Circuito Financeiro em Círculo Vicioso por causa de Juros Elevados

Fuga de depósitosCom a elevação dos juros a patamar excessivo, o circuito financeiro entrou em círculo vicioso. O custo do crédito muito elevado afasta tomadores e a relação crédito / PIB se estagnou em 54,5% nos últimos meses. Sem a necessidade de captar funding, os bancos não oferecem % CDI atrativos para investimentos em CDBs. Assim, todos os depósitos — a vista, a prazo e de poupança — perdem competitividade face às remunerações dos Fundos de Investimentos Financeiros carregadores de títulos de dívida pública e/ou debêntures.

Felipe Marques (Valor, 06/10/15) informa que o crédito escasso e o orçamento apertado das famílias brasileiras fizeram com que o saldo de recursos depositados nos grandes bancos começasse a recuar em 2015, depois de pelo menos cinco anos de sucessivos crescimentos. Os números do primeiro semestre dos bancos deixaram clara essa tendência, que persiste na segunda metade do ano, na medida em que os clientes têm sacado recursos para fechar as contas do mês ou saído em busca de aplicações mais rentáveis, especialmente no caso da caderneta de poupança.

Até junho de 2015, os cinco maiores bancos do país — Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Caixa Econômica Federal, Bradesco e Santander Brasil — registraram R$ 1,41 trilhão em recursos depositados, considerando os depósitos à vista (o dinheiro parado em contas correntes, que pode ser tirado a qualquer momento), a prazo (como o Certificado de Depósito Bancário, CDB), os depósitos da caderneta de poupança e outras modalidades (como o interfinanceiro). A cifra representa queda nominal de 1% na comparação com mesmo mês do ano passado e de 3,4% ante março. Vale lembrar que essa queda acontece apesar da incidência dos juros sobre o estoque e que, em termos reais, o recuo é ainda maior.

Para fins de comparação, o estoque de crédito ampliado (incluindo avais e fianças) desse quinteto de bancos somou R$ 2,78 trilhões em junho, com crescimento de 10,9% no acumulado de 12 meses e de 0,2% ante março de 2015.

FNC: captação no mercado aberto, i.é, operações compromissadas no mercado interbancário deve ter complementado a “outra metade” entre os depósitos e o saldo da carteira de crédito.

De lá para cá, a despeito de haver alguma reação na captação de CDBs, a retirada de recursos da poupança voltou a se acelerar e os bancos continuaram a sentir movimentação mais intensa nos recursos deixados em contas correntes. O saldo da caderneta de poupança, por exemplo, baixou de R$ 646,6 bilhões em junho para R$ 638,9 bilhões até 28 de setembro de 2015. Embora dados de depósitos à vista não estejam disponíveis para além do primeiro semestre, executivos de bancos relatam que recursos antes parados nas contas correntes estão sendo sacados por clientes com orçamento mais apertado.

Entre junho e meados de setembro, o estoque de CDBs cresceu marginalmente, ajudado pela maior busca por liquidez diária, saindo de R$ 474,4 bilhões para R$ 485,6 bilhões. A diminuição do lastro para emissão de Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e do Agronegócio (LCA), além de o BC ter vetado a liquidez diária para LCAs no meio do ano, aumentaram a procura pelo CDB.

Com o crédito fraco há pouco incentivo para os bancos captarem. Além disso, manter um excesso de liquidez na forma de depósitos no balanço, sem que haja uma contrapartida nos empréstimos, prejudica a rentabilidade do banco, pondera essa fonte. Mais liquidez no balanço faz com que o banco tenha um retorno menor. Por isso, tem procurado atender a algumas demandas de clientes, como a proteção contra inflação, com instrumentos fora do balanço.

É por isso que os bancos têm preferido destinar recursos de clientes para Fundos, Letras Financeiras ou Letras de Crédito, movimento que deve prosseguir até o fim do ano. No acumulado dos nove primeiros meses de 2015, até 28 de setembro, o saldo de recursos aplicados em fundos de investimentos, por exemplo, cresceu 9,5%, para R$ 2,94 trilhões. Quando se olha para a captação líquida, só os fundos apresentam ingressos neste ano, com R$ 38,4 bilhões, enquanto o CDB ainda perde R$ 23,9 bilhões e a caderneta R$ 58,9 bilhões.

Este ano tem se observado uma maior dinâmica na movimentação das contas correntes e de investimentos no mercado. Isso pode ser atribuído tanto à elevação de juros, que estimula a busca pela otimização de rendimentos e a realocação de recursos, como também a um ambiente macroeconômico mais desafiador, que acaba fazendo com que parte da população faça uso de recursos acumulados ao longo do tempo para o seu consumo no dia a dia.

Os balanços dos grandes bancos mostram que a saída dos depósitos foi muito além da poupança, com algumas instituições financeiras mostrando reduções expressivas nos estoques de depósitos à vista e a prazo na primeira metade do ano.

A escalada dos juros vinha causando um movimento de saída de depósitos mais tradicionais para modalidades de investimento com maior rentabilidade. Vale lembrar também que boa parte do que os bancos captam via depósitos fica sujeita a algum percentual de recolhimento compulsório pelo Banco Central (BC). Ou seja, migrar essas aplicações para fundos ou mesmo para as letras de crédito ajuda também a diminuir o impacto de tais regras sobre as instituições financeiras.

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