Obsessão Golpista: Ano Perdido

impeachment bira

Fernando Limongi é professor titular de Ciência Política na Universidade de São Paulo e pesquisador do Cebrap. Publicou artigo (Valor, 16/10/15) que “eu assinaria embaixo”. Seria irretocável caso não diagnosticasse o primeiro governo Lula como ortodoxo — eu vi, crianças, estive lá como testemunha ocular do que se passou: o Banco Central freava, os bancos públicos aceleravam  — e repetisse a mesma falha que todos nós costumamos cometer: confundir pessoas indecorosas com Partido político. Vale lembrar os diversos — e expressivos — significados do termo “partido”.

adjetivo ( sXIII)

1 que se partiu; quebrado, fragmentado

2 dividido, de alto a baixo, em partes

3 alquebrado, dolorido de exaustão

substantivo masculino

6 ( 1875 ) pol organização social espontânea que se fundamenta em uma concepção política ou em interesses políticos e sociais comuns e que se propõe alcançar o poder; facção

    ‹ o p. dos trabalhadores ›

7 associação de pessoas em torno dos mesmos ideais, interesses, objetivos etc.; liga

    ‹ interesses de classe e de p. ›

Etimologia

lat. partītus,a,um ‘que partilhou, que tomou o seu quinhão’, part.pas. de partire ‘partir, dividir, distribuir’; ver part-; f.hist. sXIII partir, sXIV partido

FNC: “partido” é uma palavrinha com muitos significados “significativos”, não? Talvez por isso muitos confundem “tomar partido” como uma oportunidade de “tomar o seu quinhão“…🙂

“A oposição não vai sossegar enquanto não tirar o PT do poder. Se não for pelas “pedaladas”, será pela via das contas de campanha. Não importam o método e as razões. O fim justifica a caça aos meios. A oposição optou pela radicalização. É uma decisão estratégica, política e que tem consequências. O PSDB hesitou em subir no barco. Aderiu, ciente de que entrava em uma aventura, pois o impeachment só sai forçando a barra.

Vale a pena? Quem ganha com o impeachment? Uma coisa é certa: perdem os democratas. Perde a democracia brasileira. A estratégia põe em risco os muitos avanços feitos ao longo dos últimos anos. É uma reversão, uma volta ao passado. Parece que estamos de novo nos anos 1960. De onde vem essa radicalização? Por que se livrar do PT se tornou um imperativo? O PT é assim tão terrível, tão perigoso? O que está em jogo? Valores?

Não há dúvida de que o PT financiou suas atividades recorrendo a meios ilícitos. A corrupção na Petrobras é indefensável e injustificável. Por ter feito o que fez, o partido já está pagando, e a fatura continua aberta. A conta vai crescer. A Justiça e o eleitorado estão tratando disso.

Dizer que o PT fez da corrupção uma política de Estado, que a elevou a um novo patamar, que a tornou sistêmica, parte de um “projeto de poder”, é um exagero. Vale no plano retórico. Mas não se sustenta em fatos. O PT não inventou esse esquema, como não havia inventado o modelo do mensalão, criado pelo PSDB mineiro. Basta ler o recente voto do ministro Gilmar Mendes para obter a comprovação de que o petrolão não foi criação do PT. Como demonstra o ministro, o mesmo esquema financiou a eleição de Collor. São as mesmíssimas empreiteiras e o mesmo “modus operandi“. O ministro não se lembrou, ou deixou escapar, que, no início dos anos 1990, o esquema passou a operar sob a batuta de João Alves e os chamados “anões do orçamento”.

O esquema se mantém, muda a gerência. O PT se tornou o acionista majoritário da firma. Um empreendimento do qual o PSDB também se beneficia. A despeito dos esforços feitos para obscurecer os dados, o ministro Gilmar Mendes mostra que as doações de pessoas jurídicas foram centrais, tanto para a campanha de Dilma quanto para a de Aécio. Se abrisse os dados, veria que as duas campanhas foram irrigadas com recursos vindos das mesmas empresas, as mesmíssimas empreiteiras que controlam as obras do Estado brasileiro pelo menos desde o regime militar.

