Debate na França sobre Ensino de Economia

eu_nao_sou_seu_pai_que_eu_apenas_ensino_a_economia_camiseta-r3725cc39948e42958492510dd1d95357_8nhm6_324Prezados seguidores,

recebi um comentário do Vinicius, neste modesto blog,  com informações que compartilho abaixo com maior destaque.

Já postei aqui o “Manifesto Pós-Autista“:

Manifesto Pós-Autista: Carta Aberta dos Estudantes aos Professores e Responsáveis pelo Ensino de Economia

Abaixo do Comentário, traduzi a Carta Aberta ao Jean Tirole.

Abraços,

Fernando

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Prezado Prof. Fernando,

Não sei se você tem ciência do capítulo que se desenrola na França há alguns meses a respeito deste debate sobre o ensino da nossa disciplina. Em sendo você um dos representantes de peso entre os heterodoxos no Brasil, tomo a liberdade de sugerir que este tema seja novamente objeto de reflexão sua neste blog, que vem cada vez mais se consolidando como uma excelente alternativa ao “mais do mesmo” no debate sobre economia no nosso país. Enfim, o “resumo da ópera”:

Economistas heterodoxos franceses, insatisfeitos com o viés dos critérios de avaliação e tudo o mais, tentaram criar uma divisão no Comitê Nacional de Universidades (CNU). Pleitearam sair da categoria “Ciências Econômicas” para uma nova, “Economia e Sociedade”. Jean Tirole, ortodoxo e prêmio Nobel, com toda a empáfia peculiar aos neoclássicos et caterva, enviou uma carta ao Ministério da Educação contra a divisão: ( http://assoeconomiepolitique.org/wp-content/uploads/Lettre-de-jean-Tirole.pdf.)

Nesta carta, alegando que seria uma catástrofe, ele sugere o embargo à iniciativa. Sem o menor pudor, oferece-se para coordenar uma “amostra representativa de pesquisadores de renome internacional (vencedores de prêmios Nobel – sic)”, para julgar o mérito deste pleito. Pois é, “um economista liberal pedindo ajuda ao Estado para o monopólio na ordem universitária”.

A carta teve uma resposta contundente e provocadora dos economistas heterodoxos, que expõem brevemente algumas razões para o dissenso. (http://assoeconomiepolitique.org/lettre-ouverte-jean-tirole-la-diversite-intellectuelle-nest-pas-source-dobscurantisme-et-de-relativisme-mais-dinnovations-et-de-decouvertes/#more-3386)

Além disso, elaboraram um documento intitulado “Para que servem os economistas se eles dizem todos a mesma coisa? – Manifesto por uma Economia Pluralista”, que explora mais detalhadamente: (http://assoeconomiepolitique.org/wp-content/uploads/manifeste_pour_une_economie_pluraliste-AFEP.pdf. )

Gostaria de partilhar porque diz respeito a uma realidade dos cursos em todo o mundo. Não em vão que estudantes se uniram e escreveram uma carta proclamando a Iniciativa Internacional dos Estudantes pelo Pluralismo em Economia. A meu ver, a situação no Brasil não está tão dramática quanto na França, mas se nada for feito veremos cada vez mais nossos cursos tornarem-se menos plurais. Veja a vontade com a qual querem tirar o peso da prova de Economia Brasileira da ANPEC (onde ela ainda representa algo), por exemplo…

Abraço,

Vinícius

Carta aberta ao Jean Tirole (Postada em 29 de janeiro de 2015 por AFEP)

Caro senhor,

Diversidade intelectual não é uma fonte de obscurantismo e do relativismo, mas sim de inovações e descobertas!

Um post da AFP na quinta-feira, dia 23 janeiro de 2015, relatou uma carta que você enviou para o Ministério da Educação. Esta carta, eles disseram, teria desempenhado um papel-chave no declínio do Ministério quanto à sua intenção de criar uma nova seção em Economia.

Parece ser útil respondê-la, porque suas palavras ilustram as motivações que nos levam a querer deixar a seção “Economia” para uma nova seção “Economia e Sociedade“, aberta e interdisciplinar. Neste contexto, você mencionou uma possível “catástrofe para a visibilidade e o futuro da investigação em Economia em nosso país”. Você escreve que este projeto “promove o relativismo do conhecimento, a antecâmara do obscurantismo.”

