Culturas Humanas

darwirnismEm outro trecho do livro de Yuval Noah Harari, “Sapiens – uma breve história da humanidade”, tópico que ele denomina “O Satélite de Espionagem”, ele mostra que as culturas humanas estão em constante fluxo. Mas esse fluxo é completamente aleatório ou segue algum padrão geral? Em outras palavras: a história tem uma direção?

A resposta é sim. No decorrer dos milênios, culturas pequenas e simples se aglutinaram gradualmente, formando civilizações maiores e mais complexas, de modo que existem no mundo cada vez mais megaculturas, sendo cada uma delas maior e mais complexa. Trata-se, é claro, de uma generalização grosseira, aplicada apenas em nível macro.

Em nível micro, ao que parece, para cada grupo de culturas que se aglutina em uma megacultura, existe uma megacultura que se desmembra.

  • O império mongol se expandiu e dominou uma enorme faixa da Ásia, e até mesmo partes da Europa, e depois se fragmentou.
  • O cristianismo converteu milhões de pessoas, ao mesmo tempo que se ramificou em inúmeras seitas.
  • A língua latina se espalhou pelo oeste e centro da Europa e então se dividiu em dialetos locais que acabaram se transformando em idiomas nacionais.

Mas essas rupturas são inversões temporárias em uma tendência inexorável rumo à unidade.

Entender a direção da história é, na verdade, uma questão de perspectiva privilegiada. Quando nos distanciamos e temos uma visão panorâmica da história, examinando desenvolvimentos em termos de décadas ou séculos, é difícil dizer se a história avança rumo à unidade ou à diversidade.

No entanto, para entender processos de longo prazo, esse tipo de visão panorâmica é míope demais. Faríamos melhor em adotar, isso sim, a visão de um satélite de espionagem, que analisa milênios em vez de séculos.

De um ponto de observação desses, fica nítido que a história está se movimentando incessantemente rumo à unidade. A ramificação do cristianismo e a queda do império mongol são apenas quebra-molas na autoestrada da história.

A melhor forma de avaliar a direção geral da história é contar o número de mundos humanos distintos que coexistiram em um dado momento no planeta Terra. Hoje, estamos acostumados a pensar no planeta inteiro como uma unidade, mas durante a maior parte da história a Terra era uma galáxia inteira de mundos humanos isolados.

Considere a Tasmânia, uma ilha de tamanho médio no sul da Austrália. Ela foi isolada do continente por volta de 10000 a.C., quando o fim da Era do Gelo fez o nível do mar se elevar. Alguns milhares de caçadores-coletores ficaram na ilha sem contato algum com outros humanos até a chegada dos europeus, no século XIX. Durante 12 mil anos, ninguém soube que os tasmanianos existiam, e eles não sabiam da existência de outras pessoas no mundo. Tiveram suas guerras, lutas políticas, oscilações sociais e transformações culturais. Ainda assim, para os imperadores da China ou os governantes da Mesopotâmia, a Tasmânia podia muito bem estar localizada em uma das luas de Júpiter. Os tasmanianos viviam em um mundo próprio.

A América e a Europa também foram mundos separados durante a maior parte de sua história. Em 378, o imperador romano Valente foi derrotado e morto pelos godos na batalha de Adrianópolis. No mesmo ano, o rei Chak Tok Ich’aak, de Tikal, foi derrotado e morto pelo exército de Teotihuacan. (Tikal era uma cidade-Estado maia importante, e Teotihuacan era a maior cidade da América, com quase 250 mil habitantes – da mesma ordem de magnitude de sua contemporânea, Roma). Não houve absolutamente nenhuma ligação entre a queda de Roma e a ascensão de Teotihuacan. Roma podia muito bem se localizar em Marte e Teotihuacan, em Vênus.

Quantos mundos diferentes coexistiram na Terra?

  • Por volta de 10000 a.C., nosso planeta continha milhares deles.
  • Em 2000 a.C., o número diminuiu para centenas, no máximo alguns poucos milhares.
  • Em 1450, o número caiu ainda mais drasticamente.

Na época, pouco antes da era das Grandes Navegações, a Terra ainda apresentava um número significativo de mundos diminutos como a Tasmânia, mas cerca de 90% dos humanos viviam em um único megamundo: o mundo da Afro-Ásia. Em sua maior parte, a Ásia, a Europa e a África (incluindo grandes extensões da África subsaariana) já estavam conectadas por laços culturais, políticos e econômicos significativos.

Grande parte dos 10% restantes da população mundial era dividida em quatro mundos de tamanho e complexidade consideráveis:

  1. o mundo mesoamericano, que englobava quase toda a América Central e partes da América do Norte;
  2. o mundo andino, que abrangia a maior parte do oeste da América do Sul;
  3. o mundo australiano, que abarcava o continente da Austrália;
  4. o mundo oceânico, que compreendia a maioria das ilhas do sudoeste do Pacífico, do Havaí à Nova Zelândia.

Durante os 300 anos seguintes, o gigante afro-asiático engoliu todos os outros mundos.

  • Consumiu o mundo mesoamericano em 1521, quando os espanhóis conquistaram o Império Asteca.
  • Deu a primeira mordida no mundo oceânico no mesmo período, durante a circum-navegação de Fernão de Magalhães pelo globo, e logo depois completou sua conquista.
  • O mundo andino ruiu em 1532, quando conquistadores espanhóis acabaram com o Império Inca.
  • O primeiro europeu desembarcou no continente australiano em 1606, e aquele mundo intocado chegou ao fim quando a colonização britânica realmente teve início, em 1788.
  • Quinze anos depois, os bretões fundaram a primeira colônia na Tasmânia, trazendo, assim, o último mundo humano autônomo para a esfera de influência afro-asiática.