Corruptores são “democráticos”. É assim ao redor do mudo. Quem ganha acesso aos cofres públicos quer manter seu privilégio. Alia-se a todo e qualquer candidato que tiver chances de vencer. Apressam-se em se tornar amigos íntimos dos poderosos e dos que podem vir a sê-lo. Não querem perder a boquinha. Financiaram Dilma e Aécio.

Isso não exime o PT de ter culpa no cartório. O partido deve pagar pelos desvios que cometeu. Já pagou pelo mensalão, mas o PSDB mineiro ainda não. Paulo Maluf, é bom lembrar, ainda tem mandato e está solto. José Dirceu foi cassado e já foi parar na cadeia duas vezes. A revolta moral contra a corrupção tem se mostrado altamente seletiva. O PT é alvo preferencial. Os resultados da Lava-Jato mostram que o PT não agia sozinho. PP e PMDB também obtiveram vantagens.

pig_midia_golpista02Até o momento, não há provas de participação direta da presidente no escândalo do petrolão. Quanto a Eduardo Cunha, há denúncias concretas, com profusão de provas e detalhes. A denúncia apresentada por Rodrigo Janot não deixa margem a dúvidas. Está tudo provado, sem que seja necessário recorrer à teoria do fato. Ainda assim, Cunha é tratado pela imprensa com condescendência nunca vista. Alegações de que Romário teria contas na Suíça valeram capa nas revistas semanais. As contas de Cunha na Suíça foram olimpicamente ignoradas pelos paladinos da moralidade, que, de resto, já haviam feito o mesmo com as contundentes denuncias apresentada por Janot.

As provas de que Cunha tenha falsificado documentos são irrefutáveis. Ao receber o requerimento, o então ministro Lobão não teve dúvidas, só uma pessoa seria capaz de um ato tão desatinado. O método, a sem-cerimônia, os objetivos inconfessáveis, revelaram a identidade do autor por detrás do requerimento. As oposições estão embarcando em uma aventura patrocinada e orquestrada por Cunha, mais uma das armações que revelam seu método de ação.

Compreende-se a sanha e a urgência com que Cunha trata a matéria. Mas qual a urgência das oposições responsáveis e comprometidas com a ordem democrática? Por que se livrar do PT e de Dilma se tornou imperioso, uma tarefa para já? Nada justifica tal estratégia. Alega-se que o PT não tem condições ou que não sabe gerir a economia, que as aventuras da “nova matriz econômica” de Dilma estão inscritas na sua natureza.

Deixar Dilma governar seria deixar que o PT destruísse a economia. O exagero é evidente. Irresponsabilidade fiscal não é o mesmo que defender o socialismo. O PT é um partido pragmático e adotou, para desagrado de suas bases, políticas fiscalmente responsáveis por todo o primeiro mandato de Lula. Palocci incorporou à sua equipe jovens economistas acadêmicos que puderam implementar sua agenda – que haviam dado como perdida – de reformas microeconômicas. Nada mais ortodoxo. E foi assim também com o Bolsa Família, o programa que viria ser o símbolo da gestão petista. O Fome Zero foi defenestrado sem maiores cerimônias, para ceder lugar a um plano gestado pelo Banco Mundial.

O PT não foi o único partido a subordinar decisões econômicas ao calendário eleitoral. Assim foi com o Plano Cruzado e com a defesa da âncora cambial do real. Vale avivar a memória e consultar os pronunciamentos públicos de Pérsio Arida ao deixar o Banco Central.

A democracia tem remédios próprios contra o populismo macroeconômico. Eleitores punem políticas econômicas inconsistentes. O PMDB e os artífices do Cruzado II foram punidos. O mesmo aconteceu com o PSDB. A queda da popularidade de Fernando Henrique Cardoso no início de segundo mandato e o fracasso da candidatura Serra são as provas. O PT, com certeza, será punido em 2018. A popularidade de Dilma e a queda do número de eleitores identificados anunciam o início do período de vacas magras.

O impeachment é uma alternativa radical, extrema. No quadro atual, nada a justifica. Qual a urgência? Jogam-se fora anos de amadurecimento e conquistas da democracia brasileira, cujo ponto alto foi a civilizada transição de poder de FHC a Lula.