Você escreve que “a crítica […] à falta de interdisciplinaridade, cientificidade e da utilidade social da Economia Moderna são infundadas” e acrescenta que, dado o seu trabalho usando a Psicologia, você merece “ser parte desta nova seção”. Você não parece querer multiplicar os critérios de avaliação para os jovens economistas e julga “indispensável que a qualidade da pesquisa seja avaliada com base em publicações” nas principais revistas científicas, notadamente as norte-americanas.

Em suma, você acha que só há um única maneira de fazer a Ciência Econômica. Nesta visão monista da Ciência, a diversidade de pontos de vista promove o relativismo e ameaça a excelência.

Não, Sr. Tirole, diversidade intelectual não é uma fonte de obscurantismo ou relativismo, é uma fonte de inovação e descoberta. A Ciência progride, ultrapassando margens estreitas, através minorias corajosas, cujos méritos, muitas vezes, são reconhecidos muito mais tarde. Gauss estava com tanto medo de apresentar as premissas de sua Geometria não-euclidiana que esperou décadas para torná-las públicas. Riemann e Helmholtz foram insultados por Dühring, vencedor de prêmios de prestígio concedidos por maiorias influentes, vinte anos após os escritos fundamentais de Riemann em Geometria Diferencial. A Geometria de Sistemas Não Lineares de Poincaré foi largamente ignorada por sessenta anos até que a Teoria do Caos Determinístico a fez retornar para a frente do palco. [1]

Está em jogo não apenas uma questão científica, mas também um problema democrático fundamental: porque a Democracia, inclusive no interior da Universidade, impera com base na regra da maioria, mas também fundamentada em instituições pluralistas que garantam que as vozes minoritárias possam se expressar, explorar novas formas, estimular o debate e convencer.

Dentro da seção atual da “Ciência Econômica” já não existem instituições pluralistas. Certamente, você vai explicar-nos que a economia mainstream, tal como ela vive hoje, não é monolítica: e aqui você, certamente, terá razão pois ela é composta de várias espécies, cuja aparências, habitats e genealogias variam. Mas isto é um pouco como a biodiversidade dos mamíferos ser reduzida apenas para a impressionante família dos felinos, causando a extinção de outras espécies de “mamíferos econômicos”, baseado no fundamento que suas vozes e suas presas são menos poderosas. Essa biodiversidade está muito pobre para a vitalidade do ecossistema.

Nós, cientistas, todos nós precisamos de ser muito bem avaliados, mas a natureza das avaliações não devem produzir uma endogamia padronizada dentro da Ciência. Para as produções mais inovadoras enfrentarem as rotinas em vigor, elas muitas vezes lutam para encontrar o seu lugar entre as revistas mais bem estabelecidas. Ao padronizar a avaliação, forçando uma identidade de objetivos, métricas e, então, de conteúdos, nós matamos as variações e as inovações que moldam os caminhos evolutivos da produção de conhecimento científico. Nós tomamos as rédeas, artificialmente, das necessárias hibridações com outras disciplinas que procedem de acordo com outros modelos.

Nós, os membros da AFEP, publicamos em revistas internacionais (inclusive no sentido estrito de revistas estadunidenses). Mas estas, porque elas publicam outras formas de praticar a Ciência Econômica, são relegadas para as margens dos “rankings” em vigor em Economia. Nem sempre foi assim. Houve um tempo quando a American Economic Review e o Quarterly Journal of Economics congratulavam-se com autores de diversas correntes. Esse tempo já passou. Estudos bibliométricos sobre o funcionamento da disciplina “Ciência Econômica” desvendam o funcionamento das principais revistas de Economia e atestam que as discussões foram extintas dentro delas. [2]

Ao contrário de revistas internacionais equivalentes de outras Ciências Sociais, essas revistas econômicas publicam uma proporção considerável de autores universitários que conectam seus comentários entre si e se caracterizam pela baixa citação de trabalhos de outras Ciências Sociais. Sob o manto da “excelência”, estamos na presença de redes estreitas e fechadas de autocitações.

A economia mainstream é tão concentrada em si mesma que ela não cita outras correntes! No entanto, as correntes pluralistas da Economia Política citam o trabalho de outras Ciências Sociais e de suas diferentes abordagens teóricas, incluindo o seu, Mr. Tirole! Como os periódicos são classificados pelo número de citações e como [por definição] as minorias são menos numerosas do que os grupos dominantes, as revistas sectárias, mecanicamente, obtém mais citações do que as revistas mais pluralistas. Não confunda fanatismo e qualidade!

