Neuroeconomia e Economia Comportamental Previdenciária

Planejamento para o Futuro

Diego Valero Carreras, Professor da Universidade de Barcelona e Presidente da Novaster, consultoria previdenciária líder na Espanha e América Latina em assessoramento de provisão de benefícios, gestão de investimentos e riscos, escreveu um texto para o Livro Técnico do Congresso da ABRAPP em 2015, cuja tradução foi realizada por Flavia Pereira da Silva e Paula Félix: http://www.congressodosfundosdepensao.com.br/pdfs/Livro_Tecnico_Congresso_2015.pdf.

Os postulados tradicionais da Economia são insuficientes para compreender a realidade dos processos decisórios. As questões relacionadas à tomada de decisões ou às preferências individuais em decisões envolvendo risco – que são a base da teoria da decisão que imperava desde o final do século passado – sofreram uma mudança radical de perspectiva com os estudos realizados por Kahneman e Tversky.

As bases da teoria clássica da decisão que partem da maximização da utilidade do valor esperado e incorporam princípios racionais às escolhas foram questionadas pela Teoria da Perspectiva. Tal teoria, que deu a Daniel Kahneman o Prêmio Nobel de Economia – e que Amos Tversky não pôde receber face ao seu prematuro falecimento – incorpora, à análise, princípios da psicologia e do comportamento. Trata-se da origem da Economia Comportamental.

A Teoria da Perspectiva demonstra como ganhos e perdas decorrentes do processo decisório são percebidos a partir de um ponto de referência. O comportamento das pessoas mostra que somos conservadores no que diz respeito aos ganhos e ousados em se tratando de perdas. Isso significa que somos mais afetados pelas perdas que pelos ganhos.

Embora a teoria clássica considere as pessoas como “Homo economicus”, o que implica dizer que pensamos e escolhemos sempre de forma racional e nossas previsões não sofrem influências externas, a Economia Comportamental considera as pessoas como Homo sapiens. Ou seja, cometemos erros e fazemos previsões que revelam-se, por vezes, tendenciosas e incorretas.

A doutrina divide-se, portanto, entre os economistas clássicos, que acreditam que não deve haver intervenção no processo decisório, e os economistas comportamentais, que defendem a existência de algum tipo de ajuda que facilite a tomada de decisões, sem que isso pressuponha que alguém ou algo deve escolher por nós.

Segundo a Economia Comportamental, nos processos decisórios empregamos heurísticas e vieses cognitivos que nos distanciam das escolhas otimizadas. As heurísticas são um conjunto de atalhos mentais que nos permite simplificar o processo de cálculo da probabilidade de um evento vir a ocorrer e que, de fato, nos conduz a estimativas subjetivas de tal probabilidade. É óbvio que esse tipo de processo mental torna a tarefa mais fácil para nós, mas também é evidente que ele nos leva a cometer erros de forma sistemática.

Os vieses são justamente os erros que cometemos em função do uso recorrente das heurísticas. No final das contas, nada mais são do que armadilhas criadas pela nossa mente que acabam por nos distanciar das decisões racionais. Ainda que tentemos fugir dessas armadilhas, nem sempre é fácil antevê-las.

Isso acontece porque o nosso processo de pensamento é permeado por dois sistemas. O sistema um, também chamado de sistema automático, nos faz reagir de forma rápida e instintiva. Já o sistema dois, ou sistema reflexivo, nos permite reagir de maneira ponderada e controlada. De fato, possuímos um cérebro projetado para a sobrevivência, o qual, do ponto de vista neurológico, é chamado de “cérebro reptiliano” – que compartilhamos com boa parte dos animais ao longo da história. A evolução do nosso cérebro permitiu que desenvolvêssemos características de reflexão e inteligência próprias dos seres humanos.

Alguns dos vieses que caracterizam o nosso processo decisório guardam relação com certos arquétipos mentais que curiosamente consideramos lógicos. É inquestionável a nossa tendência em seguir padrões de comportamento pautados pelo azar, deixando de considerar o quão bem-sucedidos eles são de fato, porque nos deixamos influenciar pela maneira como as coisas nos são apresentadas. Não hesitamos em deixar de fazer algo caso tenhamos essa opção, pois buscamos evitar os riscos – e portanto os erros – resultantes de nossas intervenções. Em geral, não nos agrada tomar alguma atitude se podemos permanecer inertes; é doloroso quando algo que fazemos gera arrependimento.

Também temos uma interpretação bastante singular do conceito de equidade, pois o condicionamos a um determinado ambiente ou contexto, gerando certo grau de subjetividade que afeta as nossas ponderações objetivas.

Reagimos de forma exagerada frente a resultados acarretados por fenômenos recentes; além disso, acreditamos possuir uma capacidade fora do normal de prever o que pode acontecer. Dessa maneira, temos a sensação de controlar os acontecimentos.

