Entrevista de Fernando Limongi

Fernando LimongiO professor da Universidade de São Paulo, Fernando Limongi, concedeu uma entrevista por telefone ao EL PAÍS (05/10/15) há um mês para avaliar o cenário político, mas considerou que era melhor falar de novo. “Está tudo mudando muito rápido e o que falei antes já não vale mais”, disse ele, resumindo um pouco do quadro brasileiro, que vive no sobressalto da crise política de Brasília. Doutor pela Universidade de Chicago, Limongi entende que a fraqueza do Governo Dilma garantiu espaço a uma certa hipocrisia, ao colocar o PT no centro de todas as responsabilidades por atos ilícitos.

Pergunta. É possível ter um diagnóstico preciso sobre o quadro político neste momento?

Resposta. Há um jogo em curso difícil de decifrar porque não se fecham alianças. Há uma possibilidade de uma força de oposição se consolidar e derrubar a Dilma. Há outra, que é ela conseguir montar uma base mais ou menos e funcionar. Mas o principal que aparece continua a ser um movimento extremamente radicalizado pelo impeachment, com raiz fora do sistema político, que são esses movimentos organizados, com uma base estranha, apoio externo. Isso não acontece só no Brasil. Tem uma coisa de direita forte em toda a América Latina. Tem apoio do establishment, de um jeito doentio. Irracional e totalmente despropositada. O PT não é tudo isso que estão pintando. Ele não vai socializar os meios de produção. Ele já está fazendo política neoliberal, como já foi feita no passado.

P. Como um partido assim tem a possibilidade de virar o jogo?

R. Veja, há um quadro estranho. Quando Fernando Henrique Cardoso estava no poder, alguém tentou o impeachment dele. É algo despropositado. Mas tem sempre um louquinho falando de impeachment num Governo, e tudo bem. Mas agora, o que tem de diferente neste momento é que há um apoio institucional.

P. É mais de um louquinho agora?

R. É uma confluência de loucos. Há o [Augusto] Nardes [presidente do Tribunal de Contas da União], Gilmar Mendes [ministro do Supremo] , e [Eduardo] Cunha. Os três agem de forma a reabilitar de qualquer forma o impeachment. É muito difícil entender o jogo do Cunha. Ele tem oposição ideológica ao PT. Ele e o Nardes são pessoas sem o menor caráter, capazes de qualquer coisa. Há uma aliança muito estranha. Uma direita que se diz moralista, que faz aliança com quem explora a coisa pública para ter beneficio.

P. Mas no que você identifica esse padrão?

R. É muito estranho como o Eduardo Cunha está sendo tratado pela mídia. Enquanto houver essa espada na cabeça da Dilma, o Governo não vai sair dessa sinuca. Tem que ser dito. A proposta de impeachment é uma forçada de barra e demonstração de absoluta irresponsabilidade pois compromete todos os avanços dos últimos anos com FHC e Lula. Tudo está sendo destruído por uma infantilidade.

P. Tudo coincide com o fatiamento da Lava Jato. Isso significa alguma coisa?

R. A Lava Jato vai pegar tudo, todas as corrupções do Estado serão investigadas por ela. Não tenho exatamente uma opinião formada sobre isso. Mas estão tomando controle, pois estava-se extrapolando, de maneira seletiva. Não estou muito convencido. Tem um exagero antipetista. Se olharmos a coisa da corrupção que a Lava Jato desvenda, de um lado não tem nada novo. Se olhar o que foi, são as mesmas empresas envolvidas no impeachment do Collor. Se olhar o [escândalo] do orçamento dos anões [de 1993] são as mesmas empreiteiras e a mesma forma de agir, e a forma como elas geram sua própria demanda. Trabalham pelos seus contratos e financiam o sistema político. Isso desde a redemocratização. Então como eu regulo esse mercado? Como ter mercado de obras do Estado que não seja tão corrupta? As doações de campanha financiaram tanto a Dilma quanto o Aécio Neves.

P. Mas apuram-se as suspeitas de que dinheiro de propina abasteceu a campanha de Dilma.

R. Aécio foi financiado pelas mesmas empresas. Um levantamento informal que fiz mostra que 67% do dinheiro que o PSDB recebeu é de grupos que também doaram para Dilma. Difícil dizer que só o PT se beneficiou de um esquema de corrupção enquanto o PSDB também recebeu. Foi muito dinheiro para os dois. Só a Dilma está pegando dinheiro ilícito? É difícil ir por aí. Tem dois mercados ligados a corrupção política que precisam ser regulamentados. A de empreiteiras e de propaganda oficial.

P. Mas há acusações sérias ao PT…

R. O PT se destruiu, vai pagar. Mas chamo a atenção para o fato de que precisamos ir além disso. Ir as causas, financiamento e gastos de campanhas, que estão desregulados. Por que não se cria um sistema como bolsa de Valores? Com recursos internos de investigação? Só fica essa coisa boba, moralista. Neste momento, a única forma do governo se colocar de pé é conversando com a ala podre do PMDB, que é o que ela está fazendo.

P. Ela acertou com uma ala do PMDB nesta reforma ministerial, mas tudo pode ser jogo de cena e ela ficar sem apoio, não?

R. Sim. Agora o Cunha não sabe o que ele pode ou não pode fazer. Ele não tem escapatória, não tem como não ser condenado. Se o PT fecha com ele ou com o [Leonardo] Picciani, é a institucionalização da roubalheira. A pressão deles é para colocar gente deles para pequenas corrupções. Só não entendo o que o PSDB está fazendo ali. É fazer pacto com o diabo.

P. Como as coisas ficam com o Cunha investigado pelo Ministério Público?

R. A denúncia contra o Cunha muda tudo. Força o PSDB a tomar uma decisão. Os tucanos namoraram o Cunha um pouco e com a reação dele à possibilidade de ser denunciado, foi acelerado a possibilidade de impeachment. O PSDB aceitou, participou. Agora o PSDB tem de decidir se é ou não o aliado dele.

P. O PSDB ajudou a vitaminar o Cunha?

R. Deu apoio sim, inclusive a Aécio começou a apoiar a ideia sugerir novas eleições. Com assim? Aqui não é a casa da mãe Joana. O povo nas ruas também dizia que eram contra o PT porque eram contra a corrupção. Contra a corrupção do PT? Do Cunha não?

P. Movimentos precisam se posicionar agora?

R. Para eles, o Cunha tudo bem? Isso deixa claro quem são. Grupos políticos ligados à direita. Todo mundo disfarçando, dizendo que é movimento cívico. Mas é contra a corrupção ou não? O lado positivo é que os crimes estão sendo investigados. O sistema brasileiro é um dos que mais pune seus políticos. Na França, Estados Unidos acabam em pizza. A ideia de que políticos não são condenados é um pouco falsa. É difícil comparar as coisas. As pessoas estão indo para as ruas. Mas não acho que seja uma mudança. Desde que me conheço por gente se diz que o Brasil não será mais o mesmo. Desde as Diretas, caras pintadas do Collor, pós impeachment, é sempre assim. Políticos pedem milhões de dólares para depois comprar Lamborghini, como o Collor. Lembra o [ex-deputado] João de Deus, da Comissão do Orçamento dos anões. Nem sabem o que fazer com dinheiro. São políticos que montam os esquemas, isso se fala pouco.

P. Como assim?

R. Quem monta os sistemas são as empreiteiras, os políticos se tornam sócios, em vez de fiscalizá-los. São as mesmas empreiteiras em todos os escândalos.

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