Convencido de sua superioridade, os economistas dominantes competem em arrogância. Muitas vezes, o que eles chamam de interdisciplinaridade nada mais é do que o seu imperialismo ao observar outras disciplinas: eles replicam à vontade suas fórmulas vulgares nas áreas estudadas por outras Ciências Sociais, impõem assim seu modelo habitual, qualquer que seja seu objeto, e se importam pouco sobre o que as outras disciplinas têm a dizer. Esta extensão de um fundo de comércio intelectual, certamente, permite publicações padronizadas em escala industrial, mas corresponde ela a uma troca genuína e inovadora?

Desejamos praticar uma interdisciplinaridade generosa, baseada na reciprocidade e (re)conhecimento mútuo. Esta abordagem interdisciplinar é exigente, requer longos esforços de apropriação do pensamento e de métodos de análise de outras áreas de conhecimento, mas ela é rica em inovações.

Evitemos a padronização do pensamento em Economia pela imposição de critérios estreitos, em uma escala uniforme, evitando qualquer variação em relação à norma. Porque, sem diversidade, a Democracia, assim como a Ciência, ambas murcham.

Onde estavam as análises antecipadoras dos mecanismos que levariam à crise financeira 2007-2008 nos anos que antecederam a crise? Elas não estavam nas “revistas de excelência”, mas sim em livros e revistas da minoria ou em blogs. Elas foram escritas por economistas minoritários e pesquisadores de outras disciplinas! Onde se situam as luzes, onde está o obscurantismo?

A disciplina econômica está agora bloqueada em uma dependência de trajetória sub-ótima. Temos de abrir novos horizontes e oferecer aos nossos colegas, assim como aos nossos alunos, um menu variado, que eles estão pedindo urgentemente. [3]

A nova seção [Economia & Sociedade] vai abrir um espaço para a liberdade experimental, modesto, mas exigente. Ela não faz nada para remover a corrente mainstream que não seja apenas romper com o seu monopólio sobre a disciplina. É hora de insuflar um novo vento no reino dos economistas: vamos às experimentações e inovações!

Citações:

[1] Longo G. (2014), “Science, Problem Solving and Bibliometrics”, Invited Lecture, Academia Europaea Conference on “Use and Abuse of Bibliometrics”, Stockholm, May 2013. Proceedings, Wim Blockmans et al. (eds), Portland Press, 2014.

[2] Cf. notamment, Fourcade M., Ollier E., Algan Y. (2014), “The Superiority of Economists”, MaxPo Discussion Paper 14/3, Max Planck Sciences Po Center on Coping with Instability in Market Societies, Nov. 2014, http://www.maxpo.eu/pub/maxpo_dp/maxpodp14-3.pdf ; Francis J. (2014), “The Rise and Fall of Debate in Economics. New data illustrate the extent to which economists have stopped discussing each other’s work”, Joe Francis’ Blog, Aug. 29, http://www.joefrancis.info/economics-debate/ , et Lee F. S. (2007), “The Research Assessment Exercise, the state and the dominance of mainstream economics in British universities”, Cambridge Journal of Economics, 31, 309–325.

[3] ISIPE (2014), “Pour une économie pluraliste : l’appel mondial des étudiants”, Le Monde, 5 mai 2014, en ligne : http://www.lemonde.fr/economie/article/2014/05/05/pour-une-economie-pluraliste-l-appel-mondial-desetudiants_4411530_3234.html

Leia mais:

Já postei neste modesto blog:

https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2013/12/03/protesto-nas-universidades-europeias-por-um-novo-ensino-da-economia/

Estudantes de Economia necessitam aprender mais do que Teoria Neoclássica

Manifesto Pós-Autista: Carta Aberta dos Estudantes aos Professores Responsáveis pelo Ensino de Economia

Rethinking Economics

Post-Crash Economics

Institute for New Economic Thinking

Post Keynesian Economics Study Group.

Are Economics Graduates Fit For Purpose?.

“Não é apenas a economia mundial que está em crise. O ensino de Economia também está, e as consequências disso vão muito além do âmbito acadêmico.”

É assim que começa uma carta aberta assinada pelo ISIPE (sigla em inglês para Iniciativa Internacional de Estudantes para o Pluralismo Econômico — http://www.isipe.net/ e https://www.facebook.com/ISIPE.NET?ref=hl) e divulgada no início do mês de maio de 2014.

O grupo é formado por 65 associações de 21 diferentes países – entre eles Estados Unidos, Rússia, Índia e Reino Unido. O Nova Ágora assina pelo Brasil.

2 thoughts on “Debate na França sobre Ensino de Economia

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