Associamos as nossas opiniões às nossas lembranças; assim, a memória de algo que aconteceu tende a ficar marcada pelo momento de máxima intensidade do sentimento associado ao fato, em especial o seu fim, formando a memória que temos de determinado evento. Isso se dá porque dentro de nós vivem dois “eus”: o “eu” que recorda e o “eu” que vivencia, com clara predominância do primeiro “eu”.

Quando falamos de previdência e das decisões relacionadas ao tema, precisamos ter como enfoque o desenho de uma arquitetura de decisões. O leque de opções disponíveis ao indivíduo deve ter uma estrutura simples, com escolhas limitadas e de fácil compreensão. A chave é tornar os processos o mais simples possível. Para que o processo mental que envolve a tomada de decisões se dê de forma adequada, as escolhas devem “entrar” pelo sistema automático de pensamento para posteriormente atingirem o sistema reflexivo. As opções disponíveis não devem ser neutras, isto é, o indivíduo deve ser gentilmente conduzido pelo caminho a ser percorrido.

Não nos esqueçamos de que as decisões relativas ao planejamento previdenciário são pouco frequentes, além de terem um efeito diferido que não nos permite compará-las nem buscar referências, conforme estamos acostumados. Ademais, não desfrutamos imediatamente dos resultados por elas acarretados. Logo, é imprescindível que facilitemos essa tomada de decisões, proporcionando opções padrão e facilitando uma percepção imediata sobre a decisão tomada. Similarmente, precisamos criar incentivos que levem o indivíduo a agir. Em suma, o processo deve ser o mais fácil possível.

Em se tratando de previdência, é muito fácil não tomar atitude alguma, adiar ao máximo uma decisão, superestimar o curto prazo, não ter convicção sobre uma determinada escolha ou estar sujeito a influências que venham a alterá-la, tendo em vista a falta de compreensão sobre o assunto e a tendência humana de considerar, de forma excessiva, tudo aquilo que nos é conhecido.

Algumas das experiências mais bem-sucedidas da Economia Comportamental aplicada à previdência estão presentes no programa Save More Tomorrow, de Thaler e Benartzi, responsável por fazer aumentar tanto o número de participantes quanto os níveis de contribuição dos planos 401(k) estadunidenses.

A Economia Comportamental nos diz que a arquitetura da informação deve ser compreensível, justificável, incentivadora, motivacional e útil, nos indicando o caminho a ser percorrido para que possamos construir uma poupança de aposentadoria adequada. Um dos problemas fundamentais com o qual nos deparamos é a falta de identificação com o “eu” idoso.

Os postulados da disciplina sugerem que devemos ter a capacidade de transportar o indivíduo para o momento da sua aposentadoria, fazendo-o visualizar e sentir as emoções daquele momento.

Nesse sentido, tudo que envolva a oferta de opções padrão, taxas de contribuição adequadas/recomendadas e incentivos para estimular a permanência no sistema previdenciário certamente renderá bons frutos.

É preciso fornecer elementos conhecidos que possam ser bem recebidos pelas pessoas, permitindo-lhes tomar como ponto de partida um referencial simples que lhes seja familiar. Desde o primeiro momento, é importante que a informação seja favorável, gerando confiança e evitando mudanças substanciais no status quo inicial.

Uma vez que a pessoa tenha compreendido a necessidade de dar início ao processo de poupança para a aposentadoria e esteja realizando aportes ao plano de pensão, é primordial continuarmos facilitando o processo. As informações posteriores, periodicamente transmitidas ao indivíduo, também precisam ser simples, claras e transparentes, contendo elementos que o participante realmente necessite conhecer, como qual deve ser sua expectativa de renda levando-se em conta a rentabilidade e as contribuições futuras.

Muitas vezes, é inútil sabermos qual é o capital acumulado em determinado período – inclusive o quanto teremos acumulado no momento da aposentadoria – já que temos dificuldades para traduzir esses montantes num fluxo mensal de renda. Tais informações tendem a gerar uma falsa ilusão de riqueza, levando-nos a achar que os valores acumulados são suficientes para que vivamos bem o resto de nossas vidas.

Informações sobre os retornos dos investimentos mostram-se, em muitos casos, pouco úteis ou insuficientes para que tenhamos uma verdadeira noção de como a poupança de aposentadoria está evoluindo. Informações sobre a rentabilidade trimestral das aplicações, por exemplo, podem nos dar uma imagem distorcida do progresso real e, num cenário ainda mais pessimista, levar-nos a tomar decisões totalmente equivocadas baseadas em nossa percepção dos acontecimentos recentes e na supervalorização que a mente confere a tal percepção. Para nós, o que realmente importa é saber qual a rentabilidade de longo prazo, quais os retornos médios futuros e de que maneira eles afetarão a renda mensal de aposentadoria.