O gigante afro-asiático levou vários séculos para digerir tudo o que havia engolido, mas o processo era irreversível. Hoje, quase todos os humanos partilham:

  1. do mesmo sistema geopolítico (o planeta inteiro está dividido em Estados reconhecidos internacionalmente);
  2. do mesmo sistema econômico (as forças do mercado capitalista moldam até mesmo os rincões mais remotos do globo);
  3. do mesmo sistema jurídico (as leis internacionais e os direitos humanos são válidos em todos os lugares, pelo menos em teoria); e
  4. do mesmo sistema científico (especialistas no Irã, em Israel, na Austrália e na Argentina partilham dos mesmíssimos conceitos quanto à estrutura dos átomos ou ao tratamento da tuberculose).

A cultura global única não é homogênea. Assim como um corpo orgânico único contém vários tipos diferentes de órgãos e células, nossa cultura global única contém tipos diferentes de povos e estilos de vida, de corretores de ações de Nova York a pastores afegãos.

Mas todos estão intimamente relacionados e influenciam uns aos outros de inúmeras maneiras. Ainda discutem e lutam, mas discutem usando os mesmos conceitos e lutam usando as mesmas armas.

Um verdadeiro “choque de civilizações” é como o proverbial diálogo entre surdos: ninguém consegue entender o que o outro está dizendo. Hoje em dia, quando o Irã e os Estados Unidos fazem ameaças um ao outro, ambos falam a língua dos Estados-nação, das economias capitalistas, dos direitos internacionais e da física nuclear.

Ainda falamos muito sobre culturasautênticas”, mas se com “autênticas” nos referimos a algo que se desenvolveu de maneira independente e que consiste de tradições locais ancestrais, livres de influências externas, então não restam culturas autênticas na face da Terra. Nos últimos séculos, todas as culturas foram modificadas, a ponto de ficarem quase irreconhecíveis, por uma enxurrada de influências globais.

3 thoughts on “Culturas Humanas

  1. Boa noite, Prof° Fernando.

    Aproveitando o debate e a oportunidade, deixo aqui um texto que escrevi sobre o assunto.

    Revolução Artística

    O homem, tal como o conhecemos, existe a mais ou menos 150 mil anos; a civilização, propriamente dita, existe a mais ou menos 7 mil anos. Uma série de fatores – alguns desconhecidos – possibilitaram esta transição, entre eles, as bruscas mudanças climáticas que aumentaram as dificuldades para caçar, obrigando o homo sapiens moderno a procurar as margens dos rios onde acabou se fixando com a ajuda da agricultura e da domesticação de animais.

    O aumento do cérebro e, consequentemente, o aumento da capacidade de entendimento é outro fator. Em função dos nossos ancestrais possuírem menos força física em relação aos seus concorrentes – tigres, leões, crocodilos – o instinto de sobrevivência humano procurou equalizar esta disputa com a ampliação das forças mentais. O domínio do fogo, que data de 500 mil anos atrás, e o uso de ervas alucinógenas, no entanto, teriam sido os ingredientes decisivos para esta transição.

    De acordo com o documentário “Sobre como a Arte Construiu o Mundo II – O Dia em que as Imagens Nasceram” os desenhos rupestres eram bem mais do que meras representações das caçadas primitivas, uma vez que as pinturas não reproduziam fidedignamente a realidade, mas um terceiro plano, surreal, quase cubista.

    A inspiração para tanto vinha dos ritos xamânicos – o equivalente à missa atual – que eram realizados em torno de uma fogueira e mediante o uso de maconha; esta combinação abria, como bem observou Jim Morrison, as “portas da percepção”. As metamorfoses do fogo – faíscas, temperaturas e cores – associadas aos efeitos da droga faziam com que os primitivos tivessem “visões” ou, como eles mesmos supunham, faziam com que as “almas falassem”.

    O surrealismo quase cubista dos desenhos rupestres deriva daí – há linhas paralelas, grupos de pontos, círculos, círculos concêntricos, cruzes, espirais, triângulos e uma série de outras geometrias sobre ou ao redor de figuras humanas isoladas ou agrupadas em cenas de caça, guerra, trabalhos, relações sexuais, partos etecetera.

    O homem não estava simplesmente copiando o que ele via, mas capturando, de uma maneira inovadora, o mundo que o circundava. Este nascimento artístico, por assim dizer, ocorreu a 30 ou 40 mil anos atrás e foi o ponto fundamental para construção, por exemplo, do Império Babilônico, da Civilização Suméria e do Antigo Egito. Pois, como o homem, isolado no tempo e no espaço, poderia ter construído as Pirâmides de Gizé no meio do Saara sem o auxílio da imaginação-criativa?

    *a série de documentários “Sobre como a Arte Construiu o Mundo I, II, III, IV e V” aborda o assunto da “evolução” de uma maneira argumentativa; vale a pena assistir.

    Diego.

    1. Prezado Diego,
      grato pelo ótimo texto!

      A imaginação criativa e/ou artística foi fundamental para a evolução humana. A apreciação da arte nos une, enquanto a competição guerreira e comercial nos rivaliza. Salve a casta dos trabalhadores-criativos!
      att.

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