Dolarização da Argentina

Dolarização da ArgentinaArgentina da CristinaMarli Olmos (Valor, 04/08/15) avalia que, se para o brasileiro ainda soa estranha a ideia de voltar a guardar dólares, para o argentino a moeda americana continua a ser o investimento preferido. Dados oficiais indicam que a população argentina guarda US$ 190,6 bilhões fora do sistema financeiro nacional. Esse dinheiro, equivalente à metade das reservas cambiais brasileiras, está guardado em contas bancárias no exterior ou “debaixo do colchão” (cofres particulares) e equivale a quase seis vezes as reservas internacionais do país.

Pode ter chamado a atenção de muitos investidores que no Brasil o dólar ganhou das demais aplicações recentemente. Mas na Argentina isso não é novidade. A diferença é que no país vizinho a lucratividade desse tipo de investimento depende do mercado paralelo.

Somente em julho de 2015, a valorização do dólar “blue”, como é chamada a moeda americana no mercado paralelo, alcançou 11,5%, percentual muito próximo do que ganhou quem deixou o dinheiro em banco, numa aplicação de prazo fixo durante os sete primeiros meses do ano (13%).

Segundo o Indec, o instituto de estatísticas do governo federal, até o fim de 2014, os ativos em moeda estrangeira dos argentinos somavam US$ 271,9 bilhões. Desse total, 12% correspondiam às reservas do Banco Central (US$ 31,4 bilhões). Se excluídos investimentos como compra de imóveis e os créditos por exportações sobram, segundo o Indec, US$ 190,6 bilhões em ativos, a maioria não declarados.

Alguns acreditam que a obsessão pelo dólar pode perder força com a mudança de governo no próximo ano, pois espera-se que o sucessor da presidente Cristina Kirchner acabe com a restrição à venda de moeda estrangeira, em vigor desde 2011. Mas, para isso ocorrer, o país precisa voltar a ter acesso ao mercado internacional.

A diferença entre a cotação do dólar oficial e do paralelo era de 61,85% no início de agosto de 2015. “Essa diferença está ligada à restrição, o que significa que isso poderia chegar a zero até o fim de 2016 [primeiro ano do próximo governo] se a restrição à compra de moeda estrangeira acabar”, diz o economista Eduardo Ye-yati, diretor da consultoria Elypsis.

Na tentativa de evitar a subida do dólar no mercado paralelo, o Banco Central tem liberado aumento de juros nas aplicações de prazos fixos. Mas é difícil imaginar que o argentino deixará de se apegar à moeda americana. “Temos uma grande paixão pelo dólar como uma proteção ao risco”, afirma Aldo Abram, diretor da Libertad & Progreso, uma entidade que reúne economistas.

O argentino das classes média e alta continua a ser um frequentador assíduo das casas de câmbio, as chamadas “cuevas“. Comparece a esses estabelecimentos com mesma naturalidade com que vai a um banco. É freguês dessas casas o assalariado que troca as economias que sobraram no mês para se proteger da inflação ou aquele que voltou de viagem ao exterior com trocados e precisa pagar contas.

Na Argentina, o dólar ganha nomes, com as respectivas cotações, numa variedade incomum para a maioria dos países. Alguns são apelidos criados informalmente, como o “blue“, do paralelo. Mas existe também a nomenclatura lançada pelo governo, como o dólar “ahorro”, que pode ser comprado, em volumes limitados, em banco para finalidade de poupança. Muita gente aproveita para comprar essa cota e depois revende-la no mercado paralelo.

Em um resquício dos tempos de inflação muito maior que a atual, o mercado imobiliário argentino ainda se movimenta em dólar. É nesses valores que os apartamentos são anunciados para venda e, em muitos casos, para aluguel.

Quem viaja para o país vizinho consegue pagar a conta do restaurante em moeda estrangeira e até fazer câmbio ali mesmo, sem sair da mesa da refeição. Muitas lojas de regiões turísticas aceitam dólar por cotações tão atraentes quanto as melhores casas de câmbio.

O brasileiro que for para a Argentina não precisa se preocupar com o enfraquecimento da sua moeda por enquanto. Apesar de ter se desvalorizado quase 23% neste ano, o real ainda é bem aceito. As casas de câmbio pagavam no início de agosto de 2015 até quatro pesos pela moeda brasileira, 36,5% mais que a cotação oficial, oferecida nos bancos.

Aliás, se a ideia for fazer compras em Buenos Aires, o visitante pode se dar ao luxo de levar até talão de cheque de conta brasileira. Uma loja da Calle Florida, tradicional reduto turista da capital argentina, aceita cheque em reais de agência bancária brasileira. “Mas só para compras acima de 700 pesos”, avisa a vendedora ao deixar escapar que o cheque é trocado com parceiro da loja no Brasil. Com esse dinheiro é possível levar para casa quatro suéteres sem precisar fazer câmbio e nem passar o cartão de crédito.

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