Quando o sistema previdenciário nos permite escolher a forma como os ativos são investidos, é extremamente importante que tenhamos elementos que facilitem o processo decisório. Novamente, as opções padrão apresentam-se como uma ferramenta indispensável. Os modelos de ciclo de vida passaram a ser uma parte importante desta abordagem, pois simplificam o processo decisório de forma racional.

Na América Latina, o sistema de múltiplos fundos vem sendo utilizado como um substituto aos planos ciclo de vida. Em tais modelos, preserva-se a liberdade individual de escolha, embora, em geral, haja um direcionamento para o caminho mais adequado a ser seguido considerando uma perspectiva global. Em alguns casos, há limitações para a seleção de fundos com níveis de risco mais elevados por determinadas faixas etárias, e isso acontece porque os governos optam por se protegerem contra decisões individuais equivocadas que possam gerar impactos negativos sobre os direitos previdenciários.

A Economia Comportamental também pode ser de grande ajuda na fase de desacumulação ou percepção dos benefícios.

Há inúmeras maneiras de receber os valores acumulados no ato da aposentadoria. No entanto, não há dúvidas de que algumas delas são mais adequadas ao alcance dos principais objetivos de um sistema de aposentadoria. Aqui não se trata apenas de selecionar um ou outro instrumento em particular, mas combiná-los, permitindo, assim, que a fase de percepção de renda esteja alinhada às necessidades do aposentado. Tais combinações envolvem rendas vitalícias imediatas ou diferidas, saques programados e retiradas pontuais de capital da conta individual. Com informações adequadas e certo nível de assessoramento, é possível chegar a uma fórmula que promova um processo de desacumulação bem-sucedido.

Apesar das rendas vitalícias serem consideradas a solução mais adequada para a fase de desacumulação, sua falta de flexibilidade e a escassez de ativos de longo prazo para dar-lhes cobertura as transformaram em ferramentas pouco atraentes para a maioria. Torna-se necessário, portanto, que os governos trabalhem para favorecer o desenvolvimento de mercados de longevidade e ativos de longuíssimo prazo, tais quais os do mercado segurador, a fim de oferecerem alternativas interessantes, flexíveis e com custos razoáveis para os aposentados.

Algumas dessas dificuldades justificam a relutância das pessoas em contratar rendas vitalícias, preferindo sacar seus ativos em espaços temporais mais curtos. Não devemos esquecer que, nessa etapa, o processo decisório é extremamente delicado por vários motivos: por um lado, o recém-aposentado é forçado a tomar uma decisão importantíssima e em muitos casos irreversível. Por outro lado, as informações disponíveis para dar suporte a tal decisão tendem a ser insuficientes e enviesadas. Por fim, devemos compreender que cada caso é diferente, e o que é adequado para uns pode não ser para outros.

A evolução da Economia Comportamental encontra, na Neurociência, um excepcional complemento que permite, a partir do ponto de vista neurofisiológico, comprovar o que já era conhecido sob a ótica da Psicologia. As técnicas de estudo das reações cerebrais que temos à disposição nos possibilitam entender como certas áreas do cérebro reagem a estímulos e decisões de caráter econômico: é essa disciplina que chamamos de Neuroeconomia.

Efetivamente, o que fazemos é mapear comportamentos psicológicos em processos neurológicos, fornecendo uma base neurológica para as respostas comportamentais a problemas econômicos, a distribuição otimizada de recursos escassos.

Assim, a Neuroeconomia explica as decisões que surgem como resultado de atividades cerebrais que agem sobre a representação, a antecipação, a avaliação e a seleção. Já somos capazes, por exemplo, de associar o processo de acúmulo de poupança para a aposentadoria à ativação do corpo estriado do cérebro, onde se localiza o centro de prazer e recompensa, e também ao córtex médio pré-frontal, conectado ao sistema límbico, que se opõe ao córtex pré-frontal dorsolateral. Tais pulsões cerebrais são opostas e disputam, entre si, a decisão de economizar.

O desenvolvimento da Neurologia para explicar os processos econômicos é um campo extremamente novo. No entanto, não há dúvidas de que ainda há muito a ser explorado.

Mas o estudo do nosso cérebro não se limita à Neuroeconomia, dado que parte fundamental das decisões que tomamos – algo em torno de 95% – reside no inconsciente, envolvendo o sistema automático de pensamento. Não há dúvidas de que as técnicas derivadas da Psicologia Cognitiva sobre o inconsciente, bem como a programação neurolinguística, terão importante participação no desenvolvimento de estudos acerca dos processos decisórios dos seres humanos.

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