“Pescando Tolos” de George Akerlof e Robert Shiller

 

650x1000 - Pescando Tolos

A editora Alta Books comprou o direito da tradução e publicação do livro no Brasil com o título “Pescando Tolos – A Economia da Manipulação e Fraude“.

http://www.altabooks.com.br/pescando-tolos-a-economia-da-manipulacao-e-fraude.html

Greg Ip (WSJ, 25/09/2015) do jornal liberal The Wall Street Journal está injuriado. Suas fontes contumazes — economistas ultraliberais — estão sendo atacados por gente mais sensata… Reproduzo sua indignação abaixo.

“O mês foi bom para os céticos do livre mercado. No Reino Unido, um socialista confesso é o novo líder do Partido Trabalhista. O papa Francisco, que condena o mercado por promover o “consumismo extremo”, foi recebido, ao chegar nos EUA como um astro do rock. E agora, justo aqueles que supostamente deveriam sair em defesa do mercado, os economistas, estão aderindo ao ataque!

“Mercados competitivos, por sua própria natureza, produzem engano e trapaça”, escrevem dois ganhadores do Prêmio Nobel, George Akerlof e Robert Shiller, em seu novo livro, “Phishing for Phools“, que deve ser lançado no Brasil pela Alta Books.

Com base em lições da Economia Comportamental, os autores sustentam que o mercado incentiva empresas a explorar fraquezas comportamentais, como o desejo do consumidor de gratificação imediata em detrimento do bem-estar de longo prazo. Empresas que se negam a descer a esse nível seriam sobrepujadas pelas menos escrupulosas. E isso “não é um infortúnio ocasional. Ocorre em tudo quanto é lugar”, escrevem.Com a crise financeira global ainda fresca na memória das pessoas, e numa semana em que a Volkswagen foi acusada de fraude deslavada de testes de emissão de poluentes, críticas duras como essas estão fadadas a repercutir.

Mas há uma boa distância entre:

  1. reconhecer que o mercado às vezes falha🙂 e
  2. sustentar que ele é inerentemente falho.

Autoridades monetárias que partam da segunda hipótese correm o risco de fracassar por enxergar falhas no mercado onde não elas não existem e ignorar seus próprios vieses de comportamento, em ambos os casos deixando as pessoas em situação pior. A confiança da sociedade no livre mercado não mudou muito nos EUA nem no Reino Unido em relação a níveis pré-crise, e até na Argentina do papa a opinião não é muito pior do que era em 2009.

A Economia sempre reconheceu que, às vezes, o mercado falha. Fábricas, por exemplo, têm incentivo para poluir, pois é a sociedade, e não os donos da fábrica, que arca com o custo para despoluir o ar e a água. O mercado pode ainda premiar desproporcionalmente quem tem sorte e talento, agravando a desigualdade.

A Economia Comportamental vai além, sustentando que as pessoas tomam, sistematicamente, decisões tidas como irracionais por economistas. Elas poupam muito pouco para a aposentadoria, comem muita comida gordurosa e não se exercitam o suficiente, porque atribuem pouco valor ao futuro. Elas pagam preços inflacionados ou aceitam produtos inferiores devido a vieses pessoais, a informação limitada ou à inércia.

Akerlof, hoje na Universidade Georgetown, dividiu o Nobel em 2001 por demonstrar como a informação imperfeita causa descontrole no mercado – quando, por exemplo, quem vende sabe mais sobre o produto (um carro usado, digamos) do que quem compra. Shiller dividiu o Nobel em 2013 por mostrar que vieses psicológicos de investidores podem causar discrepâncias entre preços de ativos e seu valor fundamental.

Embora as descobertas da Economia Comportamental hoje sejam amplamente aceitas, aplicá-las de forma prática não é simples. Os governos buscam formas de usar a Economia Comportamental para melhorar políticas e a prestação de serviços. Inspirado no livro “Nudge”, best-seller dos economistas comportamentais Richard Thaler e Cass Sunstein, o Reino Unido montou uma “equipe de insights comportamentais”. No ano passado, a Casa Branca (onde Sunstein trabalhou no governo Barack Obama) fez o mesmo. Na semana passada, Obama instruiu agências federais a incorporar a ciência comportamental em seus programas.

Até aqui, foram bastante modestas as inovações concretas produzidas pela Economia Comportamental. Um trabalhador é mais inclinado a contribuir para o plano de aposentadoria complementar da empresa se receber um “empurrãozinho”. Quando jovens de baixa renda recebem informações melhores e o apoio simplificado de planos governamentais, é maior a chance de que entrem na faculdade e concluam o curso.

Essas inovações foram fortemente corroboradas por evidências experimentais. Mas volta e meia a Economia Comportamental é usada para justificar preferências políticas existentes com mínimo suporte empírico. Defensores de padrões de eficiência energética e subsídios vivem dizendo que o consumidor sistematicamente subestima a economia futura que carros, casas e aparelhos mais eficientes produziriam. Kip Viscusi, da Universidade Vanderbilt, e Ted Gayer, da Brookings Institution, dizem que 85% dos benefícios de aumentos recentes em padrões de eficiência energética de veículos são justificados por essa “irracionalidade do consumidor”.

Mas eles observam que o governo já exige que todo automóvel novo venha com uma etiqueta com uma leva de informações sobre a economia de combustível; obrigar o consumidor a comprar veículos mais eficientes sugere que tais etiquetas são “inúteis”. E o consumidor não parece irracional quando avalia a economia de combustível; um estudo revelou que mudanças no preço da gasolina estão intimamente refletidas nos preços relativos de veículos usados de menor eficiência energética.

Akerlof e Shiller têm toda razão em dizer que o lucro de empresas às vezes vem da venda de coisas que o consumidor não quer de verdade. É mais comum, no entanto, que uma empresa – como a Apple – se dê bem por descobrir o que o consumidor quer antes mesmo que ele se dê conta. E, embora sempre haja aquelas que vão agir sem escrúpulos, há toda uma nova safra de empresas – TripAdvisor, Angie’s List, Yelp – cujo negócio é justamente desmascará-las.”

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