Documentário sobre a Vida de Frank Sinatra

Boa dica para o feriadão. Assisti logo que foi lançado no Netflix. Agora, li (Valor, 30/10/15) a boa resenha habitual em Amir Labaki, diretor­ fundador do É Tudo Verdade Festival Internacional de Documentários. Na verdade, o mais interessante do documentário sobre a vida de Frank Sinatra é que ele mostra os contextos de suas distintas fases de vida de maneira admirável. É a história norte-americana do século XX que visualizamos em uma recuperação extraordinária de imagens. Faz lembrar a série sobre Jazz de Ken Burns, o melhor documentário sobre a maior expressão da cultura popular nos Estados Unidos.

“Desde a semana passada está oficialmente aberta, também por aqui, a comemoração do centenário de nascimento de Frank Sinatra (1915-1998), a ser completado em 12 de dezembro. A partir de então é possível assistir pela Netflix ao documentário em duas partes “All or Nothing At All“, de Alex Gibney, lançado nos EUA pela HBO em abril. Em pouco mais de quatro horas, Gibney resume o essencial da obra e da vida do mais admirado, influente e perfeccionista cantor de música popular do século XX. Como esqueleto dramático, ele se apoia nas filmagens do show de despedida de Sinatra em junho de 1971, em Los Angeles. Sim, dois anos mais tarde ele já estava de volta aos estúdios e palcos, vindo mesmo ao Brasil para uma apresentação histórica no Maracanã em 1980 e uma série de shows mais intimistas no Maksoud Plaza, em São Paulo, em agosto do ano seguinte.

Mas naquele momento bem poderia ter sido verdade. “Ele estava esgotado”, confirma no documentário o filho Frank Sinatra Jr. A vendagem de seus novos álbuns despencara para uma fração da de sua fase áurea da gravadora Capitol nos anos 1950. Em 1970, seu penúltimo álbum antes do anúncio da parada, “Watertown”, 11 canções inéditas sobre um homem abandonado por mulher e filhos, mergulhara para o pior desempenho comercial de sua carreira, vendendo apenas 30 mil cópias. “Estou sendo absolutamente sério quanto à aposentadoria”, disse então Sinatra ao repórter Thomas Thompson, um pouco antes de entrar em cena em Los Angeles. “Uma declaração como a que fiz não pode ser papo furado. Ao menos eu não a faria. Não sou desse tipo.”

Sinatra roteirizou sua apresentação para espelhar, em 14 canções, a curva musical de sua carreira. Gibney emprestou a estrutura para seu filme duplo, mostrando muitas vezes versões integrais de várias delas como comentários para distintos momentos da trajetória de seu personagem.

Contando com o selo oficial da família Sinatra, a dupla de filmes nos oferta um impressionante arsenal de imagens e sons de arquivo, fotos, filmagens públicas e privadas e gravações para TV, apoiado por entrevistas apenas sonoras com familiares (a primeira mulher, Nancy, os filhos Nancy e Frank Jr.), amores (Lauren Bacall, Mia Farrow), colegas (Tony Bennett, Harry Belafonte), amigos (o jornalista Pete Hamill) e admiradores (Bruce Springsteen). A lista completa monopolizaria esta coluna.

Entre os depoimentos de variados períodos do próprio Sinatra, nenhum tem trechos mais reveladores do que uma entrevista concedida nos anos 1960 ao então âncora mais conceituado da TV americana, Walter Cronkite. A partir das perguntas estudadas do experiente repórter, muito de sua vida ganha foco: a origem modesta (em Hoboken,

em Nova Jersey), a relação com a família (a que o colocou no mundo e a que construiu com Nancy), o convívio com mafiosos, o temperamento explosivo, a revolta contra a segregação racial.

Na primeira parte, Gibney recorre aos títulos escritos das canções para dividir os episódios, de “All And Nothing At All”, para uma quase hora completa sobre a infância, a juventude e a precoce experiência como cantor até cair na estrada em fins dos anos 1930 com a orquestra de Harry James, até “Angel Eyes” (desrespeitando a ordem do show), sobre a primeira grande queda após uma década áurea depois de roubar a cena na orquestra de Tommy Dorsey (1940-1942), mergulho traduzido romanticamente por sua tempestuosa relação com Ava Gardner.

Essa sinalização por títulos não se repete na segunda parte, com as canções passando a pontuar livremente cada nova fase. Gibney inicia com “I’ve Got Under My Skin” simbolizando a encantada parceria entre Sinatra e o arranjador Nelson Riddle em seis de seus maiores álbuns, gravados para a Capitol entre 1954 e 1957: “Songs for Young Lovers”, “Swing Easy!”, “In The Wee Small Hours” (o mais dilacerante), “Songs for Swingin’ Lovers” (o predileto de Sérgio Augusto), “Close To You” e “A Swingin’ Affair!” (uma despedida de absoluto luxo). Se você quer ouvir Sinatra no topo da forma, é esta a discografia essencial.

O filme prossegue com “The Lady Is a Tramp” embalando o auge da fuzarca com o “Rat Pack” ao lado de Sammy Davis Jr. e Dean Martin, “Fly To The Moon” marcando tanto o pico de sua influência política, com o auxílio para a eleição de JFK (que, empossado, logo dele se afastou), quanto a consolidação de sua carreira empresarial (produtora e gravadora próprias, titânio e aviação), e “Ol’Man River” emblematizando sua militância social e antissegregacionista.

“That’s Life” e “My Way” amarram a despedida dos tempos de glória indisputável, nos momentos finais de show e filme. O talento dramático de Sinatra (e aqui nem pudemos louvá-lo como ator) reservou para o encerramento uma encenação à cabaré para a interpretação final de “Angel Eyes”, que termina com Sinatra sumindo na escuridão para proferir o verso final, “Excuse me while I disappear”. Não era porém um adeus, louvem-se o céus, apenas um até logo. Nem mesmo a morte, afinal, poderia silenciar Sinatra.”

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