A polarização política impede o diálogo e silencia a razão. A serenidade deixa de ser virtude para se tornar fraqueza. Os mais velhos já viveram isso. Só a insensatez das elites, suas visões equivocadas sobre as verdadeiras intenções dos adversários, explicam a radicalização dos anos 1960 e o golpe militar. Naquele período, a Guerra Fria alimentava suspeições de parte a parte. Hoje, contudo, é difícil entender de onde vem o combustível para o processo de radicalização em que o país embarcou.

Uma coisa é certa: a opção pelo impeachment só existe, só é viável, só foi colocada na agenda porque sustentada por ações concretas do atual presidente da Câmara dos Deputados e seu fiel escudeiro, Augusto Nardes. Sem eles, sobretudo sem o açodamento com que Cunha colocou a voto as contas dos presidentes anteriores, o impeachment não teria entrado na agenda e não seria hoje uma possibilidade concreta.

Quem são esses personagens? Qual o compromisso de ambos com a democracia? Talvez esta seja uma pergunta demasiadamente abstrata e elevada para tais personagens. Talvez o mais adequado seja perguntar: qual o compromisso deles com a moralidade pública? Basta uma consulta rápida às biografias desses dois indivíduos para duvidar das suas verdadeiras intenções.

A biografia de Cunha é razoavelmente conhecida. Basta ler a denúncia de Janot para identificar seu método de ação: a remoção de qualquer obstáculo que impeça a realização imediata de seus interesses. Interesses nunca elevados, diga-se. Fernando Henrique Cardoso já sabia disso em 1995 e negou-lhe o sonho de consumo que viria obter décadas depois, conforme o depoimento de Eduardo Musa: o controle sobre a área internacional da Petrobras. Aécio e outros líderes do PSDB fingem que não sabem.

As peripécias de Augusto Nardes são menos conhecidas, mas não mais recomendáveis. Basta dizer que Adylson Motta, então presidente do TCU, reagiu a sua indicação, afirmando que o afilhado de Severino Cavalcanti não reunia as condições morais estabelecidas pela Constituição para o exercício da função. Motta podia falar com conhecimento de causa. Afinal, como Nardes, era filiado ao PP do Rio Grande do Sul. Mais recentemente, o nome do ministro foi associado às investigações da operação Zelotes.

Aceitar a tese do impeachment é aceitar o método Cunha, método que Lobão soube identificar de bate-pronto e que levou a advogada Beatriz Catta Preta a fechar o escritório e abandonar a carreira. Perguntado sobre Cunha, Hélio Bicudo [oportunista senil que rasgou o que tinha de edificante em sua biografia], como diz o autor de reportagem, “esquivou-se”, dizendo que este era um problema da Câmara. Em uma outra entrevista, perguntado sobre quais passos se seguiriam ao impeachment, Bicudo recomendou um governo interino e novas eleições convocadas por decreto. Não por acaso, não lhe ocorreu consultar a Constituição.

Não é assim que as coisas funcionam, nem no Clube Atlético Paulistano. A democracia tem regras e o Brasil, uma Constituição que regula os conflitos e, mesmo, situações extremas como o impeachment.

A regra de ouro democrática é respeitar os resultados das urnas e esperar a sua vez. A alternativa é endossar o método Cunha.”

AecioMimadoGolpe

Ideologia (letra profética de Cazuza):

Meu partido
É um coração partido
E as ilusões estão todas perdidas
Os meus sonhos foram todos vendidos
Tão barato que eu nem acredito
Eu nem acredito
Que aquele garoto que ia mudar o mundo
(Mudar o mundo)
Frequenta agora as festas do “Grand Monde”

Meus heróis morreram de overdose
Meus inimigos estão no poder
Ideologia
Eu quero uma pra viver
Ideologia
Eu quero uma pra viver

O meu prazer
Agora é risco de vida
Meu sex and drugs não tem nenhum rock ‘n’ roll
Eu vou pagar a conta do analista
Pra nunca mais ter que saber quem eu sou
Pois aquele garoto que ia mudar o mundo
(Mudar o mundo)
Agora assiste a tudo em cima do muro

Meus heróis morreram de overdose
Meus inimigos estão no poder
Ideologia
Eu quero uma pra viver
Ideologia
Eu quero uma pra viver

2 thoughts on “Obsessão Golpista: Ano Perdido

  1. Pingback: Q RIDÃO...

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