder por ele e não um Partido constituído por milhares de militantes honestos e dedicados à boa causa da defesa da democracia brasileira.
      att.

  2. O engraçado é que quando a Sra Marilena Chaui grita para todos ouvirem que odeia a classe média; ela não faz um discurso de ódio.

    1. Prezado Ombudsman,
      você acha isso?!

      Mas ela mesmo disse com todas as letras que odeia a classe média!

      É emocional — e não racional — esse discurso generalista dela, mas sem dúvida é de ódio.

      Ódio é um sentimento individual que as pessoas têm por instinto. Por isso, devem pensar devagar e controlar atos impensados e imediatos a partir dele.
      att.

  3. Uma intranquilidade paira no ar, as pessoas estão perdendo o emprego Fernando. Mensalmente as empresas realizam os temidos “facões”, uma expressão que denota as rodadas de demissões. Para quem não é funcionário público, como você, a crise é mais branda vamos falar a verdade… Também não está em crise quem vende omeprazol e rivotril. Uma amiga Dentista afirma nunca ter feito tanta placa de acrílico, que usada para tratar bruxismo. As pessoas estão revoltadas não por serem “fascistas”. Acho que o morador “engenheiro” não agiu daquele jeito por ser “politicamente conservador”, mas provavelmente por que ele também está com uma espada de Dâmocles sobre a cabeça. A crise era evitável, a crise é auto infligida e principalmente, é uma crise do setor público traduzindo-se em perda de postos de trabalho no setor privado

    1. Prezada Engenheira,
      face à crise, a saída não é sair à ruas caçando bruxas tal como na Idade Média. O sacrifício de “bode-expiatório” nunca foi solução para problemas reais.

      A crise explodiu no mundo em 2008. Devido à atuação anticíclica do Estado brasileiro, chegamos a obter no ano passado (6 anos após) a menor taxa de desemprego da série histórica.

      Neste ano, está sendo necessário um ajuste das finanças públicas. A overdose de juros beneficia a renda do capital financeiro, mas prejudica a renda do capital produtivo e do trabalho.

      Tudo isso não deve ser considerada desculpa para adotar discurso de ódio antipetista, porque os 12 anos de baixo desemprego acabaram neste ano.

      Qualquer pessoa pode sentir de ódio, mas não difuso, desabafando sua raiva ao atacar outras pessoas, seja vizinhos, seja desconhecidos. Se não tem autocontrole e comete crime, tem de ser punida! Ele — o neofascista — não é vítima, mas sim réu, pois atentou contra a vida de uma inocente.

      Esse sentimento de rancor contra o setor público ou contra funcionários públicos não leva à solução. É melhor reconhecer o papel fundamental do Estado quando você se beneficiou da época das “vacas gordas”.

      E se preferia estar no meu lugar, bastava ter seguido minha carreira: fazer concursos públicos, escrever teses originais, passar por arguições, enfrentar provas didáticas, obter todas as titulações, trabalhar todos os dias, preparar e dar aulas, orientar, publicar livros e artigos, etc. Também ganharia menos do que no setor privado — e não teria FGTS…
      att.

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